Revista Espírita - Textos

O naufrágio do Borysthéne

Revista Espírita, Fevereiro de 1866

A maioria de nossos leitores leu, sem dúvida, em todos os jornais, o emocionante relato do naufrágio do Borysthène, nas costas da Argélia, em 15 de dezembro de 1865.

Extraímos a passagem seguinte do relato de um dos passageiros escapados do desastre, publicado em o Siècle de 26 de janeiro:

“… No mesmo instante, um estalido terrível, indefinível, se fez ouvir, acompanhado de abalos tão violentos, que caí por terra; depois ouvi um marinheiro que gritou: ‘Meu Deus! estamos perdidos; orai por nós!’ Vínhamos de tocar o rochedo, e o navio se entre partiu; a água entrava no porão, ouvia-se-lhe borbulhar. Os soldados, que dormiam na ponte, se salvam desordenadamente, não importa onde, dando gritos horríveis; os passageiros, seminus se lançam para fora das cabines; as pobres mulheres se agarram a todo o mundo, suplicando-lhes que as salvem. Ora-se ao bom Deus muito alto; dizia-se adeus. Um negociante arma uma pistola e quer queimar o cérebro: sua arma é arrancada.

Os abalos continuaram; o sino de bordo tocava o alarme, mas o vento mugia tão terrivelmente que o sino não era ouvido a cinquenta metros. Eram gritos, urros, preces; era não sei quê de terrível, de lúgubre, de assustador. Jamais vi nada, jamais li nada de cenas tão horríveis, tão pungentes. Estar lá, cheio de vida, de saúde, e em face de uma morte que se acreditava certa, e uma morte horrível!

Nesse momento supremo e indescritível, o vigário, Sr. Moisset, nos deu a todos a sua bênção. A voz cheia de lágrimas desse pobre sacerdote recomendava a Deus duzentos e cinquenta infelizes que o mar iria engolir, comovia todas as entranhas.”

Não há um grande ensinamento nessa espontaneidade da prece em face de um perigo iminente? Entre essa multidão amontoada no navio, certamente, havia incrédulos e quase não pensaram antes nem em Deus nem em sua alma, e hei-los em presença de uma morte que acreditavam certa, voltando seus olhares para o Ser Supremo, como para sua única tábua de salvação. É que no momento em que se ouvia soar a última hora, involuntariamente, o coração mais endurecido pergunta o que se vai começar a ser. O doente, em seu leito, espera até o último momento, é porque ele desafia todo poder sobre-humano, e quando a morte o atinge, o mais frequentemente, já perdeu a consciência de si mesmo. Sobre um campo de batalha, há uma superexcitação que faz esquecer o perigo; e depois todo o mundo não é atingido, e se tem uma chance de escapar; mas no meio do Oceano, quando se vê submergir um navio, não se espera mais do que um socorro desta Providência que se havia esquecido, e à qual o ateu está pronto para pedir um milagre. Mas, ai! passado o perigo, quantos há que disso rendem graças ao acaso e à sua boa chance, ingratidão que cedo ou tarde pagarão caramente. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXVII, nO 8).

Em semelhante circunstância, qual é o pensamento do Espírita sincero? “eu sei, diz ele, que devo me esforçar para conservar a minha vida corpórea; farei, pois, tudo o que está em meu poder para escapar ao perigo, porque, se a ele me abandonar voluntariamente, isto seria um suicídio, mas se aprouver a Deus retirá-la de mim, que importa que isto seja de uma maneira ou de uma outra, um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde! A morte não traz para mim nenhuma apreensão, porque sei que só o corpo morre, e que é a entrada da vida verdadeira, da do Espírito livre, onde reencontrarei todos aqueles que me são caros.” Ele entrevê, pelo pensamento, o mundo espiritual, objetivo de suas aspirações, do qual apenas alguns instantes o separam ainda, e do qual a morte de seu corpo, que o retinha sobre a Terra, vai enfim lhe dar acesso; ele se rejubila em lugar de com isso se afligir, como o prisioneiro que vê se lhe abrirem as portas da prisão. Uma única coisa o entristece, é deixar aqueles que ama; mas com isto se consola pela certeza de que não os abandonará, e que estará mais frequentemente e mais facilmente junto deles do que durante sua vida, que poderá vê-los e protegê-los. Ao contrário, se escapou ao perigo, dirá a si mesmo: “Uma vez que Deus me deixa viver ainda sobre a Terra, é que a minha tarefa ou as minhas provas nela não estão acabadas. O perigo que corri é uma advertência que Deus me dá para que esteja pronto para partir no primeiro momento, e de fazê-lo de sorte que isto seja nas melhores condições possíveis.” Depois ele agradecerá pelo adiamento que lhe foi concedido, e se esforçará para pô-lo em proveito para o seu adiantamento.

