Entrevistas

Um “papinho” com Heloísa Pires: história e conhecimento

Autor: Rodrigo Prado e Marçal Pop

Gravador digital na mão, um carro em trânsito e um papo maravilhoso.

Desde quando a Srª é espírita?

Já no útero da minha mãe. Minha mãe e meu pai se conheceram na Mocidade Espírita, minha mãe pela Mocidade de Ipaussu e meu pai de Avaré. Ele fazendo palestra, ela recitando poesia e fazendo bolo para um encontro de juventude.

Nossa, não sabíamos que o Herculano já era de mocidade…

Sim, sim, ele virou espírita com 19 anos.

A senhora então teve uma participação bem efetiva…

Nossa, quando eles casaram, tinha um aviãozinho teco-teco disponível. E quando tinha uma palestra lá pelos arredores íamos de aviãozinho teco-teco, ou de trem mesmo… Eu cresci e, meu avô, o pai da minha mãe, já era espírita “mesmo”. Então a família já era espírita. São muitas gerações.

E o que a Srª podeira comentar pra nós sobre como era antes? Tinha mocidade, juventude? Como era antigamente?

Tinha mocidade e também a parte dos idosos. E quando eu era criança, as minhas tias, porque minha avó morreu, foram morar com minha mãe. As tias e os tios. Eram seis tios e todos eram espíritas e participavam da mocidade. E nós crianças entrávamos de bicão. Íamos juntos. E naquele tempo participávamos de piquenique, se fazia muito encontro de jovens para palestras, conversas, encontros culturais. E eu e meus irmãos estávamos lá no meio como se fôssemos jovens. Tinha muita gente que participava e, até hoje, encontramos jovens daquela época e que são tudo idosos.

Em que ano aconteceu tudo isso?

Lá pelos anos 50. Na década de 60 meus filhos já estavam nascendo e aí já havia parado. Participamos da evangelização e da juventude. E continuamos participando dos vários “comedores”. Respeitando o ciclo natural da vida. (risos)

Como é que a srª consegue comentar para nós sobre a importância desta participação do movimento espírita jovem?

Olha, até um ano é quando a criança tem um desenvolvimento maior. Então eu considero muito importante eu já participar desde o útero da minha mãe.. Até os sete anos os neurologistas dizem que a criança tem a janela da oportunidade, ou seja, células especializadas para captar os conceitos do mundo e gravam. Depois estas células morrem, mas o aprendido ficou na memória. Se elas não são aproveitadas, elas implodem sem deixar rastros e se perdeu aí um tempo precioso. Que, graças aos meus, pais foram aproveitadas na medida do possível.

E isto influência na formação moral…?

Ah, facilita. Facilita né? Você já cresce acreditando numa fé muito intensa naquilo que foi aprendido nesta fase da vida. Daí a importância da evangelização na Casa Espírita, no ensinar na infância e do Evangelho no Lar, que fazíamos religiosamente em casa.

A Srª encontrou muitas dificuldades em relacionar os conhecimentos espíritas com a vida social?

Pelo contrário, tanto com a vida social quanto com a vida de estudos. Eu sempre achei uma facilidade imensa. E vejo que a ciência nada mais faz que se desenvolver para o espiritismo, para a ciência espírita. Já chegamos a ter o perispírito na parapsicologia, já chegamos à dilatação da consciência com vários cientistas e, em breve, ciência, filosofia, religião e ciência espírita serão uma só coisa.

Hoje encontramos na juventude, principalmente por parte do jovem, algumas dificuldades em conciliar alguns valores apontados socialmente como valores que são apresentados dentro da doutrina espírita. Que comentários que a srª acha que poderíamos tecer…?

Eu acho que é uma tarefa importante do jovem ajudar na transcendência. Eu lembro que quando era mais jovem, algumas colegas gostavam de partir para uma conversa menos proveitosa. E às vezes eu chamava a atenção mesmo. “Ô gente vamos melhorar este astral, vamos falar sobre flores, vamos largar o esterco lá fora”. Então faz parte, tive grandes amigos e raros me olharam de lado e implicavam comigo. Tive grandes amigas nas várias escolas que lecionei, na AACD onde trabalhei e, agora, depois de idosa, estou completando meu estudo sobre Psicopedagogia. Comecei o curso e acabo ano que vem. E toda classe é jovem. A mais idosa e única idosa sou eu, mas comigo elas conversam, somos amigas e são todas jovens tão maravilhosas. Também a maioria está em um sentido de evolução, de crescimento, não vejo dificuldade, basta despertar a luz interior que cada um tem e esquecer as sombras. E escolher também as melhores amizades. Não vá procurar os “sombriozinhos” que, como nós já temos nossas escuridões interiores, daí complica. Aumenta muito e fica tudo muito escuro.

