Assuntos Diversos

Autonomia ou isolamento?

Autor: Edgar Egawa

Muito se fala em autonomia – financeira, administrativa, filosófica, jurídica.  Filhos saem de casa para formar suas famílias ou morar sozinhos, empregados investem tempo e dinheiro para abrir seus próprios negócios, pedestres se tornam motoristas para não dependerem de carona ou transporte público. Regiões colonizadas por outros países aspiram à independência política. As pessoas sonham com a casa própria para não dependerem mais do aluguel.

A Lei de Sociedade, no entanto, nos esclarece que estamos interligados e que nossa liberdade vai até onde começa o direito do nosso próximo.

Em organizações que requerem divisão do trabalho, é necessário que cada subgrupo tenha autonomia para realizar suas tarefas, ao mesmo tempo que elas devem fazer parte do planejamento global para atingir as metas.

Isso significa que a administração deve minimizar os conflitos e buscar a harmonia do grupo como um todo, evitando que se formem as “panelinhas”. Para isso, a comunicação dos departamentos entre si e com a administração central deve estar sempre azeitada.

Caso isso não ocorra, surge o isolamento de um grupo, ou dos grupos entre si, podendo gerar discórdia, estagnação e desmotivação. As pessoas perdem de vista a essência de seu trabalho e ele corre o risco de se descaracterizar ou desaparecer. Potenciais trabalhadores se afastam, e os que sobrevivem ao processo acabam sobrecarregados. Sem novas pessoas, não há arejamento de ideias, e muitas vezes, passa-se a trabalhar no piloto automático.

Tanto no Centro quanto no movimento espírita, corremos esse risco quando nos concentramos nos nossos próprios umbigos e esquecemos de olhar ao redor.

Caso não haja uma política clara de integração do grupo de trabalhadores, corre-se o risco de criarmos um vácuo que repercutirá nos próximos anos. Quanto mais avessos ao diálogo, maiores as chances de escaparem palavras ásperas que desestruturarão a equipe.

A insatisfação que é calada em nome da caridade pode ser comparada a uma bexiga que enchemos: ela pode estourar (discórdia) ou podemos resolver soltá-la de repente (afastamento). Mas também podemos controlar seu esvaziamento, nos dispondo a ouvir e falar sobre os problemas que nos afligem.

Cada uma das metas que queremos atingir em nossas vidas ou no meio espírita exigem de nós que tenhamos a maturidade e a capacitação necessárias para que possamos usufruir delas. Para formar uma família, é preciso muito mais que amor entre o casal – é preciso planejamento, disposição para entender e aceitar as idiossincrasias do seu par e construir uma vida de consenso. Para se tornar um empresário, não basta apenas o dinheiro – é preciso que a pessoa se prepare para administrar o negócio de forma adequada, a fim de não fechar no primeiro ano (destino da maioria das empresas abertas). Um motorista deve não só saber dirigir um veículo e saber as leis de trânsito, mas respeitá-las, principalmente. Para se adquirir a casa própria, a família deve ter consciência de que é um compromisso financeiro de longa duração, caso seja financiada, e que exigirá sacrifícios, com uma boa administração do orçamento doméstico.

Se queremos trabalhar no movimento espírita, temos que estar dispostos a argumentar e, algumas vezes, ver nossas propostas deixadas de lado momentaneamente, para serem reapresentadas em uma outra oportunidade, com maiores chances de aceitação.

Em 2003, o tema “Sexo” foi escolhido como tema central do evento conjunto entre o Departamento de Mocidade Espírita do Tatuapé e da Penha (Quinjesp – Quinzena do Jovem Espírita), por ter sido escolhido como tema para a Comecap (Confraternização das Mocidades Espíritas da Capital de São Paulo e arredores) do mesmo ano. Gerou-se

uma polêmica em torno do formato do evento e do assunto em si, mas algum tempo depois, tivemos a oportunidade de realizar a 1a UEMESP (União de Encontros de Mocidades Espíritas de São Paulo), com USE, FEESP e Aliança Espírita. E o tema Sexo é assunto de seminários em diversos locais, pois é algo que faz parte de nossas vidas e o desequilíbrio na sexualidade pode causar muitos problemas.

Muitas vezes o orgulho se deixa falar mais alto e promovemos o isolamento do grupo do qual fazemos parte para que nossas opiniões prevaleçam. Se queremos nos considerar espíritas realmente, devemos ter ser humildes. Não a humildade da voz adocicada e gestos suaves, mas a humildade necessária para respeitar a opinião do próximo sem que nos sintamos magoados por ele divergir de nós.

Se conseguirmos realizar essa transformação íntima, teremos autonomia sem isolamento e estaremos verdadeiramente integrados ao trabalho espírita.

Afinal de contas, nos definimos pela nossa individualidade e pelos grupos aos quais pertencemos. Assim, passamos de indivíduos a parte de uma família, região geográfica, religião, grupo étnico, opção sexual ou política ao mais amplo grupo possível – o de espíritos, filhos de Deus.

Fala MEU! Edição 72, ano 2009
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