Doutrina Espírita

Espiritismo – Um futuro para as religiões

Autor: Adams Auni

É evidente que, para o entendimento de qualquer doutrina, não podemos desprezar o estudo do contexto em que nasceu. As influencias do espírito da época se fazem sempre sentir. Lendo e relendo quanto a entender a presença e o sentido da palavra religião nos 5 livros da codificação, percebe-se em Kardec a grande preocupação em estabelecer a “inteligência” suprema de Deus, colocando, mesmo que, de forma cientifica e sobretudo filosófica, essência de Deus sobre todas as coisas. Decreta a sua consternação do que os filósofos da época vinham fazendo sobre a necessidade das pessoas na busca da felicidade, pois uma vida sem Deus não é saudável, mas o Deus da Igreja também não é saudável.

Percebemos que coloca a palavra religião para repudiar a principio o contexto dogmático e arcaico da igreja católica da época, mas também, em sua visão altamente além do seu tempo e diria, além até da visão de muitos de nós já nos dos dias de hoje, nos auxilia a entender que o sentido de religião, já idealizado por Kardec, estaria dentro de um processo de crescimento e evolução necessário ao ser, na busca do entendimento de si mesmo, sem a dependência dos sacerdotes e rituais da igreja.

Reconhece no Espiritismo a sua potencia em ser a ferramenta de aglutinação das ideias quanto ao futuro e também a sua função, também futura, de esclarecimento aos homens dentro de suas próprias crenças.

Uma visão surpreendente, uma visão de verdade, como somente uma verdade pode se apresentar, livre de todas as raízes dogmáticas e sendo aceita e aplicada em qualquer estrutura religiosa, mas sem se tornar uma nova religião.

Reconhece-se que esse entendimento não é algo fácil ainda hoje.

Filosoficamente falando é entender Deus por suas obras em nós mesmos. Teologicamente é entender Deus mais e mais em nós. Kardec a sua época reúne ciência, filosofia e religião (como ele entende) e solidifica os laços entre razão e fé.

Kardec salva Deus da morte.

Reconhece nos pensamentos dos filósofos gregos Pitágoras, Sócrates e Platão, onde explica a inteligência por de traz da realização da natureza.

Ele faz críticas à religião e incorpora no espiritismo as contribuições da ciência, mas não joga fora a religiosidade humana e nem mata Deus e nem as conquistas da filosofia. Cresce e faz crescer aplicando a espiritualidade ao conceito duro e árido do ambiente científico e traz a iluminação à razão com o entendimento do espírito.

A ciência não precisa ser apenas uma investigadora do mundo material, pode ser também uma investigadora do mundo espiritual.

Assim podemos concluir que a própria Doutrina Espírita em seu contexto filosófico e científico haverá de ser constantemente atualizada em si mesma, pois haverá as devidas depurações declaradas pelos espíritos codificadores quanto a sua propriedade de mutabilidade a medida dos avanços no próprio entendimento humano.

O espiritismo assume a intuição, a revelação religiosa, a possibilidade de acesso ao lado espiritual da vida, mas sob o controle da razão objetiva. Kardec fez o caminho inverso da escolástica medieval, que pretendia justificar a fé pela razão e submetia a razão e a fé. E, no caso, essa fé era controlada pela igreja católica.

O espiritismo faz a crítica da fé, a partir da razão, mas sem ferir-lhe a essência.

É uma filosofia resultante de um diálogo com os espíritos – portanto, pela primeira vez a interferência do mundo espiritual é assumida explicitamente no pensamento humano, mas sob o controle da racionalidade.

Vemos em “Obras Póstumas”: O espiritismo… Instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai direto a Deus, sem se deter as abas de uma sotaina ou nos degraus de um altar.

A atitude de Kardec diante das religiões é bastante original, encontrando pouquíssimos paralelos. Por isso até hoje não foi compreendida, inclusive por muitos dos seus seguidores.

O espiritismo vê a religião realizando uma síntese entre o olhar de dentro e o olhar de fora. Do olhar de dentro, assume como verdade que existe uma intervenção divina, espiritual nas religiões, ou seja, elas têm uma realidade intrínseca. Mas este olhar não sofre exclusivismo, é universal.

Em diferentes momentos Kardec analisa o islamismo,o taoísmo,o celtismo,a mitologia antiga e outras vertentes ( Revista Espírita), além da tradição judaíco-cristã, de que o espiritismo é herdeiro mais direto. O que ele de fato pretende segundo afirma explicitamente, é fornecer um substrato sólido que sirva de apoio a todas as religiões.

O que existe de mais universal e de mais comum nas diferentes tradições é a formulação da ética de solidariedade entre homens e a ideia da imortalidade da alma.

Ora comprovando a existência do espírito, pensava Kardec, o espiritismo reforçaria a posição das religiões dando-lhes uma base factual. A imortalidade não seria mais apenas um pressuposto de fé. Ao mesmo tempo, o estudo da mediunidade explicaria e referendaria os fenômenos a que as religiões fazem referencias em todas as épocas.

Por tudo isso, o que Kardec faz é validar todas as religiões como possuidoras de verdades, mas ao mesmo tempo submete todas elas a uma crítica racional, desencantando-as de seus mistérios, tornando natural o sobrenatural, dessacralizando a comunicação com o mundo espiritual.

O espiritismo democratiza a religião, a racionaliza, reconduzindo-a para o patamar do cotidiano.

Além disso, é das religiões que nos vem às experiências milenares de contato com a divindade, de manifestações mediúnicas e de revelações mortais – grandes espíritos reencarnaram no seio das mais variadas religiões do planeta a exemplificar uma ética elevada a partir da vivência religiosa.