Qual a diferença entre educação e conhecimento?

Educação é desenvolvimento de potencialidade. Kant dizia “perceptibilidade” de luzes interiores. Informação faz parte, mas é apenas informação que enriquece o indivíduo, na contenção dos conceitos. Mas a educação exige amor, fraternidade, solidariedade e capacidade de perdão. Um individuo educado, o exemplo maior é Jesus de Nazaré. Inteligências primorosas nós temos das quais faltem educação: os inventores da bomba atômica, esses que trabalham nos primeiros mundos para exterminar as pessoas, os corruptos da nossa sociedade com doutoramento e diploma. Então educação exige conhecimento, porém conhecimento sem educação apresenta um individuo mal educado, necessitado e imaturo. Às vezes pode ser um profissional, um corrupto e, outras vezes, um traficante ou um drogado.

Hoje percebemos a busca incessante do conhecimento. Este conhecimento tem que ser complementado então pela educação?

Tem que ser. Van Gogh mostrou como só a genialidade não basta. Precisa do desenvolvimento moral e o controle das emoções. E nós vemos indivíduos inteligentíssimos que se suicidam – Fernando Pessoa – ou que permanecem inúteis mergulhados em problemas vários, como depressões. É necessário educar no sentido de desenvolver o nosso potencial interior.

A srª poderia fazer algum apontamento sobre o papel da juventude neste processo de transformação moral?

Meu Deus! A transformação depende da juventude. Os idosos, mal ou bem, realizaram sua tarefa. Trazem suas experiências e estão se preparando para a grande retirada, para se preparar para uma volta. E dependemos dos jovens para divulgação desta verdade libertadora. O jovem tem mais entusiasmo, mais energia, mais força interior e, de mãos dadas com o idoso, que é menos impulsivo, conseguirão a grande mudança, a grande transformação.

É um papel aí de integração também.

É integração, claro! Precisam caminhar de mãos dadas: crianças, jovens e idosos, e homens maduros.

Para encerrar, a srª, gostaria de fazer algum apontamento? Aproveitando o boletim que abraça pelo menos 2000 mil jovens da capital, arredores e outros estados inclusive!?

É muito importante entendermos o espiritismo, como também explicava José Herculano Pires, como síntese do processo do conhecimento. Filosoficamente falando, o mestre em filosofia pela USP José Herculano Pires dizia que o espiritismo é, por isso mesmo, ciência, filosofia e religião. Religião no sentido de religar às luzes. Filosofia no sentido de trazer uma nova concepção de vida. E ciência na pesquisa de todos os fenômenos paranormais e fenômenos mediúnicos. Síntese do processo de conhecimento traz em si o rebuscado das experiências do homem nestes três caminhos, que se unem para arrancarmos do barro da terra e projetarmos na compreensão daquele mundo apresentado por Kaplan, no hall da física, onde as moléculas brilhantes falavam de uma nova concepção de vida que nós ainda não enxergamos, não compreendemos, mas que é aprendida através do estudo, compreensão e prática dos livros básicos de Kardec. Ou seja, conhecer e praticar, o que exige a caridade. Caridade assistencial da Casa Espírita e caridade da divulgação na casa em que freqüenta. Estudar Kardec, compreender Kardec e praticar Kardec, que é apenas a verdade.

Heloísa, muito obrigado pela contribuição…

Imagina, nós somos todos ainda pequenos. Mas unidos, nos tornamos grandes. Eu digo que somos como a célula, neurônios do cérebro: isolados de nada valem, mas quando se unem com o objetivo único de aprender, se ascendem e provocam o mundo. Então, aquele que se julga importante é tolo, é um neurônio apagado, mas unidos conseguimos ajudar a Terra e a nós mesmos.

Fala MEU! Edição 50, ano 2007