Autora: Teresinha Olivier
Ela podia dizer que sua vida era perfeita.
Tinha uma linda casa, sempre muito bem arrumada debaixo dos seus cuidados constantes; filhos saudáveis e inteligentes; seu marido, um empresário de sucesso, sempre atencioso com ela e com os filhos, e ela mesma cuidava da saúde, fazendo natação e dietas, mantendo-se em forma e sempre bem vestida. Não havia nada em sua vida que pudesse anuviar essa perfeição.
Por que então esse sentimento de vazio interior que a estava incomodando há vários dias? Sentia que lhe faltava alguma coisa, mas não sabia o quê. Estava insatisfeita consigo mesma, inquieta, ansiosa, e por mais que procurasse encontrar a causa, não o conseguia.
Não estava enfrentando nenhum tipo de dificuldade, nenhuma preocupação que pudesse considerar como séria. De onde vinha esse sentimento?
Naquele dia estava pior. Procurou disfarçar diante do marido e dos filhos, esforçando-se em sorrir e mostrar despreocupação.
Precisou ir até ao seu médico para exames de rotina, e resolveu ir de metrô devido ao trânsito.
Ao descer em uma estação de grande movimento, em meio a muitas pessoas que desciam com ela, percebeu ao seu lado alguém que a observava insistentemente. Olhou para a pessoa e a achou familiar. Olhou mais atentamente e, surpresa, exclamou:
– Tia Nicinha!!!
Era uma tia que não via há anos. Aliás, as últimas lembranças que tinha dela era do tempo de sua meninice, quando em todos os seus aniversários a tia lhe levava o bolo de coco que tanto gostava.
– Tia Nicinha! – Repetiu – que surpresa. Há quanto tempo!
– Célia…
Ela ficou olhando para a sua tia, achando estranho encontrá-la numa estação de metrô, sozinha, pois tinha idade avançada. Ia falar alguma coisa, quando a senhora disse, olhando fixamente em seus olhos:
– Célia, a Helena espera por você.
Helena era sua prima, filha da tia Nicinha. Brincavam muito quando eram crianças, mas nunca mais se viram.
– A Helena? Mas, por quê? Faz tantos anos que não nos vemos!
– Ela espera por você, Célia – repetiu a mulher, sem desviar o olhar.
Ela ficou parada, olhando para a tia, sem saber bem o que dizer, e quando ia perguntar o porquê daquele aviso, outro trem parou na estação e elas foram envolvidas por uma pequena multidão. Quando as pessoas apressadas se afastaram, ela não viu mais a tia Nicinha. Procurou em todas as direções, porém ela havia simplesmente desaparecido.
Achou tudo muito estranho. Desde a sua adolescência, havia se distanciado da família da tia Nicinha, nem sabia bem o motivo desse afastamento, porque sempre gostou da tia e da prima. Mas, começou a namorar muito cedo com o seu marido, casou-se logo e passou a dedicar-se exclusivamente ao seu lar. Na realidade, desligou-se de vários parentes.
– O que significa esse recado? O que será que a Helena quer comigo? Nem me lembro direito onde elas moram.
Procurou em sua agenda o número de telefone de sua tia, mas não encontrou. Tinha uma vaga lembrança do local onde moravam e pensou:
– Qualquer dia eu vou até lá.
Alguns dias se passaram. Ela, voltada para suas ocupações domésticas, quase não pensava no encontro, mas por vezes a imagem da tia Nicinha vinha em sua mente e suas palavras a perturbavam, principalmente à noite, ao deitar-se, tomavam conta dos seus pensamentos e ela não conseguia dormir.
Numa dessas noites, a lembrança do encontro a perturbou mais ainda, e disse para si mesma:
– Amanhã vou procurar a Helena.
No dia seguinte, depois que o marido e os filhos saíram, pegou o seu carro e, decidida, foi procurar a sua prima. O interessante é que, depois de tantos anos, e pelo fato dela ter praticamente se esquecido daquele local, achou facilmente a casa da sua tia, aquela mesma casa em que havia brincado tanto quando criança.
Estranhou o estado da casa. Sempre fora uma casa humilde, porém, bem cuidada, bem conservada. Sua tia era uma mulher exigente com relação à limpeza e à ordem no lar. Lembrava-se muito bem disso. E agora a casa estava num estado lamentável de deterioração.
– Será que elas ainda moram aqui?
Bateu palmas diante do portão. Uma menina de uns nove anos veio atender.
– Olá! A Helena mora aqui?
– Ela é minha mãe. – Respondeu a menina.
– Será que eu posso falar com ela? Diga a ela que é a prima Célia.
A menina pediu que esperasse um pouco, foi para dentro da casa e voltou em seguida.
– A minha mãe pediu para a senhora entrar.
Dentro da casa a desolação era deprimente. Móveis velhos e gastos, o tapete da sala puído e desbotado, roupas espalhadas, paredes descascadas. Ela não acreditava no que estava vendo.
– Minha mãe está no quarto. Pode entrar. – Disse a menina, apontando uma porta.
Ela entrou e o que viu a deixou com o coração apertado. Sua prima, irreconhecível, extremamente magra e envelhecida, deitada na cama. No canto do quarto, um menino de aproximadamente três anos brincava com alguns brinquedos quebrados.
– Célia! Que surpresa! – Disse a mulher com voz muito fraca.
Ela aproximou-se da cama e, verdadeiramente condoída, abraçou a prima.
