A visita

Autora: Teresinha Olivier

Ele acordou no meio da noite com o pijama ensopado de suor e o coração disparado.

Sentou-se na cama, tentando lembrar-se dos detalhes do sonho. Não se recordava de ter tido um sonho que o tivesse impressionado tanto. A sensação do medo que sentira ainda fazia seu coração bater mais fortemente.

Olhou para sua esposa que dormia tranquilamente. Queria falar com ela, mas não quis acordá-la no meio da noite. Foi até à cozinha, tomou um copo d’água. Sentou-se à mesa e ficou relembrando o sonho, passo a passo. Estranho como tudo lhe parecia tão real.

Estava caminhando por uma alameda com árvores frondosas de ambos os lados, cujos galhos entrelaçavam-se nas copas, fechando quase que totalmente a visão do céu. Apenas alguns focos do luar coavam-se por entre as folhagens e podiam ser vistos no chão de terra batida.

Chegou à frente de um casarão antigo, com uma varanda que dava para a entrada principal. A antiga moradia estava às escuras. Subiu os degraus e, sem nenhuma dificuldade, penetrou numa espaçosa sala onde, apesar da escuridão, conseguia ver uma mesa comprida de madeira escura, com muitas cadeiras de encosto alto em volta. Os outros móveis que compunham aquela sala também eram escuros e de estilo pesado. As portas que davam acesso aos outros cômodos eram altas e duplas, pintadas de azul. A sala tinha janelas também muito altas com cortinas de tecido pesado. Sobre a mesa, uma toalha branca rendada e um grande vaso de flores.

Lembrou-se que no sonho, deixou-se ficar naquele ambiente, observando os detalhes.

Ao lado, viu um longo corredor com várias portas iguais às outras, e imaginou que fossem dos quartos. Aquele ambiente lhe dava arrepios, lhe parecia sinistro, mas algo o empurrava para o seu interior.

Quando fez menção de dirigir-se para o corredor, ouviu um ranger no assoalho, como se alguém estivesse andando em um dos quartos.

Sentiu medo, sem saber bem o motivo. Parou e ficou esperando. O barulho dos passos foi interrompido. Sentiu um impulso de se voltar e sair correndo daquela casa estranha, mas não conseguia mover-se.

Novamente o barulho dos passos e uma das portas se abriu. Ele ficou petrificado. De lá saiu um vulto que veio em sua direção. Era uma jovem com roupas brancas e longos cabelos negros. Parecia que ela não o estava vendo. Passou por ele suavemente e, de repente, parou. Voltou-se e olhou para ele. Seus olhos fixaram os dele. Ele continuava parado, não conseguia se mexer ou falar alguma coisa.

Ela também ficou ali parada, fixando-o com um olhar, que para ele, parecia estranho e amedrontador.

Não sabe precisar por quanto tempo ficou naquela situação, numa espécie de paralisia. Seu corpo não obedecia a sua vontade.

Ela fez um gesto com os braços, como se fosse falar alguma coisa e ele, de repente, começou a correr. Saiu do casarão e correu pela alameda desesperadamente.

Foi quando acordou, suado e assustado, sentindo um grande alívio por estar em sua casa, em sua cama, ao lado de sua esposa.

Na manhã seguinte, tomando o café com a companheira, contou-lhe o sonho, não se esquecendo de nenhum detalhe.

– Tenho a nítida impressão de ter visto um fantasma num casarão mal-assombrado. O interessante é que não parece sonho, que foi uma experiência bem real. Ainda sinto a sensação do medo que me envolveu. Fico arrepiado só de me lembrar!

– É claro que foi um sonho, meu bem. Deve ter sido um daqueles pesadelos que todo mundo tem de vez em quando. Acho que você comeu demais ontem à noite.

– É, deve ter sido isso.

Durante alguns dias, ele ainda se lembrava do sonho de vez em quando e de todas as sensações que o impressionaram tanto. Com o decorrer do tempo e com as ocupações diárias, o fato foi caindo no esquecimento, até não pensar mais no assunto.

Alguns meses depois desse episódio, recebeu uma carta de um tio, irmão de seu pai, que ele não conhecia. Lembrava-se de que, quando era criança, seus pais faziam discretos comentários sobre esse personagem, mas nunca falaram claramente dele.

