Opinião

O que tenho a ver com isso?

Autora: Flávia Uhlmann

A: Você viu o que ele fez?

B: Como ele pôde!! Tão jovem!

A: Cometendo este crime!

B: Deverá ficar apodrecendo na cadeia!!

A: A justiça tem que ser feita!

B: Pois é …. Não dá mais para confiar em ninguém!

A mídia aplaude, pois o crime é um prato cheio para que todas as emissoras de TV no horário nobre transmitam as cenas do crime, repetidas milhares de vezes para aumentar nossa indignação e os impropérios contra aquele rapaz. Os parentes e amigos das vítimas se desesperam; a polícia, promotores e advogados se manifestam analisando o caso; médicos e diretor do hospital se colocam diante dos microfones para relatar minuciosamente seus procedimentos com relação às jovens vítimas.

E o povo chora!! E a revolta vem!! E o julgamento é severo: “O rapaz deve apodrecer na cadeia.”

“(…) A indulgência jamais se ocupa com os maus atos de outrem, a menos que seja para prestar um serviço; mas, mesmo neste caso, tem o cuidado de os atenuar tanto quanto possível. Não faz observações chocantes, não tem nos lábios censuras; apenas conselhos e, as mais das vezes, velados. Quando criticais, que consequência se há de tirar das vossas palavras? (…)” – José, espírito protetor Bordéus, 1863 (Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 10 – item 16).

Como observadora do lado de fora, eu pergunto: – O que tenho a ver com isto? Eu aponto o dedo também ou tento “prestar um serviço” junto aos meus amigos e familiares para “atenuar tanto quanto possível” a tragédia, mais que física, a emocional e mental, que assola os paulistanos, testemunhas silenciosas televisivas de um crime envolvendo 03 jovens, neste mês de outubro?

Minha mãe de 90 anos é uma das espectadoras que, estarrecida, se deixou ficar hipnotizada pelas imagens e comentários exaustivos…Meu papel? O de tentar convencê-la a mudar de canal e de orar pelo rapaz, pelas moças e, principalmente pelos familiares.

Com a dimensão espiritual que procuro enxergar nos fatos, também passo a me perguntar: – O que fez este rapaz cometer tal crime? Que distúrbios emocionais e espirituais trazem as pessoas envolvidas nesta história? Como fica o perdão entre todas estas almas?

“(…) Que é que pedis ao Senhor, quando implorais para vós o seu perdão? Será unicamente o olvido (esquecimento) das vossas ofensas? Olvido que vos deixaria no nada, porquanto, se Deus se limitasse a esquecer as vossas faltas, Ele não puniria, é exato, mas tampouco recompensaria. A recompensa não pode constituir prêmio do bem que não foi feito, nem, ainda menos do mal que se haja praticado, embora esse mal fosse esquecido. Pedindo-lhe que perdoe os vossos desvios, o que lhe pedis é o favor de suas graças, para não reincidirdes neles, é a força de que necessitais para enveredar por outras sendas, as da submissão e do amor, nas quais podereis juntar ao arrependimento a reparação (…)” – João, Bispo de Bordéus, 1862 (Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 10 – item 17)

Ah… os pais!! Vibro intensamente para que os pais das meninas entendam o valor do real perdão…Que exercício seus co

rações precisam desenvolver diante daquele rapaz!! E o rapaz? Se é certo que Deus “não  pune, mas tampouco recompensa”, vibro intensamente para que o rapaz desperte sua consciência embotada pela cegueira emocional ilusória em que se encontra para vislumbrar não o remorso, mas “o arrependimento e a reparação” de seu ato impensado, ou melhor, inconsciente. As meninas? Qual o grau de vitimização e de simbiose emocional entre elas, entre elas e ele? Só perguntas, sem respostas racionais, porém espiritualmente vibro para que a teia do ódio seja desfeita e que a membrana do perdão envolva firmemente cada pensamento e sentimento emitido de uns para com os outros.

“ (…) Todos vós tendes maus pendores a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar; todos tendes um fardo mais ou menos pesado a alijar, para poderdes galgar o cume da montanha do progresso. Por que, então, haveis de mostrar-vos tão clarividentes com relação ao próximo e tão cegos com relação a vós mesmos? Quando deixareis de perceber, nos olhos de vossos irmãos, o pequenino argueiro que os incomoda, sem atentardes na trave que, nos vossos olhos, vos cega, fazendo-vos ir de queda em queda? (…)” – Dufêtre, bispo de Nevers – Bordéus (Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 10 item 18).

Com todo o panorama desta história passional entre jovens, mas ainda tão real neste século avançado tecnologicamente, pergunto-me: – Quais as fraquezas e irracionalidades emocionais que trago comigo, que ainda não consigo ver, que bloqueiam o meu relacionamento com meu marido, minha mãe, familiares, amigos e até inimigos? Chego à conclusão, pelo autoconhecimento, que são muitas ainda! Tarefa contínua a ser por mim desenvolvida e também junto a terapias diversas que procuro constantemente fazer para ser um ser melhor! Estou alerta, pois sou alma em constante evolução!

Não tenho filhos, mas adoro ensinar as crianças como professora particular de inglês e, ao frequentar durante 05 a 06 anos a casa de uma mesma família, muito tenho aprendido a analisar os relacionamentos entre pais e filhos e entre irmãos, além de me ajudar a enxergar minhas limitações, pois parafraseando o linguista William Glasser “95% do que se aprende é quando se ensina”.

Gostaria também de deixar, além do meu beijo a todos os leitores do FM!, algumas frases do mestre em teologia, doutor em filosofia, psicanalista e professor, Rubem Alves, para sua reflexão:

“Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem… O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.”

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos.”

“Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir e não se torna como uma criança jamais será sábio.”

“Os olhos têm de ser educados para que nossa alegria aumente.”

“A primeira tarefa da educação é ensinar a ver.”

MAIS SOBRE A FLÁVIA UHLMANN:

Encontros A Arte de Educar com Arte www.geocities.com/grupointera Aluna de pós em Pedagogia Espírita

Fala MEU! Edição 68, ano 2008
Palavras Relacionadas

Comentar

Clique aqui para comentar