Um dos mais curiosos episódios desse drama é o fato desse passageiro que queria se queimar o cérebro, dando-se assim uma morte certa, ao passo que correndo as chances do naufrágio, poderia surgir um socorro inesperado. Que móvel poderia levá-lo a esse ato insensato? Muitos dirão que tinham perdido a cabeça, o que seria possível; mas talvez tivesse sido movido, com seu desconhecimento, por uma intuição da qual não se dava conta. Embora não tenhamos nenhuma prova material da verdadeira explicação que foi dada acima, o conhecimento das relações que subsistem entre as diferentes existências lhe dá pelo menos um grande grau de probabilidade.

As duas comunicações seguintes foram dadas na sessão da Sociedade de Paris de 12 de janeiro.

(I)

A prece é o veículo dos fluidos espirituais mais poderosos, e que são como um bálsamo salutar para as feridas da alma e do corpo. Ela atrai todos os seres para Deus, e faz, de alguma sorte, a alma sair da espécie de letargia em que ela é mergulhada quando esquece seus deveres para com o Criador. Dita com fé, ela provoca naqueles que a ouvem o desejo de imitar aqueles que oram, porque o exemplo e a palavra levam também fluidos magnéticos de uma força muito grande. As que foram ditas sobre o navio naufragado, pelo sacerdote, com o acento da convicção mais tocante e da resignação mais santa, tocaram o coração de todos esses infelizes que acreditavam chegada sua última hora.

Quanto a esse homem que queria se suicidar em face de uma morte certa, esta idéia lhe veio de uma repulsão instintiva pela água, porque é a terceira vez que morre dessa maneira, e suportou, em alguns instantes, as mais horríveis angústias. Nesse momento, teve a intuição de todas as suas infelicidades passadas, que lembrou vagamente em seu espírito: foi porque quis acabar diferentemente. Duas vezes tinha se afogado voluntariamente, e tinha arrastado toda a sua família com ele. A impressão confusa que lhe restou dos sofrimentos que tinha suportado lhe deu a apreensão desse gênero de morte.

Orai por esses infelizes, meus bons amigos; a prece de várias pessoas forma um feixe que sustenta e fortifica a alma para a qual é feita; dá-lhe a força e a resignação.

SAINT BENOÍT (médium Sra. DELANNE).

(II)

Não é raro ver pessoas que, há muito tempo, não tinham pensado em orar, fazê-lo quando estão ameaçadas de um perigo iminente e terrível. De onde pode, pois, vir esta propensão instintiva a se aproximar de Deus nos momentos críticos? Dessa mesma tendência que leva a se aproximar de alguém quando se sabe poder nos defender estando num grande perigo. Então, as doces crenças dos primeiros anos, as sábias instruções, os piedosos conselhos dos pais, retornam como um sonho na memória desses homens trêmulos que há pouco achavam Deus muito longe deles, ou negavam a utilidade de sua existência. Esses espíritos fortes, tornados pusilânimes, sentiam tanto mais as angústias da morte, quanto por muito tempo não creram em nada; não tinham necessidade de Deus, pensavam, e poderiam bastar a si mesmos. Deus, para fazê-los sentir a utilidade de sua existência, permitiu que fossem expostos a um fim terrível, sem a esperança de serem ajudados por nenhum socorro humano. Lembram-se, então, que outrora oraram, e que a prece dissipa as tristezas, faz suportar os sofrimentos com coragem, e abranda os últimos momentos do agonizante.

Tudo isto lhe aparece, a esse homem em perigo; tudo isto o incita a orar de novo Aquele a quem orou na sua infância. Ele se submete, então, e pede a Deus do mais profundo do seu coração, com uma fé viva que tem uma espécie de desespero, lhe perdoar os desvios passados. Nessa hora suprema ele não pensa mais em todas as vãs dissertações sobre a existência de Deus, porque não a coloca mais em dúvida. Nesse momento ele crê, e está aí uma prova de que a prece é uma necessidade da alma; que, fosse ela sem outro resultado, pelo menos o aliviaria e deveria, por isso mesmo, ser repetida mais frequentemente; mas, felizmente, ela tem uma ação mais positiva, e é reconhecida, assim como isto vos foi demonstrado, que a prece tem para todos uma imensa utilidade: para aqueles que a fazem, como para aqueles a quem se aplica.

O que disse não é verdadeiro senão na maioria; porque, ai aos que não recobram assim a fé na sua hora última; que, o vazio na alma, querem ser, creem, afundados no nada e, por uma espécie de frenesi, querem eles mesmos nele se precipitar. Esses são os mais infelizes, e vós que sabeis toda a utilidade e todos os efeitos da prece, orai sobretudo por eles.

ANDRÉ – (médium Sr. CHARLES B.).

Fala MEU! Edição 68, ano 2008
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