Inclusão

Deficiência auditiva – Um olhar inclusivo

Autor: Rodrigo Prado

“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido”  Jesus (Mateus 5,17-18)

Ao lermos esses dois versículos do Novo Testamento (1), podemos tirar muitos ensinamentos, e dentre eles, um que desejo enfocar é a Lei de Causa e Efeito, que os espíritos nos trouxeram através das Obras Básicas (2).

Essa lei nos diz que toda ação gera uma reação, uma consequência – até aqui sem nenhuma grande novidade para a maioria das pessoas que já tiveram contato com essas explicações -, mas quantas vezes já paramos para refletir mais profundamente sobre essas tais consequências? Elas podem ser boas ou ruins, o que parece ser bem óbvio, não é? Mas se é tão claro assim, por que na hora de tomar atitudes, de fazermos nossas escolhas, ainda as fazemos erradamente!? Achei curioso esse questionamento quando me veio à cabeça… mas, então, o que falta ainda para escolhermos certo?

Normalmente quando tomamos alguma atitude, é porque achamos ou temos certeza de que é a melhor coisa a ser feita, de que estamos certos, porém muitas vezes não demora muito e tão logo vem um sofrimento, um desconforto, uma dificuldade, que se estivermos atentos, perceberemos o resultado da escolha errada.

Mas qual seria então um parâmetro, um modelo, para compararmos e sabermos se fazemos a escolha certa? Dizem-nos os Espíritos que o modelo é Jesus (3), que quanto mais seguirmos os seus exemplos, menos erraremos, isto é, mais apuradas, corretas, e sensatas serão as nossas atitudes, e isso ficará claro ao percebermos que as nossas escolhas deixaram de nos trazer sofrimentos, então não mais teremos dúvidas, ou falsas certezas sobre o que é o certo ou o errado, e fica mais fácil cumprirmos o maior de todos os mandamentos (4) ensinado pelo Mestre.

Enquanto isso na sala de justiça… ops, quero dizer, enquanto isso aqui na Terra, permanecemos todos nós nessa grande escola, repleta de “dores e prazeres da alma5”, onde além das nossas necessidades, existem as necessidades do outro, e, como diz o mandamento citado, “fazer ao próximo aquilo que desejamos que nos seja feito”. E será que estamos fazendo realmente tudo o que podemos? Posso afirmar – e não sei se infelizmente – que não, pois há coisas ainda que nem sabemos que não as sabemos. Ã, não entendeu? Quero dizer que existem coisas que simplesmente desconhecemos, que não temos a menor noção, que nunca vimos ou ouvimos falar, logo, não sabemos que não sabemos.

Bem, um exemplo disso é um problema que afeta cerca de 90mil pessoas só no estado de São Paulo, a surdez. Muitas são as pessoas com deficiência na audição, isto é, não ouvem, mas falam, ou são surdas e mudas, ou mais difícil ainda, são surdas e cegas. Quem não tem esse problema, pode imaginar como é viver assim? Como é de repente passar mal e chegar num hospital e ninguém te entender, querer falar com os outros e não poder, não ouvir o que as outras pessoas estão falando? Será que dá para viver assim?

Felizmente posso informar que sim, e quem nos mostra isso são essas pessoas, que as defino como vitoriosas, já que todos os dias levantam de suas camas determinadas, com muita vontade de viver, pois algo dentro delas as impulsionam a viver, mesmo com as suas limitações físicas, e nos dão grandes exemplos de que é possível superar qualquer desafio em nossas vidas.

Legal isso né, mas quantos são os surdos que você conhece? Eu conheço apenas um. Mas onde estão os outros 89.999? Seria curioso, se não fosse triste. Digo isso porque muitos vivem isolados em suas famílias, pois os pais e parentes os acham incapazes de conviverem com a sociedade. Outros até se relacionam com as pessoas, mas acabam por fazer isso apenas com os outros surdos, uma vez que pouquíssimas pessoas sabem falar a LIBRAS. Será que você sabe o que é a LIBRAS? LIBRAS é a Linguagem Brasileira de Sinais, uma língua como o português, só que expressada através de gestos pelas mãos, braços e expressões do rosto, que simbolizam letras, palavras e até frases inteiras.

A cada dia fico “espantado” com o número de pessoas que não sabem o que é isso, mais espantado ainda com os trabalhadores de centro espíritas, que parecem viver alienados a essa realidade, de que existem pessoas que são deficientes auditivas. Quer perceber isso você também, basta perguntar no centro, mocidade ou movimento espírita que participa, para as pessoas e ver se elas sabem o que é LIBRAS, se conhecem algum espírita que é surdo.

