Duas riquezas reais

Autor: Andres Gustavo Arruda

O Espírito Pascal, em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI, item IX, esclarece que o homem só possui verdadeiramente o que é de uso da alma, ou seja, a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais, atributos que não lhe podem ser retirados, visto que a evolução espiritual é individual e intransferível, não sendo possível a ninguém adquirir títulos de enobrecimento para repassá-los a outrem.

Dessa forma, “o aperfeiçoamento do Espírito é fruto do seu próprio trabalho. Não podendo, numa só existência corporal, adquirir todas as qualidades morais e intelectuais que o hão de conduzir ao objetivo, ele o alcança por uma sucessão de existências, em cada uma das quais dá alguns passos para frente, no caminho do progresso”.[1]

Tal sucessão de existências ocorre em diversos mundos, “apropriados aos diferentes graus de adiantamento dos Espíritos e onde a existência corporal apresenta condições muito diferentes”.[2]

No caso da Terra, sabemos que ela pertence (ainda) à categoria dos mundos de expiações e provas, razão por que não é de admirar seja nossa existência aqui marcada por vários fatos turbulentos, ou muitas coisas que testam nossa capacidade de resignação, daí dizermos comumente que é preciso ter paciência de Jó para tudo suportar.

A expressão, com efeito, remonta a uma das mais antigas histórias narradas na Bíblia. Jó era o homem mais rico da região em que vivia. Possuía milhares de ovelhas e camelos, centenas de juntas de bois e jumentos, uma imensa propriedade, sete filhos, três filhas e grande quantidade de criados. Era considerado um homem bom, justo e temente a Deus.

A fé de Jó foi severamente testada quando o mal o atingiu de diferentes formas.

Num mesmo dia, sua propriedade foi invadida e saqueada, seus rebanhos foram furtados, seus empregados assassinados e seus filhos e filhas morreram quando a casa desabou sobre eles, em meio a um vento muito forte vindo do deserto.

Jó se entristeceu profundamente, prostrou-se no chão e orou. Não se revoltou. Reconheceu que tudo o que tinha havia sido dado por Deus e que o Senhor achara por bem tirar tudo dele. Dessa forma, afirmou sua fé e mostrou resignação à vontade do Pai. Entretanto, as problemáticas continuaram. Ele teve o corpo coberto de chagas. Era a temida lepra.

Sua esposa, atormentada pela dor, disse que ele deveria amaldiçoar a Deus e morrer. Contudo, Jó permaneceu firme em sua fé. A esposa, revoltada, o abandonou. Sozinho, isolado, Jó foi visitado por três amigos que, em vez de consolá-lo, tentaram convencê-lo de que Deus o estava castigando por seus muitos pecados.

Jó discordou deles, reafirmou sua fé na bondade e justiça divinas e ainda orou ao Senhor para que não punisse seus amigos.

Por sua fé inabalável, por sua paciência em tudo suportar, após algum tempo, o Pai Celeste lhe permitiu a restituição da saúde, curando-o da lepra. Depois, Jó conseguiu reaver, e duplicados, todos os seus bens.

Tornou a se casar e teve dez filhos, concluindo sua vida, anos mais tarde, em felicidade.[3]

Posto isso, cumpre citar o Espírito Emmanuel, para quema verdadeira paciência “é sempre uma exteriorização da alma que realizou muito amor em si mesma, para dá-lo a outrem, na exemplificação.

Esse amor é a expressão fraternal que considera todas as criaturas como irmãs, em quaisquer circunstâncias, sem desdenhar a energia para esclarecer a incompreensão, quando isso se torne indispensável”.[4]

De fato, no momento em que se encontrava sozinho e que foi visitado pelos amigos, que o induziram a crer que estava sendo castigado por Deus, Jó, ao discordar deles, usou de energia para esclarecer a incompreensão.

Além disso, Jó considerava-se usufrutuário dos bens que Deus lhe havia concedido, uma vez que sabia que o que o Criador lhe dera podia lhe retirar.

Usufrutuário é “aquele que tem direito ao usufruto; quem pode usufruir de um bem, móvel ou imóvel, que não lhe pertence”.[5]

No livro Calma, Emmanuel assevera que, diante das Leis da Terra, a propriedade, pertença ao grupo social ou ao indivíduo, é sempre credora de respeito; todavia, ante a Criação Divina, “a ideia do usufruto é grande fator de paciência ao coração”.[6]

Ao nos considerarmos usufrutuários dos bens concedidos pela Divina Providência, teremos condições de atribuir aos esses recursos o seu devido valor e, como Jó, se porventura estivermos desprovidos deles, resignar-nos-emos ante a vontade de Deus, e nos revestiremos de paciência, riqueza real que deveremos nos esforçar por adquirir, a bem de nossa própria evolução.

Cabe ainda mencionar outra riqueza real: a calma.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, item XXIII, o Espírito Fénelon acentua que o homem vive incessantemente em busca da felicidade na Terra, porém ela lhe foge das mãos, visto que felicidade sem mescla não existe neste planeta.

