Inclusão

Surdo sim… mudo, nem todos!

Autora: Sonia Piccolo

É com imenso prazer que escrevo algumas linhas nas páginas deste informativo, e tento colocar a minha experiência para responder as perguntas mais frequentes sobre o que é estar surdo, quais as implicações e aprendizados que envolvem a condição.

Não sabia o que era viver no silencio até os 11 anos de idade, quando tive meningite e perdi 80% da capacidade de ouvir. Isto significa que ouço alguma coisa, porém não consigo decifrar estes sons, nem mesmo o timbre da minha própria voz.

A principio foi um choque, doloroso demais para uma criança de 11 anos que nunca tinha conhecido um surdo, e não sabia nada sobre surdez. Eu queria dançar, cantar, continuar estudando com meus colegas de escola. Parei de ouvir e perdi o contato com o mundo, e os meus ouvidos fazem um barulho irritante, dia e noite.

Devo dizer que sofri muito no início, tentando me adaptar a este novo estilo de vida.

Mas, por mais que as pessoas não acreditassem, eu não “ficava brava” com Deus. Nesta época já era assim que eu O concebia, embora ainda não tivesse despertado para a doutrina espírita, eu tinha Deus como meu amiguinho oculto, e não podia dizer pra ninguém né? Naquela época  seria um “sacrilégio”, fazer de Deus “meu amiguinho”.

Mas era assim! Na verdade, eu conversava com Ele e tentava entender as respostas. Sofria, mas ficava tentando entender que “joguinho” era aquele.

Minha vovó me levava a “curandeiros”. Eu ia, mas dizia a ela que eles não me curariam, ela dizia que eu deveria ter fé. Mas… difícil explicar que era exatamente a fé que me dava estas respostas que nem mesmo eu entendia.

Nesta condição de estar surda, acabei  por desenvolver, assim como todos os surdos, outros sentidos, como por exemplo, uma percepção aguçadissima, que me faz sentir “o outro” de uma maneira diferente.

Já adulta, casada, mãe, eu conheci a doutrina espírita!

Fiquei maravilhada, percebi que era ali que eu deveria estar, e todas aquelas coisas que eu “via” na palestra (faço leitura labial) combinavam com tudo o que eu sempre pensei no meu silencio, e em minhas conversas com Deus. Quando o palestrante tinha bigode, ou oralizava (falava) muito rápido, voltava pra casa triste e esperava pela próxima palestra, esperando ter mais sorte! Quando fazem dinâmicas durante as palestras, meu martírio aumenta… Imagine vocês que já me pediram para participar de telefone sem fio!!!

Comecei os meus cursos de doutrina. E embora todos tivessem comigo um carinho especial e dedicação, pouco sabiam, e até hoje pouco sabem sobre os surdos e surdez. Mesmo assim, eu continuei e conclui todos os cursos. Durante as práticas eu me sentia constrangida, havia necessidade de fechar os olhos para concentração e eu me perdia totalmente, meus olhos são o meu contato com o mundo, com eles fechados eu jamais conseguiria participar de uma atividade grupal.  Os dirigentes por vezes me diziam que, a espiritualidade trabalharia comigo de forma diferente. Que forma seria esta? Como? Como eu poderia por exemplo, assimilar os ensinamentos que estavam sendo transmitidos, ou as mensagens que os mentores transmitiam, no começo de um curso, se não podia ouvir? . Foi muito difícil, quase desisti!  Depois eu aprendi a “SENTIR”.

