Inclusão

Lembranças de Alzheimer

Autora: Ana Faccin

Lá estavam três gerações. Era o vô Jayme, meu pai e eu. O vô estava deitado numa cama hospitalar. Meu pai ao lado dele segurando sua mão e eu aos pés da cama, sentada numa poltrona. Na parede, um quadro do vô Jayme com uma risada gostosa e pernas cruzadas, como ainda posso me lembrar… do lado esquerdo do quarto aparelho de drenar secreção do pulmão e do outro aqueles negócios de pendurar soro. Não conheço os termos técnicos, mas não é nada demais.

Pois estávamos nós três. Na tentativa de tirar alguma palavra do vô Jayme, apertei seu nariz e disse: “piiiiiiiiii…”. Eu queria que ele respondesse “poca” como sempre fazia, aliás, como ele mesmo um dia me ensinou. Pois bem, apertei seu nariz e disse “piiiiiiiii…” e ele, nada. Mais uma vez: ele sorriu. Mais um “piiiiii” e ele soltou outro “piiiiii”.

– Não, vô. É pra você falar “poca”. Daí fica “pipoca”, entendeu? – Disse isso mas na verdade não adiantou nada, porque ele se esquece de tudo num minuto. Voltei a me sentar.

Daí foi a vez do meu pai contar uma história pra ele: “Pai, tinha um vendedor de amendoim muito preguiçoso e todos os dias ele ia na porta da igreja e esperava o padre dizer AMÉM, e ele dizia….ele dizia….”. Era pro meu vô falar “DOIM”, mas ele não falou nada. Essa era uma história que meu avô contou pro meu pai e por consequência eu também conheci de tanto que meu avô nos contava.

Eu, sentada na poltrona pude assistir a cena de camarote. Meus pensamentos voaram pra longe e fiquei imaginando meu pai pequeno e meu avô sentado em sua cama, contando-lhe uma história. E qualquer semelhança pode até ser mera coincidência, mas meu pai estava ao lado da cama dele contando-lhe uma história. Era uma cena bonita de se observar, talvez apenas como um mero espectador. Não sei se como personagem principal o belo se transforma em tristeza. Bom, dizem por aí que não haveria a poesia se não houvesse a dor, tampouco a luz sem o escuro. No entanto, me sinto como personagem secundária e mesmo assim não sei explicar o que sentia naquele momento. Era um misto de tudo e de amor, se é que posso ser compreendida.

Ao sair, beijei a testa do vô Jayme e eis que para minha surpresa ele me perguntou: “Onde você vai?”, e eu respondi: “passear, quer ir?”. Ele me respondeu: “Não…não”

Virei às costas, apagamos a luz e saímos.

Fala MEU! Edição 75, ano 2009
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