A rosa branca

Autora: Teresinha Olivier

Todos os dias, ela entrava no hospital com o coração apertado. Há quatro meses visitava o marido, que permanecia em coma. Segundo os médicos, seu estado era extremamente crítico, porque no acidente de carro, o cérebro fora muito danificado e se ele sobrevivesse, o que não era provável, não poderia mais ter uma vida normal. Não teria mais condições de falar, de andar, nem de reconhecer as pessoas.

Nos primeiros dias após o acidente, ela foi tomada pelo desespero. Não podia se conformar com a ideia. Mas, à medida que os dias foram passando, o desespero foi se transformando em abatimento, desânimo, tristeza. Sentia como se sua vida não tivesse mais sentido.

Todos os dias, ela sentava-se ao lado da cama, segurava sua mão e a beijava com um carinho profundo, contemplando seu belo rosto que ia se definhando a cada dia.

Sentia tanta falta do seu abraço forte, do calor do seu corpo, do seu cheiro, do seu jeito de acalmá-la, dizendo que cada vez que ficava nervosa, uma nova ruga nascia em seu rosto, fazendo-a rir.

Estavam casados há quinze anos e tinham dois filhos, amavam-se muito e viviam bem. As brigas, sempre acabavam em reconciliações amorosas. Ele era alegre, afetuoso, gostava de brincar e jogar com as crianças e passear com a família.

Sentia-se tão segura quando estava ao seu lado! O que faria agora, com duas crianças para criar sozinha? Não tinha medo de voltar a trabalhar, mas ficava angustiada só de pensar em viver sem ele. E chorava muito.

Algumas vezes, andando pelos corredores do hospital, ela via uma senhora de meia idade, de aparência muito agradável, simpática, que fazia questão de cumprimentá-la.

– Ela também deve ter algum parente internado aqui há algum tempo – pensava.

Num desses dias, estava na lanchonete do hospital tomando um café, viu aquela senhora sentada em uma mesa próxima, sorrindo para ela. Retribuiu o sorriso, meio sem jeito, abaixou a cabeça e continuou tomando o seu café.

A cena repetiu-se algumas vezes. A mulher insistia em demonstrar simpatia por ela. Talvez quisesse conversar, mas ela não estava disposta a fazer amizade com ninguém.

Numa dessas ocasiões, estava pensativa, tomando seu café, quando ouviu uma voz ao seu lado:

– Boa tarde! Posso me sentar com você?

Ela levantou os olhos e a viu de pé, com um largo sorriso que tornava impossível uma negativa.

– É claro que sim.

Sentou-se, colocou sua xícara de café na mesa e foi dizendo:

– Tenho visto você por aqui há algum tempo.

– É verdade. Tenho vindo visitar meu marido.

– Desculpe perguntar, mas o estado dele é muito grave?

Ela abaixou a cabeça. Não estava com nenhuma vontade de conversar sobre sua dor com uma estranha, mas não tinha como escapar daquele olhar.

– É sim, muito grave.

– Eu sinto muito. Eu sei como é difícil uma situação como essa.

– A senhora tem alguém internado também?

– Tenho sim. É meu marido. Você vê? Estamos no mesmo barco.

– E é grave?

– Muito grave. É câncer terminal. Eu também venho todas as tardes, leio para ele, conversamos bastante.

– A senhora ainda tem esse consolo de poder conversar com seu marido. O meu está em coma e eu nunca mais terei essa chance.

Ficaram algum tempo ali, conversando. Depois desse dia, passaram a se encontrar na lanchonete do hospital e, como velhas amigas, sentavam-se à mesa e conversavam bastante. Ela fez algumas visitas ao simpático marido de sua nova amiga e esta, por sua vez, também visitou o quarto do seu companheiro. Nessas visitas, a senhora ficava alguns minutos em silêncio, como se estivesse em prece.

– Você acredita em Espíritos? – Perguntou-lhe a senhora um dia, repentinamente.

Ela olhou-a espantada com a pergunta inusitada e demorou para responder alguma coisa.

– Desculpe-me o mau jeito. Eu devia ter um pouco mais de tato.

– Não foi nada, mas é que eu fiquei surpresa. A senhora me pegou desprevenida. Eu nunca pensei muito nessas coisas. Para ser sincera, eu não acredito em Espíritos, não.

– Ah! Que pena! Eu gostaria muito de falar uma coisa para você.

– O que a senhora gostaria de me dizer? – Perguntou com receio com o que ouviria.

– É que eu sou médium vidente. Eu vejo os Espíritos, e vi seu marido e ele quer que você saiba que ele está bem.

