Assuntos Diversos

Demarcação: A quem interessa?

Autor: Leandro Soares

Certa vez, ouvindo a rádio 94 FM de Dourados, ouvi a entrevista de um índio guarani, de nome Acácio, que foi reclamar sobre o descaso com que ele e sua família estavam sendo tratados pela Funai e Funasa.

Suas palavras doídas, vindas do fundo de seu coração, tocadas pela revolta, davam conta que dois membros de sua família estavam a mercê de morrerem por falta de tratamento.

Com seu linguajar simples, Acácio fazia sua denúncia dizendo: “É, seu ‘Marçá’. A situação ’tá pecuária’” (queria dizer “precária”). E concluiu: “Índio só abre a boca quando morre”.

Nenhuma providência foi tomada. Tempos depois, a manchete nas primeiras páginas dos jornais era: “FOME MATA CRIANÇAS NA ALDEIA”. As crianças – subnutridas – nas quais as manchetes referiam-se eram os filhos de Acácio, que deram entrada no hospital da cidade pesando: uma delas 6kg e 700g; e a outra apenas 4kg.

Maior do que a falta de pessoal, veículos e medicamentos é o déficit de responsabilidade vinda dos únicos órgãos de proteção que esse povo têm.

A verdade é que, enquanto nossos irmãos morrem de fome, a política errada de conduzir suas vidas continua como motivo para um verdadeiro cabide de empregos.

Enquanto isso, nossas autoridades impedem o arrendamento das terras das reservas indígenas para agricultores que poderiam possibilitar uma renda que impediria que nossos pequenos índios morressem de fome.

A função das nossas “excelentíssimas” autoridades não é destinada à um público restrito. Vale lembrar que suas funções devem ser isentas e imparciais, em benefício de todos os brasileiros, independente de sua origem, raça, cor e/ou crença.

Se terras têm que ser demarcadas como terras indígenas, todo o Brasil deve ser demarcado; começando pelas áreas mais tradicionais do país, aquelas reconhecidamente indígenas.

Precisamos – e devemos – viver como irmãos que somos, cada um preservando seus costumes, línguas, tradições e crenças. Sem a interferência de quem quer que seja. Com políticas coerentes que possam viabilizar a vida de todos: índios e não índios. Cada um respeitando os limites uns dos outros.

Aí sim, provaremos que Acácio – o índio que perdeu dois filhos por desnutrição – estava errado.

Índio também abre a boca… para sorrir!

“É pela paz que eu não quero seguir,é pela paz que eu não quero seguir admitindo.”

Fala MEU! Edição 67, ano 2008
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