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Cobertura EECDME 2007

Autor: Thiago Rosa

São José do Rio Preto.

Cidade com nome de santo, de céu aberto reluzente iluminando logo pela manhã por um feixe de luz solar o pequeno espaço entre a cortina e a borda da janela, que estava destampada. Os olhos marejados de sono, as pernas doloridas, já que não cabiam direito no espaço reservado entre a cabine do motorista e o banco. É ruim ser alto nestas horas. As costas dormentes, o sono ainda escalando todo o corpo. Um suspiro e a expressão: “- Chegamos!”.

Depois de seis horas de viagem pela noite adentro nas rodovias que rodeiam o estado paulista e nos levam para os seus arredores, apesar do cansaço, veio a alegria e o conforto de ter chego ao nosso destino. É o meu primeiro Encontro Estadual da Comissão Diretora de Mocidades Espíritas. Nome grandinho que reduzimos para a sigla EECDME.

Desta vez, com a sede em Rio Preto, a sétima edição do evento, organizada pelo pessoal do Departamento de Mocidades da USE, 3ª Assessoria, contou com um tema um tanto quanto discutido em seus bastidores, com bastantes resquícios, mas com o nome de “Pedagogia do Afeto”.

Baseado nas obras de Ermance Dufaux e sob a luz da codificação espírita, mesmo tendo estudado o tema em três outros momentos na cidade de São Paulo, através do Encontro de Dirigentes de Mocidades Espíritas da Capital e Arredores (EDMEC), sinto que desta vez o tema remexeu comigo. E, não muito silencioso, o tema mexeu com várias pessoas, jovens e adultos, de diversas formas. Acostumados nós que estamos com o estudo do tema, porém dividido em três edições anuais do EDMEC, não poderíamos visualizar resultado maior do que foi apresentado neste encontro.

Logo quando chegamos recebemos a nossa bolsinha de TNT contendo um manual de regras e explicativo sobre o encontro e sobre a cidade, uma caneta e um copo plástico contendo um bilhete dentro com cuidados sobre o sol forte que fazia na cidade e nos indicando a ingerir muita água para a não desidratação. Mesmo com a chuva que em muitos momentos participou conosco dos três dias que estivemos presentes na cidade, não havia nada que pudesse refrescar. Um ar abafado e quente. Nem sombra poderia afastar o calor que fazia. Não é por menos que todos os dias, desde que chegamos, os ventiladores das salas não pararam de funcionar um minuto sequer, nem na hora de dormir. Para nós que somos da cidade da garoa ou próximos da capital, um calor destes não estamos acostumados. E isso porque os moradores da cidade alertaram que os dias estavam frescos. Imagine só o que é calor pra eles.

Isso também não é nada. Muita água, banhos frescos e a companhia de diversas pessoas de diferentes realidades, culturas, a convivência com as diferenças que nos acercavam, mostram que o tema foi realmente aplicado desde o momento que chegamos até o momento final de adeus.

Reencontramos algumas pessoas de eventos passados, de laços de amizades longínquos, que muitas vezes não podem ser mais extensos pela distância que nos separam. Mas, quando reencontramos, o abraço apertado e afetuoso, de carinho, mesmo pra quem se sente um estranho, faz a reverência feliz de boas-vindas. A recepção foi muito proveitosa, feliz como um sentimento de paternalismo, podendo ser visualizado também nas salas de estudos entre os monitores bem preparados junto com os jovens participantes surpresos com cada momento novo que surgia.

Uma coisa tínhamos que pensar acima de tudo, que estávamos ali como aprendizes de novas ideias, troca de experiências e conhecimentos para trazermos de volta às nossas mocidades um novo estudo, uma nova forma de vivenciarmos o movimento espírita.

Confesso que meu desânimo inicial, causado por diversas coisas particulares, foi suprido pelos momentos felizes, com novas ideias que durante as dinâmicas e estudos aplicados, fervilhavam em minha mente como se brilhasse uma luz dentro de mim. Pensava a todo momento: “Nossa, isso eu posso levar pra minha mocidade”; “Isso pode ser feliz na distrital que eu atuo”.