Ficou olhando para aquela mulher que até já aprendera a estimar, mas depois desse comentário pensou que todos esses dias estivera fazendo amizade com uma louca.

– Eu sei que parece muito estranho para você que não acredita, mas posso garantir que eu o vi, que ele está bem e fica ao seu lado quando você o visita.

– Como a senhora pode fazer isso comigo? Não está vendo a minha dor? Meu marido está morrendo, está em coma profundo, nunca mais vai acordar e a senhora vem com essas fantasias? A senhora não tem o direito de brincar com a minha dor.

– Eu não estou brincando! Pelo contrário, estou falando com toda a sinceridade e honestidade. Eu o vi algumas vezes e ele demonstrou o desejo de que você soubesse que ele está bem.

Ela fitou com indignação aquela senhora de cabelos grisalhos, empurrou com força a cadeira em que estava sentada, levantou-se e saiu.

Depois desse dia passou a evitá-la. Ia à lanchonete em horários diferentes e quando a avistava nos corredores do hospital, mudava de direção.

Numa tarde fria e chuvosa, que parecia que refletia a tristeza que pesava em seu coração, saiu de casa para a visita costumeira ao seu querido esposo, carregando um sofrimento ainda maior. Aquele era o dia do aniversário de casamento e as lembranças doíam muito. Em cada aniversário deles, ele chegava em casa com um grande buquê de rosas brancas, que ele sabia que eram as suas preferidas. À noite jantavam fora e iam ao cinema. Era uma data especial e feliz.

Entrou no quarto, sentou-se ao lado da cama, beijou a mão do seu amado companheiro e deixou que as lágrimas corressem à vontade pela sua face.

– Hoje é o nosso dia, meu amor. – Conseguiu dizer com a voz estremecida pelo pranto.

Naquela tarde, ficou um tempo maior com ele, deixando que as recordações felizes fruíssem pela sua mente já cansada de sofrer. Recordou cada momento de felicidade que usufruíram juntos como se com isso, estivesse de alguma forma revivendo aquilo que nunca mais iria ter. Como se fosse uma despedida.

Já estava começando a escurecer quando se levantou, beijou-o na testa e dirigiu-se à lanchonete. Precisava de um café forte para tirá-la do torpor em que se encontrava, antes de voltar para casa.

Com a xícara na mão, procurou uma mesa isolada. Não queria ver ninguém. Não sentia vontade de conversar com ninguém, queria apenas curtir a sua dor.

Já estava há alguns minutos na mesma posição, xícara na mão, olhar perdido, quando sentiu que alguém parou ao lado de sua mesa. Mesmo sem olhar, percebeu que era ela. Seu coração disparou de indignação. Nesse dia não permitiria que ela invadisse sua vida, mesmo que para isso tivesse que ser agressiva.

Ficou imóvel, sem levantar a cabeça com a esperança que ela desistisse. Mas, para sua surpresa, viu que ela colocava delicadamente uma rosa branca na mesa.

Ficou olhando para aquela rosa com a respiração suspensa. A mulher sentou-se, segurou a sua mão sem que ela resistisse, e disse, colocando nas palavras toda a doçura que somente uma pessoa muito amorosa pode ter:

– Minha filha. Seu amado esposo pediu-me que eu lhe desse hoje uma rosa branca. Não me explicou o porquê, mas disse que você entenderia. Por isso, fui comprá-la, e aqui está. Espero que lhe traga algum consolo.

Dizendo isso, foi se levantando devagar para sair, mas ela segurou a sua mão e suplicou:

– Por favor, fique.

Segurando a rosa, com os olhos cheios de lágrimas, perguntou:

– Como pode ser isso? A senhora pode me explicar o que está acontecendo?

– O que acontece, minha querida, é que seu marido não está preso naquele corpo doente. Ele, assim como todos nós, é um Espírito imortal que utilizou por algum tempo um corpo e logo não precisará mais dele, porém, continuará vivo e amando a você e aos seus filhos. Ele quer que você tenha certeza disso para continuar sua vida com alegria e esperança. Afinal, você tem uma grande tarefa junto aos seus filhos, não é verdade?

A partir desse dia, ela continuou a fazer as suas visitas, mas quando olhava para aquele corpo meio morto, já não o identificava mais com o seu amor. Sentia no seu íntimo que ele estava ao seu lado, dando-lhe forças e coragem para continuar.

Assim, quando chegou o dia em que os médicos o deram como morto, ela agiu com serenidade.

Afinal, a vida continuava, tanto para ela como para ele.

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