Reforma Íntima

Um outro interior

Autor: Rafael Teixeira

Pense. Pode ter certeza que isso é o que você faz de melhor. Você é uma máquina de pensar! Sempre você pensa, mas principalmente quando está sozinho você tem a companhia de seu pensamento bastante presente. Quando está ao seu lado o seu pensamento te proporciona planejamentos, lembranças e devaneios. Enquanto as lembranças são importantes para te tornar o que você é agora e os planejamentos para o que você vai ser, os devaneios são bem divertidos ou prazerosos e falam algo sobre seus interesses. Esses três são o que te dão toda a profundidade do seu ser, do seu eu, sob a forma do seu pensamento. E você é bem profundo. Isso te é bem nítido. O que na maioria das vezes não é tão nítido é que o outro também é profundo, que todos ao seu redor também trazem lembranças, planejamentos e devaneios em suas cabeças. O ser humano tem tendência de ver nos outros apenas seus corpos e a forma como se relacionam com seu eu profundo. Esquece o que o outro pode trazer no passado ou se tornar no futuro. Nós não enxergamos pensamentos.

Certa vez estava tendo um ótimo dia e sabia que ele ia melhorar porque estava indo pra casa da minha namorada. No caminho vi o cão de um mendigo sendo atropelado. Ele correu desesperado para socorrê-lo, mas a morte era certa. Causou-me muita estranheza pensar que este podia ser um dos melhores dias da minha vida e um dos piores dias da vida daquele homem que tanto já sofria. Como pelas regras do universo isso era possível?

No outro dia, no evento da Virada Cultural, passando pela estação Luz, tinha um piano que estava lá à disposição de quem quisesse tocar. Eu interessado, passei por lá mais tarde presenciei algo surpreendente. Um rapaz da minha idade, vestido como um morador de rua, negro, sujo, estava tocando o piano maravilhosamente! Tocava uma música instrumental bem diferente de qualquer outra que eu já tinha visto. Apesar de não ser nenhuma obra prima de um mestre era uma música bonita e não muito simples. Eu pensei em quantas vezes eu não teria passado por aquele rapaz nas ruas do centro de São Paulo e pensado preconceituosamente que era um pobre infeliz, sem talento, sem passado e sem futuro. Mas naquele dia ele me mostrou que também tinha profundidade. Ele mostrou para todo o público que se juntou em volta assistindo.

Nós estamos mais predispostos a julgar preconceituosamente e retirar, em nossas mentes, a profundidade dos outros quando estamos dentro de uma doutrina ou um padrão de pensamento ou ideologia. Assim, um espírita, por exemplo, tem muitas chances de retirar a profundidade de outro o julgando como um “espírito inferior” ou um “espírito superior”, enquanto um esquerdista o faz separando o mundo em “burgueses” e “proletários”, esquecendo que o outro é muito mais que isso. Nesse sentido não faz diferença você julgar preconceituosamente pelos “padrões espíritas” ou pelos padrões nazistas, pois você esta anulando a profundidade do outro da mesma forma.

Agora olhe a sua volta. Alguma coisa mudou? Deveria ter mudado?

Fala MEU! Edição 76, ano 2009
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