Conscientização

O silêncio dos inocentes…

Autores: Thiago Rosa & Rodrigo Prado. Colaboração: Felipe Gallesco & Cinthia Espadafora. Fotos: Adonay Fernandes & Júlio Castro Leite

Vida.

Qual o significado desta simples palavra formada por quatro letrinhas?

Se você perguntar para alguns religiosos, você pode ter uma resposta como “um sopro divino”. Se indagarmos para um ser doente que vê sua vida esfacelar, esta palavra pode significar a coisa mais preciosa do mundo; se perguntar para uma criança, talvez ela te responda com um sorriso manhoso de alguém que ainda não tem resposta pra tudo; para um tendencioso suicida, você pode absorver que ele ainda não soube o que isso significa e, se soube, pode ter esquecido qual o verdadeiro significado; para um romântico, pode ser como o cheiro da paixão; para um poeta, a vida pode ter a discordância entre o sofrimento de viver e a ternura da morte; para quem está na beira do precipício, ela pode ser medida pela adrenalina e o medo de não encontrá-la nunca mais.

Milhares de pessoas e milhares de respostas você pode encontrar nesta conexão com a palavra vida. O escritor inglês H. Rider Haggard (1856 – 1925), escritor de “A mina do Rei Salomão” disse em algumas palavras que “A vida é nada, a vida é tudo. É a mão com que seguramos a morte. É o pirilampo que brilha na noite e que desaparece na manhã; é o respirar branco da gazela no Inverno; é a pequena sombra que corre sobre a erva e se perde ao pôr do sol”. Por fim, o cantor Gonzaguinha sintonizou em sua voz dizendo que “eu sei que a vida deveria ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita, é bonita”.

Todo este contexto é para tentarmos aflorar em nossa mente o mínimo, o menor dos sentidos da palavra Vida. É pelo menos desta forma que podemos encontrar respostas sobre a importância da vida de um ser prestes a nascer em relação ao sentimento da vida que o ser humano pode ter em fase já adulta.

A sua vida é importante? Será que ela é mais importante que a de um feto em formação no útero materno?

A palavra aborto, que bate de frente com o significado da “vida” – seja para cientistas, médicos, religiosos, feministas ou um ser humano qualquer – virou motivo de discussão há dois meses com um caso particular que apareceu nas diversas mídias de comunicação, referente à garota de nove anos, na cidade de Alagoinha (PE), que ficou grávida através da violência sexual praticada pelo padrasto.

Parece que é algo assustador, e é. Mas casos como este, ou bem parecidos não são raros a tal ponto de chegar a alarmar na mídia como aconteceu. É tão chocante como saber que de cada 15 casos de violência sexual surgidos diariamente no hospital Perola Byton, em São Paulo, aproximadamente metade envolve meninas de até 12 anos de idade.

Casos como da garota de Alagoinha, infelizmente, são bem comuns. Segundo o Ministério da Saúde, em 2008, o número de abortos legais entre garotas de 10 e 14 anos subiu para 49 casos. Em 2007 foram 22.

No ano passado, aproximadamente 3mil abortos foram praticados no país, porém, o Ministério da Saúde acredita que cerca de 1milhão de abortos clandestinos são realizados a cada ano.

A equipe do Fala Meu! esteve no 30 Ato Público à Favor da Vida, na praça da Sé, no último dia 28 de março e pôde ver direto a ação ecumênica realizada por uma grande equipe que tenta de todas as formas vetar o projeto lei que busca legalizar o aborto  por qualquer motivo no Brasil. Estiveram presentes cerca de 15 mil pessoas que representaram a opinião de diversas religiões, pessoas comuns ou simpatizantes pela causa.

Logo que chegamos na praça através das  escadarias rolantes do metrô, um morador de rua muito revoltado nos abordou: “Vocês não sabem o que fazem e nem pelo que lutam. Vocês querem ter mais crianças morando na rua? Tem uma garota alí, meu irmão, que tá grávida, que vai receber uma bolsa do governo e que nem sabe pra que serve a criança que tá na barriga dela de tão nova que é. Vocês que tem suas casas, trabalham e têm uma condição de vida privilegiada vem até aqui falar no microfone, mas não sabem a realidade que passamos”.

