Reforma Íntima

Recomeçar

Autor: Joelson Pessoa

Havia proferida uma palestra sobre o Auto-Amor num centro espírita de São Paulo. A reunião estava encerrada. Durante os cumprimentos e despedidas o dirigente indagou sobre o meio que eu faria o retorno para casa e respondi que tomaria uma lotação para o metrô. Ouvindo isto, o Sr. W., frequentador da casa, se antecipou solícito e me ofereceu carona. Aceitei sem cerimônia. Já no automóvel percebi que o meu novo amigo parecia bastante entusiasmado, depois de trocarmos algumas palavras, revelou-me: _ “Suas palavras me fizeram um grande bem nesta noite”. Eu agradeci acanhado, porém o Sr. W. desejava justificar-se e deixou me admirado com uma confidência inesperada: “Vou lhe contar algo da minha vida que nunca quis contar a ninguém, nem às pessoas do centro eu falei sobre isto, nem sei por que estou tocando neste assunto com você, mas eu sinto que posso. Eu usei drogas durante 30 anos da minha vida. Já fazem oito que deixei as drogas, somente a minha mulher conhece inteira a minha história e agora eu estou aqui falando dela pra você. Comecei com cigarro aos 13 anos, ficava na rua, sem nada pra fazer, meu pai…(a voz embargada), não é que eu não goste do meu pai, ele já morreu, mas meu pai nunca conversou conosco, nunca deu carinho, ele era bastante bravo, lembro uma vez que ele jogou um martelo em mim. Então na rua eu experimentei maconha e passei a fumar com frequência, minha família nunca percebeu. Depois aprendi a beber e tudo o que eu ganhava trabalhando, gastava com o vício. Cresci, me casei e o vício me acompanhou. Perdi o emprego, vendia os objetos de casa para sustentar o vício. Cansada de sofrer, minha esposa me abandonou e isso me revoltou demais, então, já que eu estava lá no fundo do poço, e não conseguia deixar o vício, vou jogar tudo pro alto agora – passei a consumir crack… (a voz embargou pela 2ª vez). O crack destrói o homem. Por causa do crack perdi até a minha casa e fiquei nas ruas, dormi na rua, você acredita nisso? Foi só então que a minha família conheceu a minha real situação, a de um homem arruinado. Minha irmã veio em meu auxílio, fez de tudo pra me ajudar, mas eu não conseguia me livrar dos vícios (cigarro, álcool, maconha e crack). Hospedado na casa dela eu vendia suas coisas. Conheci um grupo de N.A. (Narcóticos Anônimos) e não quis participar, nunca gostei de ter que falar de mim, eu nem sei como é que eu estou conseguindo falar estas coisas com você. Mais tarde conheci uma moça, nos interessamos um pelo outro, e esta moça que hoje é a minha atual esposa me ajudou bastante também. Nunca tive filhos e decidimos adotar uma criança na FEBEM. Hoje ela está uma moça linda, quase entrando para a faculdade…” (a voz embarga pela 3ª vez).

Aproveitei a brecha e perguntei: Diante da dificuldade que existe para abandonar o vício, o que é que de fato o livrou das drogas? Houve um motivo especial?

