Conscientização

Lugar de mulher é… na cozinha?

Autor: Joelson Pessoa

De acordo com este princípio, uma legislação para ser perfeitamente justa, deve consagrar a igualdade de direitos entre o homem e a mulher? – Questão 822-a de O Livro dos Espíritos.

R: De direitos sim; de funções, não. É necessário que cada um tenha um lugar determinado; que o homem ocupe-se dos assuntos externos e a mulher do lar. Cada qual segundo as suas aptidões. (…) Todo privilégio concedido a um ou a outro é contrário à justiça. A emancipação da mulher segue o progresso da civilização; sua escravização anda com a barbárie.

O progresso da civilização ocidental avança ininterruptamente, quem quer que tenha experimentado as suas vantagens dificilmente optará por uma rotina de simplicidade para a sua vida.

A qualidade de vida vem melhorando em vários aspectos: diminui a mortalidade infantil, cresce a expectativa de vida, baixa o número de analfabetos, aumenta o número de pessoas com diploma universitário, a jornada de trabalho tende a decrescer nos países industrializados e a saúde da população encontra-se em melhores condições, graças  descoberta da cura e de tratamentos para a maioria das enfermidades do corpo.

Entretanto, o progresso se faz acompanhar por alguns efeitos colaterais graves e que veem castigando a sociedade, ei-los: a desigualdade social semelhante a um dragão de muitas cabeças, o crescente consumo de drogas, a marginalidade, a criminalidade, a violência, a competitividade feroz, o estresse, a solidão em grupo, as patologias mentais, as famílias em crise e os lares desfeitos.

Muitas vezes a desorganização familiar é uma das consequências do período por que transita a nossa sociedade, conforme os Espíritos afirmaram a Kardec na questão 792 de O Livro dos Espíritos:

“Não se pode esperar frutos perfeitos de uma civilização incompleta”.

Analisemos doravante um fato social da vida moderna que pode estar na raiz de muitos problemas sociais: A dupla jornada de trabalho da mulher.

Com efeito, o homem e a mulher, quando se unem, somam também as suas ambições: morar bem, comer bem, vestir-se bem, desfrutar de todos os itens de consumo que a vida moderna propicia, dirigir um automóvel do ano, frequentar academia e clube, viajar nas férias, pagar bons colégios aos filhos, manter empregada doméstica, um bom plano de saúde, cheque especial, cartões de crédito com limite alto, uma poupança para garantir-se numa circunstância imprevista, além de recursos para presentear os familiares e os amigos nas datas comemorativas.

Todavia, o homem raramente conseguirá sozinho bancar os sonhos de consumo da família inteira e, é então que, para satisfazer a tantas exigências, a mulher se vê na contingência de também trabalhar fora.

O direito conquistado pela mulher de exercer uma profissão e competir com o homem no mercado de trabalho é, indiscutivelmente, um progresso social, mas com efeitos colaterais.

Ao exercer este direito, a mulher que já é mãe e esposa, quase sempre acumula sobre si tremendas responsabilidades; porque acrescenta aos já pesados deveres inerentes  criação dos filhos e os cuidados com o lar, as demais obrigações com o serviço que executa fora de casa.

Quando o pai e a mãe empregam juntos o seu tempo e as suas melhores energias com as obrigações do trabalho longe de casa, quem fica para cercar a criança de atenção, cuidados e afeto de que tanto carece o ser humano, sobretudo nesta fase especial de sua existência?

Kardec chamou a nossa atenção para este ponto quando registrou suas próprias observações na questão 385 de O Livro dos Espíritos:

“Os Espíritos ingressam na vida corporal apenas para se aperfeiçoarem, melhorarem. A fragilidade da tenra idade torna-os flexíveis, acessíveis aos conselhos da experiência e daqueles que os devem fazer progredir. É então que se pode reformar o seu caráter e reprimir as suas tendências. (…) Mas, quando as crianças não têm mais necessidade dessa proteção, dessa assistência que lhes foi prestada durante 15 a 20 anos, seu caráter real individual reaparece em toda sua realidade: permanecem boas se eram fundamentalmente boas; mas apresenta sempre os característicos que estavam velados na primeira infância. Tal é o dever que Deus confiou aos pais, missão sagrada pela qual terão de responder”.