Percebi que situações como esta é melhor ouvir e ficar calado. É evidente que tem realidades que não conhecemos, outras temos um pouco mais de proximidade. É verdade também que em muitas cidades do norte e nordeste do país, a gestação da mulher é tida como moeda de troca com o auxílio de bolsa do governo, de modo a garantir e suprir necessidades da família.

Mas, uma das grandes teclas batidas fortemente por grupos feministas, por exemplo, é de que a mulher tem que ter liberdade para decidir o que quer realizar com o seu corpo. No portal “delas” no IG (delas.ig.com.br), uma matéria escrita no dia 16 de abril, sobre a relação do aborto com o abuso sexual cometidos em crianças, fala que, há 20 anos atrás, o Brasil só tinha um centro médico para realização de abortos e que, hoje, além das 55 clínicas que são permitidas a realizá-lo, existem mais 400 que tratam de pacientes vítimas de abuso sexual. Segundo a advogada Beatriz Galli, especialista em direitos humanos do Ipas, organização que trabalha para expansão dos direitos reprodutivos da mulher, este número não é suficiente já que as clínicas financiadas pelo governo só estão localizadas nas capitais.

Mesmo com todo esta exploração da questão feminista que existe, conseguimos abordar a ex-senadora Heloísa Helena na saída do seu discurso na Praça da Sé. Questionada sobre se ela se achava uma feminista, o “sim” veio tão rápido como um disparo. Perguntamos: “A maioria das feministas são a favor do aborto. Qual o seu diferencial?”. A atual vereadora respondeu de forma bem agradável e objetiva: “Eu me reivindico da esquerda socialista democrática que não se vendeu ao capital e não se rendeu ao banditismo político em termos de poder. E acho que a legalização do aborto – e pasmem quem pensa o contrário – é uma proposta reacionária, conservadora, de redução à idade penal ao útero das mulheres pobres, e eu sou feminista”.

“Passei três dias internada, todos os dias sentindo dores. Era 9h40 da manhã quando me levaram para a sala de parto. Eu lembro até hoje outras crianças nascendo do lado, recebendo a vida e eu.., eu estava ali matando a minha filha”. Este discurso é reproduzido no documentário “Quantos ‘eu te amo’…”, que tem cerca de 40 minutos de reprodução com relatos de vários médicos, especialistas, advogados e mães que tiveram diversas experiências de vida e que podem nos ajudar a refletir sobre a liberação do aborto. Quais são os prós e contras, através de diversos pontos de vistas, sobre a legalização do aborto? No próprio filme Heloísa Helena discursa: “Eu até entendo que a mulher tem autonomia para fazer o que quiser com o seu corpo, mas ela não tem autonomia para definir sobre a vida de outro ser humano que ela traz dentro do seu próprio corpo”.

Afinal, a mulher tem direito de escolher o futuro de uma outra vida que germina dentro de seu útero? Pode o pai escolher se ele quer ter o filho ou não a partir do momento que o espermatozoide fecundou o óvulo e desencadeou todo o processo de formação do novo ser?

Um ponto que quase ninguém mostra quando falado sobre a questão do aborto é as consequências físicas que ele pode causar na mulher. A Dra. Lílian Piñero Eça, que é biomédica, doutora e pesquisadora em biologia molecular pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e presidente do Instituto de Pesquisas de Células-tronco, em seu artigo “Aborto: Liberdade Feminina para escolher a própria morte” relata de forma bem esclarecedora: “Quando a mulher está grávida , é secretado o hormônio da manutenção da gravidez, a progesterona, o qual adapta o corpo feminino à nova realidade biológica através de sinais que interagem as 75 trilhões de células, tornando a mulher, mãe do ser em seu ventre concebido. Quando a gravidez é interrompida com o aborto, ocorre uma interrupção abrupta de neurotransmissores secretados pelas células nervosas, ocorrendo por este motivo um desequilíbrio nos sinais celulares – é a depressão causada por motivos moleculares e, consequentemente, levando o aumento da taxa de suicídio e infertilidade”.

O projeto lei que busca legalizar o aborto daria o direito da mulher de tirar a vida de seu filho com até o nono mês de gestação. Se for errado cometer o infanticídio, crime cometido quando a mãe mata o seu próprio filho, porque então não seria errado tirar a vida de um filho que ainda não nasceu? Se ainda não conseguimos ter uma resposta plena para a questão da vida, não é difícil imaginar que a vida pode começar a partir do momento que houve a concepção do óvulo com o espermatozoide.

