Entrevistas

Alice Teixeira fala do estudo das células-tronco e sua relação com o aborto

Por: Autores: Thiago Rosa & Rodrigo Prado

Dra. Alice Teixeira, 67, é médica, professora livre-docente de biofísica e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Bioética da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Os repórteres Rodrigo Prado e Thiago Rosa a procuraram durante o Ato Público na Sé para um bate-papo referente a um assunto bem delicado: estudo da célula-tronco embrionária e sua relação com o aborto. Com um diálogo muito produtivo, conseguimos trazer para os leitores do Fala Meu!, através de uma visão científica de uma estudiosa, alguns pontos de dúvidas e de questionamento que temos sobre este assunto tão discutido na mídia e muitas vezes não tão esclarecedor. Você confere nas próximas linhas, e pode tirar uma melhor conclusão e até formar melhor sua opinião sobre este tema tão polêmico que é o estudo das células-tronco.

O que é a célula-tronco?

Dra. Alice – A célula-tronco é uma célula especial do nosso corpo que tem uma capacidade de se auto-renovar e, quando necessário, ela consegue se diferenciar ao substituir as células dos nossos corpos que estão morrendo ou que já morreram.

A célula embrionária é uma célula-tronco?

Não, a célula embrionária não tem outro destino a não ser formar bebês. Quando ela é tirada do seu meio, ou, por exemplo, do útero materno, ela se transforma em uma célula cancerígena.

Como obter a célula-tronco?

A célula-tronco adulta, ela se encontra em todo o nosso organismo e existem tecidos que tenha maior número desta célula, um deles é a medula-óssea, outro é o tecido adiposo e, outro que vem sendo muito utilizado, é o sangue do cordão umbilical.

As várias formas de extração dela resultam em uma mesma célula?

Elas se resultam em uma célula que a gente está necessitando. Se você tem um enfarto no miocárdio, e você quer recuperar este coração enfartado, você pode fazer um auto-transplante de células-tronco extraídas da medula óssea do próprio paciente. Por isso é um auto-transplante e não tem perigo de rejeição imunológica. É a mesma coisa de um caso de uma paciente que tenha uma cirrose hepática, então se você quiser recuperar o fígado dela você pode fazer o mesmo procedimento: retirar células-tronco da medula óssea do próprio paciente e introduzi-las através da veia hepática no próprio fígado.

Com isso nós conseguimos também criar órgãos?

Por enquanto não! Não queremos saber de clonagem, que não deu certo para o ser humano e é extremamente antiético. Você não vai fazer um embrião clonado, para depois matá-lo, para depois fazer a cultura das suas células embrionárias. Porque, como já falei, estas células embrionárias são cancerígenas. Em fevereiro já saiu publicado um caso de um menino que na Rússia foi tratado com célula embrionária humana e atualmente ele está com um tumor no cérebro, comprovando isso que nós já vimos avisando que a célula embrionária é cancerígena.

Nós vemos muitos artistas e pessoas públicas falando a respeito e defendendo o estudo da célula-tronco…

Célula-tronco adulta são eticamente optativas de serem utilizadas, agora, o que não é ético, são as células embrionárias humanas.

Qual a relação da célula embrionária com o aborto?

A ciência há dois séculos vem mostrando, confirmando, tem um monte de resultados confirmando que o início da vida humana se dá na concepção. Se você pegar e matar um embrião humano de seis dias, ele é um ser humano que você mata para utilizar suas células. E, essas células, como já disse, a função dela é formar o bebê. E, portanto, ela tem que ficar no embrião, que é implantado no útero para desenvolver um ser humano. Então é um processo progressivo no desenvolvimento da pessoa humana, o que é antiético você matar o embrião humano mesmo que ele tenha sido clonado. E diga-se de passagem que não se conseguiu ainda obter um embrião, nesta fase inicial, clonado.

Congelar os embriões então, até para a inseminação artificial ou qualquer outro estudo é uma forma de aborto?

É, também é algo sem cabimento. Já saiu um trabalho agora na Human Reproduction, no dia 25 deste mês (março), que mostra ter um maior sucesso na reprodução assistida com um só embrião implantado. Não há sentido mais você sujeitar a mulher a uma super-dosagem hormonal para você obter e produzir 10 embriões, dos quais uma boa parte deles serão congelado.

Podemos entender então que a fase inicial na formação celular que se dá após a concepção já tem uma vida ali?

Sim, já é uma vida humana. Você está congelando um ser humano.

Mas este congelamento não pode gerar depois uma vida em um útero?

Pode.  Mas acontece que o congelamento é um processo que pode causar danos no embrião. Nos Estados Unidos, que já tem grande experiência no assunto, tem uma campanha de adoção de embrião independente e, tem alguns casos geralmente onde três, quatro embriões congelados que eles só conseguem ter sucesso em um, porque os outros três já foram prejudicados.

Então temos vários, milhares de seres que são congelados e depois são jogados fora?

Exatamente!

Onde a Dra. crê que termina a vida?

A vida é natural. Então você não pode chegar e achar porque o velho está dando trabalho e você matar o velho. Eutanásia também é um crime como o aborto. Mas o problema que eu vejo é que a hora que permitirem o aborto vem a eutanásia, por causa do interesse econômico.

Esta questão onde termina a vida, por exemplo, hoje esta questão para doação de órgãos você tem a morte cerebral. Isso é um encerramento da vida?

A morte cerebral é considerada como um corpo morto, sem vida. Você tem que ver que o corpo entra na dependência do aparelho, a manutenção dele, que não respira por si próprio, tanto que precisa colocar ele no aparelho para mantê-lo vivo. Nestas condições não tem mais chance de sobrevida, de viver por si próprio.

O caso da garota nos Estados Unidos que ficou 17 anos em estado vegetativo, em coma, entra neste mesmo diagnóstico?

Não, aquele caso não. Ali ela estava respirando e não precisava do auxílio do aparelho. A única coisa que tinha era que dar alimentação pra ela. Aquilo foi um assassinato porque simplesmente interromperam a alimentação dela e ela morreu por falta de alimentação.

Mas se o organismo da pessoa não conseguisse realizar algumas funções básicas, já que o organismo dela estava bastante debilitado…

Não, mas acontece que ela estava em coma, mas estava viva. Estava viva porque não necessitava de aparelhos para manter a sua vida. A única coisa que necessitava era que alguém desse alimento e água pra ela.

Alguns defensores do aborto alegam que você matar um embrião, ou um feto no começo, por ele não ter atividade cerebral, isso não caracteriza a vida.

Não, isso não é verdade porque, se até o sétimo dia ainda não formou o sistema nervoso dele, mas vai formar. Tem tudo pra formar o sistema nervoso. Não pode chegar e parar, não tem cabimento.

Uma grande dúvida das pessoas é: o que é a vida?

A ciência não pode dizer o que é a vida. A ciência responde o “como”. Se eu for responder o que é a vida, eu tenho que entrar na parte de filosofia e biologia. Como a ciência só responde o “como”, ela não consegue responder “o que”. A única coisa que a ciência faz é descrever o fenômeno. Ela não vai responder o porquê do fenômeno, ela não pode dizer qual a finalidade daquele fenômeno, e nem tão pouco qual a origem da questão. Existe uma restrição na ciência e que tem que ser entendida. A ciência está sendo tomada atualmente como no lugar da religião, por exemplo, como se fosse possível responder a todas as questões: da onde viemos e para onde vamos? Isso a ciência realmente não responde.

Fala MEU! Edição 74, ano 2009