A ausência dos pais, ainda que motivada pela necessidade do trabalho como meio para garantir o melhor aos filhos deixa lacunas na formação das crianças, ainda mais naquelas cujos Espíritos são de natureza rebelde e tendem ao vício. Uma grande fatia da juventude atual, sem exceção de classe social, deteriora-se no vício e na promiscuidade.

Há ainda um outro problema que a dupla jornada de trabalho imputa à mulher: o prejuízo  sua saúde emocional.

Em decorrência da elevada carga de responsabilidades, é ela ainda quem está mais sujeita aos transtornos de humor, ansiedade, depressão, síndrome do pânico e histeria nervosa, precedendo as cardiopatias.

Comumente este conjunto de fatores opressores, combinado ao sentimento de culpa que a mãe às vezes carrega, por saber-se em falta com seus filhos, levam-na ao estado íntimo de insatisfação, primeiro consigo mesma, para depois, aos poucos, revelar-se intolerante com tudo à sua volta. Porque está esgotada física e mentalmente, não curte mais as alegrias dos primeiros anos com o seu companheiro, a euforia desaparece e intensifica-se a sua angústia ante o quadro que começa a se desenhar diante dos seus olhos: O desgaste do relacionamento, que pode resultar no fim do casamento.

O direito ao divórcio é outra conquista que assinala o progresso dos costumes sociais; mas o homem habitualmente abusa dos seus direitos e excede-se nisto como em tudo. Hoje em dia os casais se desfazem quando provados pelas primeiras adversidades. Quantos colegas você conhece cujos pais estão separados? Este é um dos maiores danos que um homem egoísta pode causar a uma mulher: abandoná-la deixando-lhe os filhos. Tal situação obriga literalmente esta mãe a ausentar-se do lar para trabalhar, pois precisa assegurar-lhes o sustento e orientá-los para a vida, na esperança de que eles não tenham os mesmos dissabores no futuro.

Urge multiplicarmos as oportunidades no centro espírita para o debate e a reflexão destes assuntos:

  •  Ponderando-se as vantagens e os riscos, convêm à mulher deixar seus filhos para trabalhar longe de casa?
  • O homem tem sido um legítimo companheiro para a sua esposa, dividindo com ela os encargos domésticos?
  • O casal compreende que a vitória familiar vincula-se ao êxito que tiver com educação dos filhos, fazendo deles homens e mulheres de bem?
  • Sabemos preparar os nossos jovens, com vistas aos desafios que fatalmente os esperam no futuro, concernentes aos deveres do casamento, da paternidade e da maternidade? Sabemos?!

Diferentemente do que muitos homens e até mesmo algumas mulheres julgam, ser mãe e doar-se aos encargos desta missão tem, aos olhos de Deus, um valor maior do que se acredita. Concluímos com a transcrição da questão 821 de O Livro dos Espíritos:

As funções às quais a mulher está destinada pela Natureza têm uma importância tão grande como as que são atribuídas ao homem?

R: Sim e maior, pois é ela quem lhe dá as primeiras noções da vida.

PS: Dedico este texto à minha mãe, Amábile de Fátima, por haver renunciado sua carreira profissional quando, trabalhando para melhorar nossas condições, eu e meus irmãos passávamos o dia nas ruas em desobediência às recomendações dos nossos pais. Em face aos riscos a que nos expúnhamos (reprovei o ano escolar) e, como as reprimendas não eram ouvidas, ela resolveu demitir-se do emprego, com prejuízos para a renda familiar, mas com ganhos incalculáveis para mim e meus irmãos. Graças à sua marcação cerrada nosso comportamento foi corrigido a tempo evitando que nos desencaminhássemos.

Fala MEU! Edição 64, ano 2008