O grande fator é que a questão do aborto, quando parece que está adormecida, surge um caso para retornar a discussão e prevê que as pessoas e as mídias formadoras de opinião serão favoráveis a legalização, ou amenização das penas para quem comete o aborto. O caso da garota de Alagoinha foi mais um dos pavios acesos para colocar tudo isso à tona novamente. Ainda mais quando as pessoas acham absurdo ver um representante da igreja católica falar sobre excomunhão dos médicos e demais envolvidos neste caso do aborto que ganhou sucesso nacional. Para o advogado especialista em direito constitucional e estudioso do direito canônico, Rodrigo Pedroso, as pessoas acabaram interpretando de forma equivocada: “O arcebispo não pode inventar uma excomunhão. Isso já está previsto no direito canônico, é uma excomunhão que ocorre lato-sentença, ou seja, não há a princípio uma declaração formal. E outra, pra você considerar que os médicos foram excomungados, é preciso que antes eles tivessem consciência sobre a excomunhão e que eram católicos, porque se não são católicos, não há porque discutir”.

Quando a reportagem surgiu na televisão como forma de absurdo, a primeira reação das pessoas foi de choque, de que a igreja católica caiu no seu conservadorismo. Mas poucas pessoas sabem que existe o direito canônico, que nada mais é do que um direito especial da igreja católica e válido para católicos.

Pedroso, que é formado pela Universidade de São Paulo (USP), ainda fala que, referente a este caso que ganhou grande repercussão, a mãe da garota não queria que fosse realizado o aborto e que nem tudo foi explicado de forma correta para o público: “os pais da menina viviam separados e a mãe dela vivia com um homem que tinha a metade de sua idade e, este homem, não só abusou da menina de nove anos como da irmã de 14 que tem problemas mentais. Agora, ele abusava das duas crianças e precisou que uma delas engravidasse para tomarem alguma providência pra sair na mídia. Resultado é que o abuso sexual dentro de casa, na família, é um problema no Brasil. E o que aconteceu é que a garota foi levada no início para Pernambuco e tanto a diocese de Alagoinha como a arquidiocese de Olinda e Recife procuraram prestar toda a assistência material desde o momento que ficaram sabendo disso”.

Muitas dúvidas surgiram com este caso que veio à tona. Mas de tudo isso, podemos tirar uma certeza: de que a discussão da legalização do aborto acordou mais uma vez. E você pode ter uma ideia formada ou ainda estar na dúvida, mas a matemática é simples: Você acha que sua vida é mais importante que a de um bebê em formação no útero de uma mãe? Por quê?

Em São Paulo, há pouco tempo atrás, uma rádio fez até campanha para recolher alimento para cachorros que passavam por necessidades. Ou seja, se somos tão apegados e temos tanta compaixão pelos nossos animais de estimação, porque não teríamos com um ser que se tornará tão grande e forte como um de nós; e terá inteligência para caminhar pela vida; e terá experiências múltiplas como você teve e poderá dar tanto valor a sua vida como você um dia deu pra vida dele?

“O aborto pra mim é um homicídio qualificado que trata de um ser que não pode se defender, que não teve oportunidade de fazer nenhum mal”, conclui ainda Pedroso que é católico e grande batalhador pela vida: “Eu fiquei um mês numa cama de hospital com pneumonia e trombose e, quando você está lá, você acha que a melhor coisa do mundo é você estar suado debaixo do sol – como aqui – do que ficar preso em uma cama de hospital”.

Vida! Qual o significado pra você desta pequena palavra? Você pode ter se deparado muitas vezes com esta dúvida, com o fato de você existir, com o fato de alguém um dia ter te dado a oportunidade de você nascer, de você crescer e ser este ser único nesta face da Terra, que até então ninguém poderia existir.

Nesta escola, onde as escolhas são nos dadas diariamente, você tem o direito de fazer mais uma: deixar que a sua oportunidade de vida, seja a oportunidade de muitos outros.

“Do ponto de vista biológico não há dúvida alguma de que uma nova vida se forma  no momento da fecundação”, diz a Dra. Lenise Garcia, que é bióloga e presidente do Movimento Brasil Sem Aborto.

A equipe do Fala Meu! é à favor da Vida. Para todos nós que fazemos parte desta revista, não existe nada que seja positivo em relação ao aborto.

Fala MEU! Edição 74, ano 2009