Conscientização

O jovem e a internet

Autora: Silvia Aparecida – Colaboração: Thiago Rosa

Há alguns anos atrás quando éramos mais jovens (isso porque ainda somos), como era nosso comportamento? O que possuíamos em relação à tecnologia que avançava a passos largos? Como era o acesso às notícias? Aos acontecimentos do mundo?

Tínhamos alguns itens essenciais que hoje são quase dispensáveis, como o rádio, o toca discos – vitrola, televisão e o jornal.

Para nos comunicarmos com alguém, longe ou perto, usávamos bilhetes, cartas, telegramas ou ainda íamos a telefones públicos. Não como estes que existem hoje, os orelhões, mas nos estabelecimentos próprios para usar o telefone. Muitas vezes precisávamos pedir para a telefonista completar a ligação. Poucas pessoas possuíam aparelhos telefônicos em casa, já que eram consideradas mais abastadas porque era muito caro.

Na escola, se precisasse realizar pesquisas, a biblioteca era o que nos auxiliava. Nossas brincadeiras eram compartilhadas com os colegas vizinhos, nas tardes, depois dos nossos afazeres escolares. Não havia medo e temor como hoje. Nossos pais permitiam que brincássemos nas calçadas onde poderíamos andar de bicicleta livremente e os coleguinhas frequentar as nossas casas com maior frequência.

E o namoro? Começava através de olhares, bilhetinhos, mão dada, olho no olho.

Mas o que é isso? Um flashback?

Pode ser que para um público mais velho, realmente é uma revisão, saudosa, dos nossos tempos de juventude e, também, para compararmos como era antes e como é agora com nossos jovenzinhos. Para percebermos, comprovarmos, a Lei do Progresso, Lei da Sociedade, que são leis Divinas.

O homem deve crescer intelecto e moralmente. A tecnologia avança cada vez mais com novos e mais novos aparelhos que surgem a cada dia. E se aí está, como também foi há anos atrás, é para se fazer uso e para saber utilizá-los em nosso proveito, em nosso benefício. Deus permite o progresso para que usufruamos dele com sabedoria.

Há alguns anos atrás com o preço menor do aparelho televisivo, existia uma grande discussão sobre a inserção da televisão na vida familiar. Afinal, famílias com poder aquisitivo um pouco maior, com uma programação vasta, tanto da tv aberta como da entrada da tv paga, poderia se subdividir em vários aparelhos, cada um em seu quarto assistindo ao que bem entender. Aliás, não precisava ter muito dinheiro, só o fato da televisão existir dentro do ambiente lar, fazia com que qualquer entretenimento dentro de casa fosse ligado ao aparelho televisivo. Assumiria aí a televisão um papel de entreter, porém, tirava da família a condição do diálogo. Pais e filhos assumiriam um único meio de comunicação: o controle remoto.

A Internet, por exemplo, faz o ser humano superar barreiras que antes eram comuns de existirem. O homem pode conhecer a todo o canto do mundo com um simples click no mouse. A interatividade com o mundo ficou mais fácil. Você tem a oportunidade de conhecer culturas diferentes, pessoas de outro idioma, mandar uma mensagem em questão de segundos para qualquer canto do planeta e, ainda por cima, visitar paisagens que suas antigas gerações não puderam observar.

Tudo isso de uma maneira até engraçada e, na maioria das vezes, é feito em meio à solidão de seus pensamentos, no silêncio do quarto e em momento íntimo e privado que só o ser humano com sua personalidade consegue transpor.

Percebe-se aí que, ao mesmo tempo que o ser humano ganha o mundo com informações diversas, ampliando o seu conhecimento, que era antes limitado, acaba por perder na convivência com outras pessoas.

E qual a importância do conviver? Como a própria Ermance Dufaux fala em suas obras, a convivência é necessária para que possamos praticar os nossos sentimentos. Praticar o amor com o próximo, o altruísmo, o toque, a energia, a caridade, o conhecimento de suas reais diferenças, a troca de ideias, o olho no olho, o personalismo, as indisciplinas. Saber enxergar no outro aquilo que muitas vezes falta em você. É uma troca necessária e constante que temos no dia-a-dia, no contato com as pessoas, no convívio em sociedade.