A Pedagogia do Afeto está alinhada com os sentimentos, com a forma de ouvir, de tratar o jovem que adentra nas casas espíritas em busca de respostas para os seus anseios, dúvidas e questionamentos que ele não encontra em nenhum lugar. No EECDME, me senti como este jovem novo que acaba de adentrar em um grupo de estudo de mocidade. Poderia dali ter dois resultados: ficar frustrado por não encontrar o que queria, e apenas fingir que estava tudo legal; poderia ficar imensamente feliz por me sentir abraçado por todos e conseguir tirar proveito do material e estudo apresentado.

A segunda opção foi que me tomou conta.

Por um terceiro momento, o encontro pôde me permitir alguns questionamentos, como a minha postura de dirigente dentro da mocidade; de líder dentro de um grupo de amigos; do personalismo de algumas pessoas e dirigentes de casas espíritas que se fecham em seus sonhos e colocam todas as suas expectativas de vida sobre o trabalho exercido no espiritismo; as infelicidades e melindres ocasionados pela divergência de ideias; a forma de interagir em aula com os participantes de mocidade; o modo como é feito o trabalho de mocidade; se sou caridoso em ouvir; humilde em aceitar… São tantas coisas que fazem brotar, não só em mim, ideias novas de renovação de nossas atitudes, que podem fazer do movimento espírita mais enriquecedor, mais aberto e pensando acima de tudo no próximo. E pensar no próximo, na caridade, não é só na questão material de doação de alimentos, trabalhos beneficentes, mas sim, pensando nos sentimentos, na condução do trabalho, na forma de abordar os temas e principalmente ouvir. Quando estamos aptos a ouvir, estamos verdadeiramente aptos e enxergar com o coração.

Algo muito produtivo neste encontro foi perceber que os monitores, dentro do material de estudos que tinham em mãos, tinham ao mesmo tempo liberdade para aplicar as dinâmicas da maneira que melhor se adaptavam a sala. De acordo com o leque de opções que tinham, de acordo como a sala se reportava, eles sentiam-se livres para aplicar o tipo de material de estudo que seria ideal para os participantes que tinham em mãos.

Dentro destas dinâmicas, pela terceira vez em tão pouco tempo, para mim, a Tribuna da Humildade foi marcante. Descrita felizmente na obra Lírios de Esperança de Ermance Dufaux, os participantes, muitos deles surpresos por nunca terem visto a tribuna, puderam ter a oportunidade de abrir o seu coração em meio ao mundo desconhecido de olhos que lhes observavam e, de maneira muito comovente, contaram histórias marcantes. Um momento muito inspirador, me fazendo sentir feliz por poder estar ali participando e ouvindo. Histórias que fazem a nossa pequena dor se diminuir diante de experiências tão ímpar. Uma lição de vida.

Confesso que no último dia pude olhar para toda a escola que nos acolheu sentindo um aperto no peito como se tivesse vivido por aqueles dias um dos encontros e momentos mais felizes de minha vida. Uma comichão me apertava por dentro.

Ao escrever este texto começo a remontar na minha cabeça todo o percurso que fizemos durante o feriado de finados em Rio Preto.

Lembrança que perpetuará como mais uma vivência feliz na vida de todos os presentes. Assim como a guerrinha de bexiga d’água; as músicas que cantamos em roda com direito a violão, gaita, contra-baixo, sax e um vozeirão de jovens que ecoavam pela noite maravilhosa; as cômicas sátiras contadas pelo casal Polli e Leonora sobre os bastidores do EECDME; a comida saborosa muito bem elaborada pela equipe organizadora; todo o acolhimento com que todos fomos recebidos; a tempestade surpresa de chuva que nos fez correr pra dentro durante as aulas ao ar livre; as tardes ensolaradas rodeadas de amigos; a amizade; a partida de volta pra casa com o sentimento de felicidade por um evento que, sabemos, pode desencadear renovações em muitos jovens, no movimento espírita e em cada um de nós que estivemos presentes.

Fala MEU! Edição 57, ano 2007
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