Autor: André de Sena
Pilatos perguntou-lhe:
Lucas 23:3
Tu és o rei dos judeus?
Ao longo dos séculos, inúmeros governantes usaram o símbolo sagrado da Cruz para justificar sua autoridade. Antigos imperadores e reis apegavam-se a um suposto direito divino, enquanto chefes de estado da atualidade se apropriam das palavras do Evangelho para fazer campanha política. No entanto, raramente líderes souberam adotar uma postura justa e misericordiosa, reta e benevolente, pois poucos deles conseguiram converter palavras eloquentes em ações.
Até os dias atuais, nas quatro direções da rosa dos ventos, há nações onde a iniquidade impera. Fanáticos acirram rivalidades baseadas no preconceito e no ódio, jovens são arrastados ao abismo da delinquência e da sensualidade fútil, as classes abastadas rendem culto ao egoísmo e à vaidade, aqueles que têm consciência do dever carecem de ímpeto para cumprir suas tarefas. Mesmo nós espíritas, que possuímos a chave para interpretar as revelações, quantas vezes não caímos nas armadilhas da vida terrena, para depois voltarmos envergonhados aos braços amorosos do Criador? Devido a nossa própria imprevidência, quantas provas ainda não precisaremos repetir? Por quantas expiações ainda não teremos que passar? O que seria de nós sem a piedade de Deus? Pois foi essa piedade que enviou até nós o Messias, o Rei no qual, não apenas os líderes, mas toda a humanidade deve espelhar-se.
Para entender a realeza do Cristo, é necessário recorrer à teoria de Erasmo de Roterdão, célebre humanista renascentista nascido nos Países Baixos em 1466. O pensador é citado na obra “A Caminho da Luz” por Emmanuel, que o classifica como um dos missionários encarnados “com o objetivo de levar a efeito a renascença da religião, de maneira a regenerar os seus relaxados centros de força.” Em seu livro “A Educação de um Príncipe Cristão”, Erasmo divide a nobreza em três categorias:
“Como, entretanto, existem três tipos de nobreza – a primeira derivada da virtude e das boas ações, a segunda proveniente de se ter recebido o melhor treinamento, e a terceira conforme julgada a partir dos retratos dos ancestrais e das árvores genealógicas ou da riqueza – considerai quão inadequado é para um príncipe orgulhar-se deste terceiro e mais baixo tipo de nobreza, tão baixo que não é tipo algum a menos que tenha se originado da virtude, em detrimento daquele tipo mais elevado, tão mais elevado que somente ele pode, estritamente falando, ser realmente considerado como nobreza.”
Segundo a tradição do Novo Testamento, Jesus descendia de Davi. Portanto, detinha esse terceiro tipo de nobreza, o mais baixo. Por ter cumprido os ciclos reencarnatórios, não necessitando voltar ao plano material para continuar a aperfeiçoar o intelecto, conclui-se que também possuía o segundo tipo. No entanto, o que realmente importa é que o Mestre tinha a nobreza mais elevada, do primeiro tipo, a única que, no sentido estrito, deve ser considerada como tal. Sua magnanimidade só poderia vir acompanhada de amor, humildade, caridade, renúncia, coragem, enfim, todas as qualidades morais exaltadas por Erasmo e tantos outros homens de bom senso. São essas características que levaram Isaías a descrevê-lo como o “Príncipe da Paz” em suas profecias:
“Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado, e o governo estará sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Da grandeza do seu governo e da paz não haverá fim. Ele reinará no trono de Davi e sobre o seu reino, estabelecendo-o e sustentando-o com justiça e retidão, desde agora e para sempre”. Isaías 9:6, 7
Para terminar, que Jesus nos abençoe! Que nós possamos nos perdoar pelos erros dessa e das encarnações anteriores. Que nossos corações se encham cada vez mais com a paz do Cristo, fazendo o bem a todos, mesmo àqueles que são diferentes de nós. Graças a Deus.
Deixo aqui um poema em versos livres (com rimas, mas sem métrica) que fala sobre a realeza de Jesus:
O Príncipe da Paz
Ressoam as trombetas dos exércitos celestes
Que anunciam a vinda do Príncipe da Paz
Espadas reluzentes e cândidas as vestes
Da hoste tão portentosa e vivaz
*
Exaltados os humildes, derrotados os tiranos
Homens vis, cometedores de vendetas
Juízes de iniquidade, pseudo-soberanos
Prostar-se-ão perante a força das estrelas
*
O Nazareno vem para cumprir as profecias
E guiar a Terra ao seu destino
Colher do Evangelho as doces primícias
Pois o agir benevolente é feitio do destemido
*
Coros angelicais pelos séculos ressoam
Cantando as glórias da senda redentora
Em meio aos ímpios que o egoísmo apregoam
Que a Cruz do Cristo seja sempre nossa escolha




