Espiritismo pelo mundo

Espiritismo na França

Autor: Eduardo Carvalho

No dia em que eu visitei o túmulo de Kardec, aqui em Paris, procurei conversar com as pessoas que deixavam flores no túmulo. Tive a curiosidade de saber de onde elas eram. Uma destas senhoras, muito simpática, disse que frequentava um centro espírita em Paris e me passou o endereço do local. O lugar se chama “Union Scientifique pour l’Investigation Psychique et l’Etude de la Survivance” (União Científica para a Investigação Psíquica e o Estudo da Sobrevivência – tradução livre) e fica meio escondido, no fundo de uma garagem em uma travessa estreita de uma rua no centro de Paris, próxima ao museu do Louvre.

Eu fui visitar uma das reuniões deste grupo. De cara, notei a primeira diferença para o espiritismo praticado no Brasil: as palestras eram pagas, €8 Euros (cerca de R$24 Reais) era o preço da entrada. Na frente do salão, onde fica o palestrante, havia uma imagem do busto de Kardec. A palestra durou em torno de uma hora e quinze minutos, seguida de um intervalo de 15 minutos, após o qual se iniciou a sessão mediúnica.

O tema da palestra era “A força da prece – Comunicação com o além” (tradução livre). Tema bastante contraditório por sinal, uma vez que durante toda a reunião não houve uma única prece, nem para começar e nem para finalizar. Durante a palestra, percebi que havia uma mistura muito grande de conceitos espíritas com ideias esotéricas e de outras filosofias. Um exemplo bem claro disto foi quando o palestrante disse que não devemos confundir o guia espiritual (ou mentor) com o anjo da guarda. Em seguida começou a explicar que cada pessoa tinha um anjo da guarda escolhido de acordo com o dia do seu nascimento e começou a ensinar um protocolo para conversar com o anjo da guarda, que mais parecia um ritual. Aqui faço um parêntese para dizer que, de acordo com a Doutrina Espírita, os anjos nada mais são do que espíritos mais evoluídos que nos auxiliam e nos orientam em nossa caminhada. A descrição de anjo apresentada pelo palestrante encaixa-se no conceito de algumas correntes espiritualistas.

Durante a sessão mediúnica, o médium (que por sinal era o próprio palestrante), transmitia as mensagens dos desencarnados presentes no local. Curiosamente, eram todos parentes das pessoas presente e não havia nenhuma mensagem de um mentor da casa ou de algum espírito amigo que quisesse transmitir uma mensagem à todos. Todas as mensagens eram pessoais.

Bem, por tudo o que eu pude observar, percebi que eles possuem um jeito bem diferente de trabalhar em relação ao que conhecemos do espiritismo no Brasil. Com todo o respeito que eu tenho pelas demais doutrinas esotéricas e espiritualistas, entendendo que, à sua maneira, elas também buscam auxiliar as pessoas a se tornarem pessoas melhores e serem mais felizes, eu acredito que a doutrina espírita perde sua identidade e se torna mais fraca quando começa a absorver conceitos que contrariam a codificação e não seguem o método crítico utilizado por Kardec.

A primeira vez em que eu escutei a expressão “pureza doutrinária”, a mesma me soou retrógrada, pois me causava a impressão de que deveríamos seguir estritamente a codificação, sem a ela incorporarmos novos conhecimentos. Hoje entendo que novos conceitos, novas ideias e novos conhecimentos adquiridos e comprovados devem sim ser acrescentados ao corpo doutrinário, mas que fazê-lo sem o critério adequado deixado por Kardec irá enfraquecer a própria doutrina.

Por fim, meu objetivo com este texto não é o de criticar a forma como o espiritismo é estudado e vivenciado na França, mas sim apresentar a todos a experiência que eu tive, e compartilhar com todos o que eu aprendi: Que somos felizes por vivenciarmos o espiritismo como o conhecemos no Brasil e, consequentemente, temos uma enorme responsabilidade perante a oportunidade que nos foi dada.

Fala MEU! Edição 69, ano 2008
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