Apesar disso, refere o Espírito sobredito que o homem pode usufruir de relativa felicidade, desde que não a busque nas coisas perecíveis e sujeitas às mesmas vicissitudes inerentes à sua existência na Terra, mas sim, nos gozos imperecíveis da alma, que são os pródromos das alegrias celestes.

Desse modo, prossegue Fénelon aduzindo que o homem, em vez de procurar a paz do coração, única felicidade real neste mundo, ele se mostra ávido de tudo o que o agitará e perturbará, e singularmente acaba criando para si tormentos que cabe a ele mesmo evitar.

Outrossim, questiona o Benfeitor se haverá maiores tormentos do que os que derivam da inveja e do ciúme, asseverando que, para o invejoso e o ciumento, não há repouso, porquanto estão sempre febricitantes.

Por outro lado, porque devemos ter sempre como referência a conduta de Espíritos elevados, com o escopo de haurirmos bons exemplos, calha citar um trecho da questão 967 d’O Livro dos Espíritos: “ 967. Em que consiste  a felicidade dos bons Espíritos? Em conhecer todas as coisas; não ter ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que fazem a infelicidade dos homens. […] Os que são bastante adiantados compreendem a felicidade dos que avançaram mais que eles, e a ela aspiram, mas isso é para eles motivo de emulação e não de inveja. Sabem que deles depende alcançá-la e trabalham com esse fito, mas com a calma da consciência pura […]”.[7]

Os Espíritos Superiores são calmos porque já construíram a serenidade interior, à custa do esforço próprio na busca pela compreensão e pela autocompreensão, que são mantidas “pela tolerância para com os erros alheios e até pela autoaceitação dos nossos próprios erros, de modo a sabermos corrigi-los sem tumulto e perda de tempo”.[8]

Logo, verifica-se que a calma é indissociável da compreensão, de modo que, ao nos compreendermos e compreendermos os outros, conseguiremos nos manter mais proativos do que reativos.

Dessa sorte, nos dias tomentosos, em que tudo parece soçobrar e contrariar nossa vontade, devemos utilizar a riqueza da calma para não nos queixarmos ou agirmos intempestivamente, e, à semelhança de Jó, mantermos fidelidade e irrestrita confiança em Deus.

No entanto, estejamos igualmente atentos à necessidade de não criarmos males para nós próprios, como referido, na certeza de que a muitos tormentos se forra “aquele que sabe contentar-se com o que tem, que nota sem inveja o que não possui, que não procura parecer mais do que é . Esse é sempre rico, porquanto, se olha para baixo de si e não para cima, vê sempre criaturas que têm menos do que ele. É calmo, porque não cria para si necessidades quiméricas. E não será uma felicidade a calma, em meio das tempestades da vida?”. [9]

Embora Fénelon tenha se referido à calma como sendo uma felicidade, inferimos que ela é também uma riqueza real, aquisição do Espírito que já logrou o autocontrole.

Paciência e calma são, portanto, duas riquezas reais que tornam nossa existência mais leve e livre dos tormentos voluntários, até porque há males que são inerentes à existência no corpo de carne e, em decorrência disso, não devemos criar outros além destes.

Referências

[1] KARDEC, Allan. O Espiritismo na sua expressão mais simplese outros opúsculos de Kardec; tradução Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1.ª reimpr. Rio de Janeiro: FEB, 2010. p. 42.

[2] KARDEC, Allan. O Espiritismo na sua expressão mais simples e outros opúsculos de Kardec; tradução Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1.ª reimpr. Rio de Janeiro: FEB, 2010. p. 43.

[3] MOMENTO ESPÍRITA. Paciência de Jó. Disponível em: Momento espírita  Acesso em: 06 abr. 2019.

[4] XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2017 – questão 254, p. 171. 

[5] DICIONÁRIO ONLINE DE PORTUGUÊS. Disponível em: dicionário on-line . Acesso em: 06 abr. 2019.

[6] XAVIER, Francisco Cândido. CalmaDitado pelo Espírito Emmanuel. [s.l.]: Editora GEEM, 1979.p. 20.

[7] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos:Filosofia espiritualista; tradução José Herculano Pires, revista e anotadapelo tradutor para esclarecimento e atualização dos problemas do texto. 67. ed. São Paulo: LAKE, 2010 – questão 967,pp. 322-323, grifei e suprimi.

[8] XAVIER, Francisco Cândido. CalmaDitado pelo Espírito Emmanuel. [s.l.]: Editora GEEM, 1979.p. 11.

[9] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo:com explicações das máximas morais do Cristo em concordância com o Espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida; tradução Guillon Ribeiro da 3. ed. francesa, revista e modificada pelo autor em 1866.129. ed., 1.ª reimpr. Rio de Janeiro: FEB, 2010 – Cap. V, item 23, p. 128, grifei.

O consolador – Especial

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