O Sr. W. respondeu sem hesitação: “Sim, você sabe que a Páscoa é uma data que me emociona demais!?, (a voz embarga, pela 4ª vez) isto o que eu vou te dizer, e que me envergonha muito, apenas a minha esposa sabe, ninguém mais, é algo que me matava por dentro sempre que me recordava; era um domingo de Páscoa, minha mulher havia comprado com dificuldade um ovo de páscoa para a nossa filha e eu, na febre por crack, peguei o chocolate da minha filha, fui pra rua e troquei por droga (Sr. W. represa o choro), só depois que fiz isso é que eu caí em mim e vi que eu estava realmente perdido, no fundo do poço, então já não queria mais aquilo, eu estava fazendo mal à minha filha, ela ia crescer e eu não suportei a ideia de que ela teria vergonha do pai. O trabalho e o isolamento me curaram, fui trabalhar num sítio distante, sozinho, trabalhava duro, carpia, arava, semeava, cultivava, colhia, consertava, reformava as coisas, cortava lenha, tratava os animais, diariamente, desde o amanhecer  até a noite. Foram dois anos de serviço que ocuparam minha cabeça no que me ajudou a esquecer a droga. Hoje eu não fumo nem cigarro e não bebo nada. Daqueles amigos que eu tinha na juventude, alguns morreram assassinados, outros ainda estão vivos na penitenciária, um deles teve filhos e os meninos seguiram o mesmo caminho, pai e filhos estão presos. Graças a Deus eu nunca entrei para a criminalidade, eu fiz mal pra mim e pra minha família”.

Houve uma pausa na conversa e eu meditava satisfeito por conhecer um caso de recuperação admirável, pensava que o depoimento deste homem poderia agir como incentivo para muitas pessoas que estão desacreditadas de si mesmas. Minhas reflexões foram interrompidas quando o Sr. W. retomou a palavra: “Sua palestra foi muito boa pra mim, apenas hoje eu percebi que eu tenho motivos pra ter orgulho de mim, dos meus progressos, você sabe que por causa do meu passado, cheio de culpa e vergonha, eu nunca me senti feliz!? Não pensava nas coisas boas que me aconteceram, minha cabeça estava lá, no homem doente que eu era. Hoje abriu um clarão nas minhas ideias e percebo que eu posso sim me amar e tenho motivos concretos para isso, sou um homem transformado, constitui uma nova família, amo minha mulher e minha filha, continuo auxiliando minha ex-esposa, tenho uma nova casa, este carrinho e depois desta palestra estou até sentindo vontade de continuar os estudos, que interrompi no primário”.

Incentivei ele a retomar os estudos, ele comentou que tinha vergonha de voltar velho à escola e eu retruquei que isso ele podia tirar de letra, que a vergonha não iria durar além do primeiro dia, inclusive citei que minha mãe retomou os estudos do ensino fundamental com quase 50 anos, e continuaria a comentar mais quando o meu novo amigo mudou de assunto: “Tinha lhe falado (quando ainda estávamos no centro) que você é muito parecido com o meu sobrinho, afilhado. Ele era médico e foi assassinado ao reagir a um assalto. Ele foi o meu primeiro filho e tive muita revolta, o bandido foi identificado e preso, você sabia que eu tive a chance de recorrer a um dos colegas do passado, que é bandido e teria executado o infeliz se eu fizesse esse pedido? Joelson, agora eu tenho vergonha de confessar, mas durante dias essa ideia queimou a minha mente, e eu só não fiz isso por causa das palestras que já estava começando a escutar no centro, tinha medo de ser punido em outra vida e eu já estava cansado de sofrer. Ontem foi a audiência, não pensei mais na vingança, só desejo que a justiça seja feita, que ele cumpra a pena dele. Hoje penso que meu sobrinho condenaria a vingança. Por isto também sinto agora o quanto estou evoluindo, fazendo a coisa certa, nada é fácil, mas podia ser pior”.

Concluiu com a serenidade que o desabafo propicia. Já havíamos chegado à estação do metrô de onde eu faria a baldeação e tomaria ainda uma lotação, não fosse a distancia que eu tinha pela frente e teríamos conversado muito mais. Nos despedimos permutando admiração e carinho recíprocos com a promessa de novas conversas para a próxima ocasião em que nos encontrássemos. De volta pra casa eu recapitulava tudo o que tinha acabado de ouvir, naquele desabafo continha muito aprendizado. Não podia ficar só pra mim, pensava na transformação que um homem pode vivenciar e indagava de mim mesmo: Onde eu estaria efetivamente progredindo?

Fala MEU! Edição 50, ano 2007

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