Existem centenas dessas pessoas que são simpatizantes da doutrina, mas “não” tem um centro espírita sequer que tem algum interprete ou palestrante que fale LIBRAS para que esses irmãos possam compreender uma palestra ou participar de um curso de espiritismo, restando-lhes então somente a leitura de livros espíritas e o bate-papo pela Internet para quem tem acesso a um computador.

Felizmente outras religiões há tempos já perceberam essa necessidade de levar a religião também aos irmãos com essas dificuldades, mas por outro lado, algumas dessas religiões, cujos seus dirigentes ainda bastante mesquinhos, proíbem esses surdos de conversarem com outros surdos que não pertençam a sua religião, havendo casos até de locais onde esses “religiosos” ensinam uma linguagem de sinais diferente da oficial que é a LIBRAS, para que então esses adeptos fiquem impossibilitados de conversarem com outros surdos que lhe pudessem esclarecer quanto aos abusos cometidos.

Triste, mas essa é uma realidade ainda existente. E o que fazer então? Bem, além de cobrar do governo ações sociais mais efetivas de inclusão desses surdos-mudos na sociedade como por exemplo, as crianças e jovens poderem estudar nas escolas públicas junto com os demais alunos que falam e ouvem, mas para isso disponibilizando um interprete -, podemos fazer algo que está mais ao nosso alcance, e aqui cabe a nossa parte, trabalhadores espíritas, porque não fazermos então curso de LIBRAS, abrindo então a porta das nossas mocidades e centros espíritas a esses irmãos?

Raras iniciativas já existem, e uma que estou tendo a oportunidade de participar é o curso de LIBRAS voltado para os espíritas que desejam se comunicar com os surdos-mudos – divulgando a doutrina – que está ocorrendo na Associação Espírita Beneficente Esperança de Luz, curso esse lecionado pela corajosa e esforçada amiga Sonia, que não se intimida diante da sua surdez para ensinar essa língua aos demais companheiros, onde através da leitura labial consegue se comunicar.

Há anos atrás, durante os Jogos Fraternos – evento esportivo realizado por mocidades espíritas – a amiga Aline levou uma amiga sua que era surda, e foi fantástico ver vários jovens se esforçando naquele momento para aprender alguns sinais da LIBRAS e se comunicar com aquela jovem, que ficou muito feliz por ser recebida fraternalmente por tantos outros jovens. Também né, num grupo onde Jair (vulgo Jotinha) e Ivan (grande companheiro que já nos antecipou no retorno ao plano espiritual) estavam presentes, não tinha como ficar parado, os caras são muito “palhaços”. Daquele dia em diante, nesse contato mais próximo com a realidade daquela irmã, percebi o quanto é importante essa socialização para ambos os públicos.

Bem, para os interessados no curso, no próximo dia 16 de julho, haverá a exibição de um filme abordando essa questão da surdez, lá na A.E.B. Esperança de Luz. O curso ocorre à segundas-feiras, das 20h às 21h30 e ainda é possível participar. O endereço do centro é rua Ouro Fino, 107 – Vila Buenos Aires – São Paulo/SP, essa rua é uma travessa da Avenida São Miguel, zona leste, próximo ao bairro da Ponte Rasa e Ermelino Matarazzo.

Eis então, caro leitor, mais uma reflexão, que como sugere o título desse artigo, vem no sentido de nos DESPERTAR para uma reflexão mais profunda da Lei de Causa e Efeito em nossas vidas e percebermos quais têm sido as nossas escolhas e as consequências delas, nos modificando hoje, semeando novas atitudes, para que amanhã, através das futuras encarnações, vivamos em um mundo melhor, onde não haja mais a necessidade de sofrimento e limitações do corpo físico, nem “choro e ranger de dentes (6)”.

1 – Novo Testamento ou Evangelho, conjunto de livros escrito pelos apóstolos de Jesus.

2 Allan Kardec (O Livro dos Espíritos; dos Médiuns; O Evangelho Segundo o Espiritismo; O Céu e O Inferno ou Justiça Divina Segundo o Espiritismo?; A Gêneses, Os Milagres e As Predições Segundo o Espiritismo; Revista Espírita-Jornal de Estudos Psicológicos; e outros).

3 Questão 625 de O Livro dos Espíritos.

4 Novo Testamento, Mateus, cap. XXII, versículos de 36 à 39.

5 Livros : As Dores da Alma, e Os Prazeres da Alma – Francisco do Espírito Santo Neto, pelo Espírito Hammed

6 Novo Testamento, Mateus, cap. XXII, versículo 13

Fala MEU! Edição 52, ano 2007

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