– Helena, o que houve? O que aconteceu com você?
– Ah! Célia. Estou muito doente.
E tentando sorrir, disse:
– Você não conhece meus filhos. Esta é Alice. É o meu anjo. Não sei o que seria de mim se não fosse ela. E aquele é o Gustavo, a minha alegria. Não são lindos?
De fato, eram crianças muito bonitas, apesar de estarem quase maltrapilhos e, visivelmente, mal alimentados.
– São sim, Helena. São crianças lindas. Mas fale para mim o que você tem. Está se tratando?
A doente pediu para as crianças saírem um pouco e, com os olhos marejados, começou a falar.
– Célia, eu estou com câncer em estado adiantado. Meu vizinho, com pena de mim, me leva uma vez por mês ao hospital público, mas os médicos não têm muito o que fazer. Me dão alguns medicamentos para a dor, que é muito forte, e me mandam para casa. Eles acham que eu não sei, mas eu entendo muito bem que eles não podem fazer mais nada, que meu estado é muito grave. Mas o que me preocupa são meus filhos, Célia. Fiquei viúva muito cedo, meu marido não me deixou nenhuma pensão. Enquanto eu podia, trabalhava como diarista, mas já há algum tempo que eu estou nesta cama. A Alice, coitadinha, é que faz o que pode em casa, e os vizinhos caridosos é que estão nos alimentando.
Lágrimas abundantes rolavam por sua face.
Célia não sabia o que dizer diante de tanto sofrimento. As crianças retornaram ao quarto ao ouvirem o pranto da mãe e ela reparou o quanto estavam pálidos e tristes. Olhou para sua prima e lembrou-se o quanto era bonita, alegre, sonhadora. Sentiu vontade de chorar também, mas sabia que não estava ali para isso e sim para auxiliar.
– Não se preocupe mais, Helena. Vou cuidar de você e das crianças, fique tranquila.
– Célia, acho que você foi trazida até aqui pelos anjos. Como que depois de tantos anos de distanciamento você vem me visitar, justamente num momento de tanta necessidade?
– Não Helena, não foi nenhum anjo. Eu me encontrei com a tia Nicinha uns dias atrás e ela disse que você estava me esperando. Aliás, eu ia mesmo perguntar por ela. Ela não mora com você?
Célia viu a prima empalidecer ainda mais. Olhando para ela com olhos arregalados, perguntou:
– A minha mãe? Você disse que viu a minha mãe por esses dias?
– Vi sim, Helena. Eu a encontrei no metrô. Estranhei por vê-la sozinha no meio de tanta gente, mas ela me pareceu estar muito bem. Ela insistiu que eu deveria visitar você, mas não disse o motivo.
Helena caiu em prantos. Cobriu o rosto com as mãos e chorou muito, derramando lágrimas abundantes. Célia, assustada e preocupada com as crianças que ficaram aflitas pela mãe, procurou acalmar a doente.
– Calma, Helena. Não se altere tanto. Isso pode prejudicá-la. – Pediu à Alice que fosse pegar um copo d’água para a mãe.
Quando Helena parecia um pouco mais tranquila, Célia lhe perguntou:
– Por que você ficou tão emocionada com o que eu disse? Onde está a tia Nicinha?
Helena segurou a sua mão e olhou fixamente para ela e perguntou, visivelmente emocionada:
– Célia, você tem certeza que falou com a minha mãe?
– Tenho, Helena. Ela falou duas vezes que você estava esperando por mim. Mas, por que esse espanto?
– Quanto tempo faz que esse encontro aconteceu? – Perguntou Helena, apertando a mão da prima.
– Faz mais ou menos vinte dias. Helena, você está me deixando assustada. Aconteceu alguma coisa com a tia Nicinha?
Helena, extremamente emocionada, apertou ainda mais a mão da prima e disse, olhando fixamente para ela:
– Célia, a minha mãe morreu há dois anos.
Célia ficou olhando para a doente, segurando sua mão, sem saber o que dizer, o que pensar e o que fazer. Alguns minutos se passaram sem que ela pudesse ter qualquer reação. Até que, preocupada com Helena, procurou refazer-se do choque para o bem da doente, que estava muito alterada.
– Muito bem Helena. Eu não sei explicar o que aconteceu, mas o que eu sei é que no momento temos que cuidar de você e das crianças. Depois eu penso nessa história toda.
Ela e Alice colocaram algumas roupas numa sacola, pegaram mais alguns pertences, ajudaram Helena a subir no carro e foram para sua casa. Durante o trajeto, preocupada, Helena perguntou:
– Célia, o que seu marido vai falar de tudo isso? E os seus filhos, como vão encarar essa situação?
– Não se preocupe, Helena. Henrique sempre foi muito compreensivo, e tenho certeza que vai dar o seu apoio. Quanto aos meus filhos, terão uma ótima oportunidade de conhecer você e as crianças. Vai dar tudo certo, fique tranquila.
Célia levou Helena a ótimos médicos. Ela foi bem tratada, porém, seu estado era muito grave e alguns meses depois, ela morreu. Porém, morreu tranquila quanto a segurança das crianças, pois Célia comprometeu-se a cuidar deles como seus próprios filhos.
De fato, Célia abraçou o compromisso para o qual foi chamada de forma tão inusitada, com muito amor e dedicação. E sempre se lembrava de sua tia e pensava que, onde quer que ela estivesse, com certeza estaria cuidando de Helena e estaria feliz e tranquila com relação aos netos.


