Infância e Família

A família e o jovem

Autor: Cláudio Bueno

** Texto originalmente publicado com o nome: Jovem é outro papo!

Chico Anysio, um dos maiores humoristas do Brasil, fazia um personagem nos seus programas de humor, lá pelos anos 80, chamado “Jovem”. Esse “jovem” era rebelde, se vestia de forma despojada, cabelos compridos, e tinha um bordão que usava sempre que sua mãe – superprotetora –  o contrariava em seus interesses um tanto despropositados. Ele dizia: “Ah, mãe, sou jovem! Jovem é outro papo”. Assim, era difícil para a mãe conversar com o filho.

Aquele quadro, além do humor saudável, tinha pinceladas psicológicas retratando a relação familiar, duas gerações diferentes, a mãe prudente e preocupada com o filho mergulhado em conceitos avançados e nem sempre sensatos, querendo escapar do controle materno.

Realmente, jovem é outro papo. A juventude é um período cheio de componentes especiais que dão um grande prazer em viver. As coisas da infância vão ficando para trás e já não dizem nada. No entanto – o jovem pensa – “a madureza ainda está longe, não há por que se preocupar agora”, e mergulha nas emoções, nas energias, na onda do momento, tudo muito natural nessa fase gostosa da vida.

Nas últimas décadas, as características da família e o modelo de educação mudaram muito. “Antigamente”, diálogo entre pais e filhos não era prática comum. Os padrões eram outros, o pai, o chefe da casa tinha muita ascendência sobre os demais membros da família. Sua opinião e vontade geralmente prevaleciam, e era obedecido, naturalmente, sem que isso sugerisse ato de humilhação e autoritarismo por parte do pai.

Os hábitos e costumes familiais eram assim, os filhos respeitavam os pais. Esse modelo trazia, é claro, inconvenientes, principalmente para os filhos cujas prerrogativas, liberdade, anseios, eram prejudicados. Era um tempo em que o olhar, a fisionomia substituíam as palavras.

Mas a sociedade mudou, tudo está diferente e o que serviu por um certo tempo, hoje não serve mais. As pressões dentro da família diminuíram, há mais liberdade, se foi o tempo das imposições severas. Contudo, ao invés de maior aproximação, de trocas através da inter-relação familiar, o que se viu foi um distanciamento frio e perigoso, ditado talvez pelo forte egoísmo e sedução da vida moderna. O diálogo, que deveria ser mas não é, o principal instrumento de ligação afetiva entre os familiares não veio junto com a abertura trazida pelos novos tempos.  Quase não há pais como os de antigamente, isso pode ser considerado um progresso. As crianças, os adolescentes, os jovens também mudaram muito. Para eles, hoje, o papo é outro. Mas qual?

Todos repetem que a família é o principal núcleo da sociedade, aliás como diz também o Espiritismo. Se a família vai mal, a sociedade desanda, tropeça, já que “os laços de família resumem os liames sociais” (O Livro dos Espíritos, Lei de Sociedade).  Não é o que estamos vendo em tudo e em todos os lugares?  Comportamentos inimagináveis no passado, hoje são corriqueiros, até “normais”. Isso tem chocado a coletividade. E o que não é legal, é ver pais, filhos, a família como protagonistas de boa parte dessa situação.

Não se está querendo voltar atrás, “porque antes era melhor”, como muita gente diz. Temos que progredir, avançar, e para isso, saber usar e aproveitar aquilo de bom que a sociedade conquistou até aqui.

Veem-se muitos jovens reclamando dos pais a pretexto de tudo. Porém, os pais também estão sofrendo e não são eles, sozinhos, os culpados do distanciamento, da falta de diálogo com os filhos, fatos estes que têm gerado tantos conflitos dentro e fora da família. A maior parte da atual geração adulta foi pega de surpresa pela velocidade e amplitude das mudanças globais e isso a deixou confusa, perdida em meio a valores artificiais, próprios dos períodos de mudanças profundas.

Portanto, se é evidente que os filhos, os jovens, querem viver sua própria vida, traçar seu próprio caminho, fazer suas escolhas, é também certo que os pais não querem perder os filhos de vista, querem acompanhá-los, porque os amam, e isso lhes traz conforto.

As coisas de família não são tão simples, é verdade, mas é urgente que se restabeleça o “papo” entre pais e filhos. Muitos jovens estão esperando que seus pais se interessem por eles e seus projetos, mas há também muitos pais tentando se aproximar dos filhos sem achar oportunidade. As dificuldades têm mão dupla. Por que não diminuir-se esse espaço, compreendendo-se que se os filhos são impetuosos, cheios de ansiedade para viver, os  pais estão preparados para ouvir, orientar e compartilhar.

A sociedade pode melhorar, sim, a partir da família mais ajustada, onde um se comprometa com o outro, sem cobranças, sem acusações, sem hostilidade e com muito “papo”.

Fala MEU! Edição 80, ano 2009
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