Leis morais: por que estudá-las? 

Autor: Fernando Hora

No capítulo “Sede Perfeitos”, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec nos esclarece: o “verdadeiro espírita” é reconhecido, primeiramente, por sua transformação moral e, em segundo lugar, pelos esforços que empreende para domar suas más inclinações. Interessante perceber que o pensamento do Codificador não só caracteriza o adepto ideal pela jornada evolutiva que empreende (e não por qualidades adquiridas propriamente), mas também desdobra esse movimento em duas frentes: sendo a transformação moral essencialmente de natureza interior, envolvendo autoanálise e meditação; e os ditos “esforços”, de natureza mais comportamental, que se traduzem em atitudes externas, escolhas, enfim, de natureza predominantemente exterior. 

Tais frentes são tratadas na Parte Terceira de O Livro dos Espíritos – “As Leis Morais”, onde o Codificador inicialmente aborda a dita bússola moral gravada em nossa própria consciência – a Lei Natural – e segue explorando os diversos aspectos da vida humana à luz dessa Lei. Forma-se ali um verdadeiro “manual de boas práticas”, devidamente endossado pelos Benfeitores dentro do entendimento no qual a Lei Divina deve abraçar todas as circunstâncias da nossa existência. Torna-se o guia indispensável para o nosso esforço diário de conter as más tendências, sempre com base na última lei, a mais importante de todas – a de Justiça, Amor e Caridade – síntese da noção de justiça introduzida por Moisés, ampliada pela lei do amor exemplificada por Jesus, e coroada pela caridade proposta pelo Espiritismo, que nos alerta contra o egoísmo, o exato oposto dessa virtude. Dessa forma, esse “manual” formado pelos capítulos de dois a onze seria o mapa e a bússola para nossos esforços em conter as más inclinações. 

Algo interessante sobre cada um desses aspectos circunstanciais que denominam as leis é que, quando lemos a instrução de Lázaro no capítulo “Amar o Próximo como a Si Mesmo”, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, apontando que o homem inicialmente tem predominância nos instintos (pensa-se imediatamente no homem da pré-história), posteriormente nas sensações e depois nos sentimentos (sendo o amor o mais sublimado deles), percebemos que “reprodução”, “conservação” e “destruição” afinam-se mais com a fase instintiva, ao passo que “sociedade” e “liberdade”, com os sentimentos. Assim, nossas maiores dificuldades acham-se naqueles aspectos mais remotos, cujas respectivas leis tentam nos arrebatar das condutas instintivas para as dos sentimentos, culminando com a do amor. 

Já o décimo segundo capítulo, por ocupar-se das virtudes, vícios, paixões etc., estaria nos auxiliando, segundo nossa tese, na dita “transformação moral”, ou seja, trazendo diretrizes para a nossa reforma íntima – a parte, dizendo o mínimo, mais difícil do processo. Contudo, há algo animador: embora a vivência plena das Leis Morais seja desafiadora, elas não foram criadas para os anjos (que delas não necessitam) e sim para espíritos de terceira ordem (mas perfectíveis); ou seja, sua fiel observância é dificílima, mas não impossível! 

Por que estudá-las, compreendê-las e esforçar-se por observá-las? No mencionado capítulo de O Evangelho Segundo o Espiritismo, logo após apresentar, para nossa desolação, os caracteres do homem de bem, Kardec nos afirma que o Espiritismo bem compreendido e, sobretudo, bem praticado nos conduz àquelas condições, demonstrando haver sinergia entre as duas frentes de batalha que aqui apontamos. O esforço na esfera comportamental nos transforma pouco a pouco, ajudando na reforma íntima e, quanto mais se avança nesta, menor o esforço em cumprir las Leis, que serão observadas mais naturalmente. André Luiz, em seu livro Evolução em Dois Mundos, fala disso quando expõe sua tese sobre o “reflexo condicionado”, que se alinha à orientação que recebemos do Espírito de Verdade: “amai-vos e instruí-vos”. 

Essa magistral sinergia, cuja ressonância converge na perfeição – atendendo à Lei do Progresso, aliás –, é mais uma prova da bondade divina em relação a suas criaturas, cabendo a cada um apenas definir a velocidade desse processo. Talvez por isso, quando o Cristo chegou ao plano material em sua Missão, o anjo tenha anunciado àqueles pastores: “Paz na Terra aos homens de boa vontade”, pois, no final das contas, além da fé, nos basta exatamente isso: boa vontade.

A CARIDADESEGUNDO JESUS

De maneira geral, entende-se a caridade como o ato de auxiliar as pessoas carentes de alimento, de roupas, de medicamentos. Ou seja, a caridade material, aliás, muito necessária no nosso mundo. Muitas pessoas e instituições religiosas, ou mesmo fora das religiões, praticam esse ato de benevolência e realmente aliviam o sofrimento de muitos...

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