Daí eu comecei a pensar na sabedoria divina que dá a cada um a ferramenta que precisa para evoluir.  Conheci outros surdos, que se comunicavam de uma maneira especial, usando uma língua diferente. Me envolvi, aprendi a língua e conheci as comunidades surdas. Foi a melhor experiência já vivida por mim em todos estes anos. Percebi que todos tem dentro de si uma capacidade enorme de percepção, uma sensibilidade marcante. E a maioria deles frequenta as igrejas evangélicas por falta de opção. Não que eu seja preconceituosa, muito pelo contrário, conheço as igrejas evangélicas e muito me admira o trabalho que fazem com os surdos, de acordo com a visão que tem. Mas eu gostaria que os surdos, assim como os ouvintes, tivessem opção de escolha. As igrejas evangélicas oferecem intérpretes e acompanhamento aos surdos. Muitos ainda conhecem aquele Deus vingativo, punitivo, arrogante, que os torna surdos porque não souberam satisfazer as SUAS vontades. Por que isto acontece?  Por falta de alguém que saiba interpretar sua língua e os esclareça sobre outras formas de “imaginar Deus”, sob a ótica de outras religiões.

Por vezes me perguntam se eu acredito que tenha feito mal uso de meus ouvidos numa vida passada. Acredito que tenha feito mal uso de tantas coisas!!! E se Deus tivesse que me “punir” para que aprendesse com a ausência de algo, não teria corpo físico!! Ferramentas existem para ser usadas, e acredito na sabedoria divina, que dá cada vez mais chances para que aprendamos. A deficiência pode também ser uma prova de que como podemos atuar na falta de algum órgão dos sentidos, tanto para quem atua, como para quem convive com ele. Não acredito em processos punitivos, sejam eles de qualquer forma ou efeito, sob esta visão.

A surdez para mim tem sido um aprendizado enorme.

A partir de então tenho tentado, levar alguns surdos para a doutrina. Porém o acesso dos surdos nas casas espíritas é muito difícil.

Porque como já mencionei , pouco se sabe a respeito de surdos e surdez.

A primeira coisa que devemos saber é que não são MUDOS. Usa-se frequentemente este termo, porém a mudez é caracterizada pela perda das cordas vocais, e pode acontecer com um individuo que não seja surdo. O surdo-mudo portanto é possuidor de deficiência múltipla. Os surdos são capazes de falar, com voz oral, ou através da LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, que está oficializada no Brasil desde 2002.

Os surdos se comunicam com facilidade quando encontram alguém que conheça sua língua, ou quando tem acesso a interpretes na intermediação desta comunicação.  São frequentemente preconceituados como incapazes de aprendizagem em qualquer setor, com capacidade reduzida, ou até mesmo com retardamento mental, o que os faz juntarem-se em comunidades e afastarem-se dos “ouvintes”, criarem sua própria cultura.

Alguns conseguem ser oralizados, para estes as oportunidades são maiores, porém nem todos conseguem isto e são excluídos pela sociedade, que não lhes dá a oportunidade de mostrar o quanto são capazes! Hoje, em tempos de inclusão muitos conceitos têm sido modificados, e os surdos já estão ocupando um espaço real.

Me perguntam se as casas espíritas estão preparadas para receber as pessoas surdas.

Não! E infelizmente, percebo que o espiritismo é a religião que menos preparo tem para atender seus deficientes físicos. E isto muito me entristece, tendo em vista que vários cursos já foram oferecidos gratuitamente, inclusive anunciados neste Boletim.

Muitos surdos conhecem a doutrina através de estudos solitários, leitura de livros e troca de opiniões entre si. Conheço um casal de surdos cegos que são estudantes fidelíssimos de espiritismo. São amparados hoje por uma intérprete espírita que os leva a palestras, e leem alguns artigos espíritas em Braile que são enviados por um grupo espírita do Rio de Janeiro.

Eu agradeço imensamente a oportunidade de expor alguma coisa sobre o assunto, e espero que novos horizontes surjam também para os surdos, que novos estudos sejam propostos e que grupos especiais possam ser fundados para que possam desfrutar, assim como todos nós desta maravilhosa doutrina que nos beneficia com o seu mais precioso conceito de “fé inabalável que pode encarar a razão face a face”.

FALE COM A SONIA: soregnasc@gmail.com

Fala MEU! Edição 66, ano 2008
Palavras Relacionadas

Comentar

Clique aqui para comentar