Conversando muitas vezes com amigos, familiares e alunos, pude perceber que um dos fatores que têm contribuído para o uso excessivo da Internet e outros meios de entreter o jovem dentro de casa ou em lugares mais seguros é a violência. Algo que causa um temor muito grande nos pais e que acreditam que o filho dentro de casa, ligado na Internet, nos bate-papos com amigos, no seu quarto, traz um sossego muito maior do que eles na rua fazendo qualquer outra coisa.

Mas será que realmente pode-se ficar sossegado? Será que os pais sabem realmente com quem os filhos conversam? Que tipos de pessoas são? São jovens, adultos? O que falam? Será que são amigos realmente?

Muitas vezes, tentando proteger os filhos da violência lá fora, permite que ela esteja dentro de sua própria casa. Um dos cuidados que vemos é em relação ao isolamento, que muitas vezes pode levar a um baixo rendimento escolar, isolamento dos próprios problemas do mundo à sua volta e do mundo lá fora. Nessa ânsia de ver só o que interessa, nos envolvimentos que surgem, percebe-se os jovens muitas vezes alienados; nem sabem das notícias importantes, embora estejam com uma ferramenta importante para lhe trazer conhecimento.

Conforme o psiquiatra Içami Tiba, “todo cuidado é pouco”. Não que se deva invadir a privacidade deles, mas não abandoná-los, achando que estão protegidos. O diálogo é o fator principal, assim como conhecer os amigos, colocar limites, preservar horários em família como refeições, lazer.

Içami Tiba ainda elucida em um de seus textos: “um adolescente pode passar bastante tempo fechado, até mesmo trancado, mas raramente está sozinho. Está conversando com amigos conhecidos e desconhecidos pelos esquemas virtuais da Internet, via MSN, sites de relacionamento. Tempos modernos sim, mas, com toda modernidade, tomemos cuidado!”

Hoje já existem escolas e faculdades com o selo de aprovação do Ministério da Educação (MEC), onde as pessoas se formam sem a necessidade de frequentar o ambiente sala de aula. O diploma é tirado através de um contato simples do estudo através do computador.

Se antes até o telefone era encarado como uma forma de diminuir distâncias, porém de maneira muito informal, hoje qualquer pessoa conversa através de palavras, gírias e línguas que são trocadas através da Rede Mundial de Computadores, a Internet. A voz que já se materializava através de cabos metálicos com seu efeito magnético, hoje, a maior forma de comunicação está na velocidade com que os dedos encontram o teclado.

O que nos resta saber… Até que ponto conviver realmente é importante? Será que um dia isso vai deixar de existir? Creiamos que não!

Na última Confraternização das Mocidades Espíritas do Leste do estado de São Paulo (COMELESP), ocorrida na cidade de Santos durante a Páscoa, pudemos ver como os jovens realmente gostam de conviver.

Aliás, foi fácil identificarmos a surpresa dos jovens que foram passar um feriado de quatro dias conosco, apreensivos se valeria realmente a pena ficar todo este tempo reunido com vários outros jovens com suas diversidades, sem nenhum meio tecnológico para interagir com o restante do mundo, seus micros, seus games, seus mp3 a toda hora no ouvido. E do nada, viram que a experiência foi oportuna, enriquecedora e não fez sentir falta em nenhum minuto dos seus periféricos particulares.

Percebemos inclusive com enorme gratificação, que nos momentos livres os jovens conseguiram utilizar o seu próprio corpo para se expressar, fazer brincadeiras, dinâmicas e vivenciar cada minuto como uma experiência única que, com certeza, lhe servirá para toda a vida. Ou seja, conviver é importante e faz o jovem lidar com novas experiências e diferenças que ele não consegue identificar atrás do micro.

Fala MEU! Edição 51, ano 2007
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