Curioso, abriu a carta e leu:

“Prezado sobrinho. Sei que vai achar estranho eu lhe escrever, após tantos anos de silêncio.

Seu pai, meu irmão, teve muita razão em se afastar e guardar mágoa de mim. Eu fiz muito mal a ele.

Porém hoje, sou espírita convicto e tenho consciência dos meus erros. Estou velho e doente e gostaria de vê-lo e abraçá-lo, já que não posso fazer isso com meu irmão que se encontra no mundo espiritual.

Sei que ele, que sempre foi um bom homem, já me perdoou, porém, a minha consciência não me dá tréguas.

Por favor, venha visitar-me. É o desejo de quem não tem muito tempo e anseia, de alguma forma, aliviar a consciência culpada por tantos desvios na vida. Um abraço do seu tio.”

Leu e releu aquela carta. Comentou com a esposa que não sabia se ia ou não fazer aquela visita, que lhe parecia sem sentido.

– Eu não conheço esse tio! E afinal de contas, ele deve ter feito algo muito grave para o meu pai. O que eu vou fazer lá? O que vou falar para ele?

– Eu acho que devemos ir, querido. Como ele próprio diz na carta, está velho e doente, e não tem muito tempo de vida. Numa situação como essa, temos que deixar o passado de lado.

– Mas, e essa conversa dele de se converter ao Espiritismo? O que me interessa? Eu não acredito em nada disso!

– Eu sei, meu bem! Eu também não entendo nada desse assunto. Mas isso não tem nada a ver com a sua visita. É uma questão de atender a um moribundo!

Resolveram fazer a visita àquele tio desconhecido.

Foram de carro, pois não era muito longe. Poderiam ir e voltar no mesmo dia.

À medida que se aproximavam do local, ele ia sentindo um aperto no coração. Uma sensação estranha que não sabia explicar.

Ficou realmente assustado quando entraram em uma alameda idêntica àquela do sonho, com a única diferença de que eram os raios solares que atravessavam a folhagem das árvores, e não a luz do luar.

No seu íntimo já sabia o que viria após a alameda e, de fato, lá estava ele, o velho casarão com o seu ar sinistro que o havia impressionado tanto. Subiu os degraus da varanda já conhecida, com o coração batendo desabaladamente.

– Tudo bem, querido? Você está tão calado…

– Está tudo bem. Não se preocupe. – Disse mecanicamente. Não queria falar. Não sabia o que falar.

Antes de baterem, a porta se abriu e uma mulher madura e simpática os recebeu.

– Sejam bem-vindos! Você deve ser meu primo. Muito prazer! Meu nome é Ester. Estávamos esperando ansiosamente por vocês.

Depois dos cumprimentos, a mulher pediu que entrassem e aguardassem um pouco na sala, que ele reconheceu de imediato. Os móveis, as janelas, as portas, a disposição das peças, tudo igual.

O que estaria acontecendo? O que seria tudo aquilo? Sua mente estava conturbada. Não conseguia raciocinar direito.

Sua esposa o observava com o canto dos olhos, preocupada. Percebia que ele não estava bem.

A mulher voltou e pediu que a acompanhassem ao quarto do doente, que era uma das portas daquele corredor.

 Entraram no quarto e na cama estava um homem bastante idoso, recostado nos travesseiros. Ao seu lado um senhor grisalho.

– Que bom que vocês vieram! – Disse o velho – Estava ansioso para conhecê-lo, meu sobrinho. Vamos, dê-me um abraço.

Ele, muito sem jeito, inclinou-se e abraçou aquele homem, um estranho para ele.

Depois de algumas palavras e demonstrações de alegria do velho doente, ele apresentou o homem que estava ao lado de sua cama.

– Este é o Senhor Mário. Ele é diretor do centro espírita daqui da nossa região e está me dando muita força. Tem me orientado e me ensinado coisas que têm me ajudado a compreender e aceitar a minha situação.

Nisso, a porta do quarto se abriu e entrou uma jovem.

– Oi, vô! Está melhor? – Disse, beijando carinhosamente o doente.

Os olhos do velho se iluminaram. Seu rosto abriu-se num grande sorriso.

