Infância e Família

Pai e filho: semeando corações

Autor: Ivan da Luz

“Uma noite, numa chuva chata, após a saída do Centro (todos os domingos eu vou ao grupo de mocidades), estava com meu filhão (Pedro Henrique, quase três anos de idade na época- hoje com 4 e meio), quando um homem bêbado se aproximava. Em poucos segundos minhas lembranças foram acionadas, do tempo em que eu temia homens bêbados. Talvez porque, desde criança, minha mãe, tias e os mais velhos me ensinaram a evitar pessoas neste estado, como se fossem elas desprezíveis. Então, sempre tive medo de bêbados em minha infância.

Fui interrompido em meus pensamentos pelo Pedro Henrique perguntado “papai, quê ito?” (o mesmo que: “papai, o que é isto?” ou “quem é este?”). E enquanto eu respondia a ele que era um moço que estava com um problema, o homem bêbado parou (estava bem vestido e parecia ter um pouco mais de 40 anos) e perguntou o nome de meu filho e ele respondeu: “Pêdo Eíque”. O homem parecia espantado com o fato de eu não ter afastado o Pedro Henrique dele e disse que se chamava Alberto. Pediu um abraço ao meu filho. O Pedro Henrique abriu os braços e o sr. Alberto o levantou em seu peito. Pareceu emocionado quando meu filho encostou a cabecinha em seu ombro. Confesso que fiquei desconcertado com aquela cena. Eu não estava interessado em solidariedade com aquele homem e fiquei i, de fato, um tanto incomodado com a situação.

A chuva continuava e precisávamos ir. Meu filho se despediu do sr. Alberto que ficou ali parado, pensativo enquanto íamos nos distanciando dele. Ainda dava para ouvir ele dizer coisas como “Meu Deus, como Tu é bom…”, “Meu deus, que coisa mais maravilhosa me aconteceu, que criança linda”. Quando já distante, gritou um obrigado para mim e resolveu seguir caminho.

Na Parábola do Semeador, Jesus, onde ele nos ensina a importância de semear a Boa Nova, levando consolo aos aflitos (que, aliás, é o que ele sempre fez e faz a nossos corações, também aflitos, até hoje) e que todos podemos de fazê-lo, dentro de nossas próprias condições. Porém, é preciso também que cultivemos boa terra em nossos corações, para que, quando ouvirmos qualquer Boa Nova, ela frutifique. Pensei nisso e na relação com meu filho. Afinal, ser pai é semear e ser semeado, já que neste dia de chuva, quando eu saía com ele, de mais uma reunião de mocidade, aprendi mais uma vez o significado das palavras de Jesus quando diz que precisamos ser como as crianças…

Muito do que penso é reflexo de meus estudos na doutrina espírita, que norteia meus raciocínios. Mas nem sempre ajo como penso, já que a distância entre um e outro é determinada pelas minhas limitações enquanto ser humano fálico, principalmente no campo dos sentimentos. No entanto, embora eu tenha já me equivocado muito nestes meus 29 anos de vida, é na paternidade que me esforço por me equivocar menos!

Assumir compromissos paternos é o mesmo que assumir o esforço pelo aperfeiçoamento pessoal, no tocante ao desenvolvimento de nossos mais nobres sentimentos. Paternidade tem mesmo um caráter divino, pouco assumido por muitos, em especial pelos homens. Infelizmente nossa sociedade parece desavisada sobre a nobreza conceitual e contextual dos valorosos atributos adquiridos quando se esforçam por ser um pai com tal comprometimento. Independe de religião. Independe de classe social. Independe de formação acadêmica. Depende de sentimentos, estes que nos movem sempre, sejam positivos ou não.

Voltando. Aqueles que se tornam pais, mas não se comprometem com esse caráter divino mantém-se longe das verdadeiras noções de humanidade. Ser pai é também buscar humanidade. Muitos de nós, pais no mundo, precisamos nos esforçar cada vez mais à compreensão da complexidade e grandeza bendita que é a paternidade. É até mesmo natural que nos interessemos pelo mundo, até mesmo por alguns acontecimentos vulgares, mas a paternidade se configura essencial, onde se deve atender aos desígnios desse caráter divino, quando consideradas as responsabilidades mais importantes que nos são conferidas em relação a essa condição.

Filhos são como preciosidades que Deus confia às nossas mãos, onde solicita cooperação e afetividade eficiente. Cada dia que passa tento absorver esses conceitos, me percebendo o quanto sou abençoado por ter tal confiança e o quanto é preciso cuidar das primeiras orientações de vida do Pedro Henrique e Mateus (este, o irmão mais novo, faz dez meses em agosto), as criaturinhas que ele me confiou. Emmanuel escreveu certa vez que receber encargos desse teor é alcançar nobres títulos de confiança. Por isso, criar filhos e aperfeiçoá-los não é tão fácil.

A grande maioria dos pais parece desavisada quanto a esta contextualização, a meu ver. Seja nos chamados excessos de ternura, ou nos exageros das exigências. Que eu possa, com minha busca, compreender cada vez mais que, para ser pai, são necessários profundos dotes de carinho e afeto, à frente desse compromisso onde deve brilhar o dom do equilíbrio emocional.

Quantas sementes vocês acham que o homem tem o direito de possuir, para desperdiçálas plantando a esmo? Suponha que seu pai fosse obcecado por ter filhos, não importasse de qual mulher, nem o amor que sentisse por ela. A única coisa que lhe importava era o seu objetivo: ter um filho homem, a quem daria o seu nome. Suponha ainda que seu pai estivesse tão cego para os seus objetivos que nunca traçou um plano ou escolheu onde iria colocar sua semente. Jogava-a na primeira mulher que ele julgava amar. Suponha que todas essas mulheres fossem estéreis. Depois de tantas tentativas frustradas, ele abandonaria todas e perderia o sonho de ter um filho.

Vocês conseguem perceber se é que minha percepção está certa – a importância da terra? Que Deus me ajude a ganhar cada vez mais serenidade para que eu não desperdice as sementes que me chegam para o plantio no coração de meu filho e que eu possa me abrir às sementes que, porventura, meus filhos carregam para plantar em meu coração”.

Fala MEU! Edição 53, ano 2007
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