Assim, a religião é uma forma de ser e estar no mundo que não podemos simplesmente deixar de lado, porque constitui parte integrante da nossa consciência.

Descendemos da divindade e foi o contato com as religiões que revelaram isso.

Nesse ponto acreditamos estar a grande resistência em nós quando se fala em religião e religiosidade, pois tratamos e traduzimos todo e qualquer conotação com os conteúdos e referências que possuímos, por mais que não queiramos, existe em cada um de nós, pretéritos religiosos e são nos mesmos padrões ainda existentes.

Mudar isso demanda um processo doloroso e tem que ser muito lentamente e conscientemente, para cumprir o objetivo de crescimento e evolução.

Na Doutrina Espírita, apresentam-se em vários aspectos e em varias passagens conotações e estruturas cristãs, dificultando o esclarecido quanto a sua real condição, como segue em “O Evangelho Segundo o Espiritismo… Se, pois, o Espírito da Verdade deve vir mais tarde ensinar todas as coisas, é que o Cristo não pode dizer tudo. Se ele vem fazer lembrar o que o Cristo disse é que o seu ensino foi esquecido ou mal compreendido. O espiritismo vem, no tempo assinalado, cumprir a promessa do Cristo: o Espírito da Verdade preside ao seu estabelecimento”.

Para dar uma legitimidade talvez tenha sustentado a titularidade magnânima da comunicação, Kardec se colocou e nos colocou numa posição complexa de universalidade religiosa, como vimos anteriormente, mas também disse que o espiritismo era a terceira revelação na linha judaico-cristã e cumpria a promessa de Jesus a respeito da vinda do Consolador.

Escreveu o Evangelho Segundo o Espiritismo e respondeu ponto a ponto a todos os dogmas instituídos pela igreja católica no decorrer dos séculos, em detrimento da mensagem simples, ética e libertadora do Cristo. Em o Céu e o inferno e depois, em A Gênese, estuda minuciosamente todos os pontos polêmicos da tradição judaíco-cristã, o mais crucial justamente o da divindade de Jesus aparece no último livro, em Obras Póstumas.

Para muitos, Kardec teria a missão de fazer uma revisão do cristianismo, sob a supervisão do próprio Cristo, que é segundo muitos espíritas aceitam, o Espírito da Verdade. “Venho como outrora, entre os filhos desgarrados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas… Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana.

Nesse contexto assemelha-se a uma nova religião cristã.

Entendemos que mesmo trazendo paralelos cristãos, a sua intenção era a de legitimar as verdades trazidas pelos espíritos mais que sugerir que a Doutrina Espírita viesse a ser a nova religião cristã, libertadora da opressão da equivocada Igreja católica.

Demandara certo tempo até que tenhamos condições de discernir mais acertadamente sobre a real estrutura da Doutrina Espírita. Consola os corações como uma religião, esclarece as mentes ávidas de respostas com sua filosofia racional e esclarece o sobrenatural pela luz da razão e da ciência demonstrando que tudo está sob as mesmas leis físicas.

No livro “Obras Póstumas – capitulo: Das manifestações dos Espíritos”: Longe de perder qualquer coisa de sua autoridade por passarem os fatos qualificados de milagrosos à ordem dos fatos naturais, a religião somente pode ganhar com isso; primeiramente, porque, se um fato é tido falsamente por miraculoso, há aí um erro e a religião somente pode perder, se apoiar num erro, sobretudo se obstinasse em considerar milagre o que não o seja; em segundo lugar, porque, não admitindo a possibilidade dos milagres, muitas pessoas negam os fatos qualificados de milagrosos, negando conseguintemente, a religião que em tais fatos se estriba. Se, ao contrário, a possibilidade dos mesmos fatos for demonstrada como efeitos das leis naturais, já não haverá cabimento para que alguém os repila, nem repila a religião que os proclame.

Nenhuma crença religiosa, por lhes ser contrária, pode infirmar os fatos que a Ciência comprova de modo peremptório.

Não pode a religião deixar de ganhar em autoridade acompanhando o progresso dos conhecimentos científicos, como não pode deixar de perder, se conservar retardatária, ou a protestar contra esses mesmos conhecimentos em nome dos seus dogmas, visto que nenhum dogma poderá prevalecer contra as leis da Natureza, ou anulá-las. Um dogma que se funde na negação de uma lei da Natureza não pode exprimir a verdade. O Espiritismo, que se funda no conhecimento de leis até agora incompreendidas, não vem destruir os fatos religiosos, porém sancioná-los, dando-lhes uma explicação racional. Vem destruir apenas as falsas consequências que deles foram deduzidas, em virtude da ignorância daquelas leis, ou de as terem interpretado erradamente.

Por isto, a Doutrina Espírita, sem ser uma religião, conduz essencialmente as ideias religiosas, desenvolvendo-as naqueles que não as tem e fortificando- as naqueles em que vacilam. Recobrando a lucidez dos iludidos diante dos ditames teológicos e do obstrucionismo clerical, traduzindo o sobrenatural para o natural, da mesma forma que ilustres cientistas traduzem a matéria em energia.

A religião encontra, portanto, um apoio no Espiritismo, não por certo aos olhos dessas inteligências míopes, que veem toda a religião na doutrina do fogo eterno, na letra mais que no espírito, mas sim aos dos que a contemplam em relação a grandeza e a majestade de Deus.

Fala MEU! Edição 70, ano 2008
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