– Esta é minha querida neta Letícia. Letícia, este é o sobrinho que eu queria tanto conhecer e esta é a sua esposa.

O que ocorreu então surpreendeu a todos. Ele, ao ver a jovem, arregalou os olhos e apertou a mão da esposa. A jovem, por sua vez, agarrou o braço da mãe e disse:

– É ele, mamãe! Ele é o Espírito que eu vi naquela noite!

– Espírito? Eu!? – Gaguejou assustado – Eu não sei explicar isso, mas eu sonhei com este lugar e vi essa jovem que me pareceu bastante fantasmagórica!

– Querido, você tem certeza do que está falando? – Perguntou a esposa, assustada.

– É claro que tenho. Eu ainda não fiquei louco. Alguém aqui pode me explicar o que está acontecendo?

– Primeiro conte calmamente para nós o que aconteceu com você. – Disse o tio, procurando tranquilizá-lo – Tenho certeza que encontraremos respostas para tudo isso.

Ele contou, então, o seu sonho de meses atrás, sem omitir nenhum detalhe.

– Esse sonho me assustou muito. Primeiro pelo local desconhecido e que me deu a impressão de sinistro, aterrador. Depois pela visão daquilo que me pareceu um fantasma ou sei lá o que. E tenho certeza absoluta que era esta jovem.

– A minha filha – disse a mulher – contou-me que, numa noite, levantou-se para ir à cozinha tomar água e, ao passar pela sala viu um homem. A princípio ficou sem ação, assustada, mas depois percebeu que era um Espírito, porque ele simplesmente desapareceu.

– E eu também tenho certeza que era o senhor. – Disse categoricamente a jovem.

– Senhor Mário, por favor, poderia explicar para nós o que aconteceu? – Perguntou o velho.

 – O que está me parecendo é que o nosso amigo esteve aqui em desdobramento.

– Mas o que é isso? Desdobramento? Eu nunca ouvi falar disso!

– Desdobramento, meu amigo, – continuou o senhor Mário – é o que fazemos frequentemente quando o nosso corpo está dormindo. Nós, Espíritos que somos, deixamos o corpo em repouso e saímos em busca de experiências no mundo espiritual. É muito comum e natural. Só que, normalmente, não nos lembramos ao acordarmos.

– Mas, então, eu vim mesmo até aqui? Não foi um simples sonho?

– Ficou comprovado que não foi sonho pelo fato de Letícia tê-lo visto e reconhecido com tanta certeza. Como você explica o fato de ter reconhecido tão claramente o local, se nunca esteve aqui antes, fisicamente falando?

– Olha, senhor Mário, eu não sei explicar nada, mas é muito difícil aceitar isso, porque eu nunca acreditei em nada. E outra coisa: qual a finalidade de tudo isso? Para que eu fiz essa visita em Espírito, como o senhor diz, antes de vir aqui hoje?

– Olhe, meu amigo, as razões desses acontecimentos somente com o tempo é que você mesmo irá descobrir. Que existem, existem. Talvez uma delas é para você começar a pensar em assuntos que nunca pensou antes e que são fundamentais para as nossas existências.

As perguntas e as explicações estenderam-se por mais algum tempo. Depois, durante o café oferecido gentilmente pela dona da casa, a conversa estava bem mais amena e agradável. Um clima de amizade e simpatia estabeleceu-se entre todos, que estavam descontraídos e sentiam que nascia naquele momento uma sólida amizade.

– Então, meu sobrinho – disse o tio que não disfarçava a satisfação que sentia com aquela reunião – está mais tranquilo? Esta casa já não mais lhe parece mal-assombrada e a minha neta já não lhe causa nenhum medo, não é verdade?

– É verdade sim, tio. Mas uma coisa está na minha cabeça e está me incomodando um pouco.

Todos ficaram esperando o que ele ia dizer.

– É que eu pensei que a Letícia fosse um fantasma, e na verdade o fantasma era eu!

Todos riram muito da sua ideia. Mas, uma coisa era definitiva: essa reunião marcou o início de uma nova fase de sua vida.

AÇÃO ESPÍRITA NATRANSFORMAÇÃO DO MUNDO

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