Autor: André de Sena
Data: 11 de março de 2026
Bom dia. Que todos nós tenhamos um dia abençoado.
Eu agradeço à equipe do trabalho pelo convite para fazer a palestra. Que nós possamos nos inspirar com a história que eu vou contar, a história de Joana d’Arc. Para não perder o fio da meada, eu redigi um texto. Vamos lá.
“Eu te bendigo, ó meu Pai, por teres revelado aos pequeninos o que ocultaste dos sábios.” Essas palavras de Jesus são a chave para compreendermos a missão de Joana d’Arc, para entendermos como, em plena Idade Média, uma jovem camponesa de 17 anos, analfabeta, humilde, desprovida de riquezas ou de títulos de nobreza, comandou um exército e libertou o reino mais populoso da Europa de um dominador estrangeiro.
A história dela é belíssima e cheia de passagens significativas, então vou tentar fazer um resumo.
Joana nasceu em 1412 no vilarejo de Domrémy, no leste da França, numa família de camponeses. Além de seus pais, tinha três irmãos e uma irmã. Eles levavam uma vida simples, mas não eram pobres. Desde pequena, Joana demonstrava ser uma pessoa de muita fé, que tinha compaixão pelos necessitados e era propensa a se sacrificar por causas justas.
O célebre estudioso e médium espírita francês Léon Denis, em seu livro Joana d’Arc Médium, nos conta que frequentemente a jovem prestava socorro a doentes e andarilhos, que ela gostava de rezar, de ouvir os sinos da igreja e de contemplar a natureza.
A garota aproveitava essa vida simples que levava, mas aos 13 anos de idade, veio o prenúncio do destino que a aguardava. Destino esse que, ao meu ver, era ao mesmo tempo uma difícil missão e também uma dolorosa, mas libertadora expiação.
Àquela altura, começou a ter experiências mediúnicas intensas. Vozes do além falavam com ela, incentivando-a a viver sua vida com fé e virtude. Posteriormente, aqueles amigos espirituais revelaram ser São Miguel Arcanjo, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida de Antioquia.
Nós que somos cristãos espíritas do século XXI e não cristãos medievais do século XV, sabemos que, independentemente dos nomes adotados por aqueles amigos espirituais, tratava-se de espíritos de luz, comprometidos com o projeto que Jesus Cristo, na condição de governador espiritual da Terra, tem para o planeta.
Mas vale ressaltar que, embora o mais importante seja a mensagem trazida por esses mentores e não os nomes pelos quais eles se apresentaram, esses nomes estão conectados com a missão que seria desempenhada por Joana. Por exemplo, no Velho Testamento, São Miguel é descrito como o Príncipe das Milícias Celestes. Nas imagens da tradição católica, seguida por Joana naquela encarnação, o arcanjo era retratado como um guerreiro. Esse cenário prenunciava que o destino da jovem estava ligado tanto a batalhas espirituais, contra suas más inclinações, quanto a batalhas físicas, que influenciariam no futuro não apenas da Europa, mas do mundo.
Antes de continuar com a história, é bom dar um contexto do que ocorria na Europa Ocidental na época em que nossa personagem principal viveu. A França e a Inglaterra travavam, desde 1337, a Guerra dos Cem Anos. Foi um conflito complexo, que atravessou várias gerações. Mas, para nós, o importante é saber que o rei inglês estava reivindicando o trono da França e que o nobre francês Carlos VII, o Delfim e herdeiro legítimo, encontrava-se impossibilitado de assumir o controle do reino.
Vou explicar rapidamente o motivo. Na França, era tradição que o rei fosse coroado na catedral da cidade de Reims. Essa tradição, considerada sagrada, remontava ao século V, quando o rei dos francos, povo bárbaro que daria origem à França, se converteu ao cristianismo. Por conta disso, se Carlos não fosse coroado em Reims, a nobreza e a população em geral não o reconheceriam como governante legítimo. Porém a cidade de Reims estava sob domínio dos borgonheses. A Borgonha era uma região da França que tinha se aliado aos ingleses durante a Guerra dos Cem Anos. Por isso, Carlos não havia sido coroado e a Inglaterra estava cada vez mais próxima de vencer a guerra.
Nós espíritas sabemos que a França ainda precisava desempenhar um papel fundamental no processo de evolução da humanidade. Através do Iluminismo, com nomes como Descartes e Montesquieu, a França contribuiu para o desenvolvimento das ciências e o respeito aos direitos humanos. Por meio do Espiritismo, a França trouxe ao mundo as bençãos da Terceira Revelação. Portanto, esse reino não poderia sucumbir perante um dominador estrangeiro. Aí que entra Joana.
Em determinado momento, as vozes dos santos dizem que ela precisava ir ao encontro de Carlos, o Delfim, e auxiliá-lo na luta contra os ingleses para que ele pudesse ser coroado em Reims. A jovem preferia a vida simples que levava no campo, mas se submeteu à vontade de Deus. No entanto, sua própria família não queria que ela partisse rumo ao Castelo de Chinon para tentar falar com o herdeiro legítimo do trono. Muitas pessoas a ridicularizavam, achavam que tinha enlouquecido ou até mesmo que era uma bruxa. Mesmo diante de tanto escárnio, ela empreendeu uma difícil viagem até Chinon e conseguiu uma audiência com Carlos.
Porém o Delfim não acreditava em Joana. Então ele mandou um outro homem se disfarçar de rei e se escondeu no meio dos cortesãos que estavam no salão. Todavia, quando Joana entrou no recinto, se dirigiu imediatamente ao verdadeiro herdeiro do trono. Essa passagem comprova sua mediunidade.
Mesmo depois desse primeiro encontro, a jovem teve que insistir para que o Delfim aceitasse sua ajuda. Após ele se convencer totalmente, tem início uma bem-sucedida campanha militar. A primeira grande vitória foi na Batalha de Orléans. A partir dali Joana passa a ser conhecida também como a Donzela de Orléans.
Em sua posição de liderança, a garota impõe medidas para disciplinar o exército. Ela proibia que os soldados blasfemassem ou proferissem palavras de baixo calão, não permitia que eles levassem prostitutas ao acampamento – o que era comum entre os militares da época -, incentivava que eles se confessassem e fizessem orações antes das batalhas, e não permitia que maltratassem ou saqueassem civis.
Com essa disciplina, o exército francês venceu batalha atrás de batalha e cada vez mais pessoas foram se convencendo de que Joana era uma enviada de Deus. Segundo relatos, durante a contenda, ela montava um cavalo preto e carregava um estandarte branco, com imagens religiosas que remetiam a Jesus Cristo e Maria de Nazaré, além de desenhos da Flor-de-Lis, o símbolo que representava a monarquia francesa. Dessa forma, conseguiu abrir caminho até Reims. Por fim, no domingo de 17 de julho de 1429, Carlos VII é finalmente coroado na catedral da cidade. A missão de Joana d’Arc estava cumprida e a soberania francesa, garantida.
Mesmo assim, a guerra não havia acabado. Então, após acompanhar a solenidade em Reims, a intrépida donzela continua a participar de ações militares. Até que em maio de 1430, ela é capturada pelos borgonheses. A partir daí, começa sua expiação, seu martírio, que lembra em muitos pontos o de Jesus. O rei não tenta resgatá-la. O duque de Borgonha vende a prisioneira para os ingleses por 10 mil francos. Ela é levada para a cidade de Ruão, onde é instalado um Tribunal da Inquisição.
As vozes de São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida não a abandonam. Os guias espirituais incentivam a jovem, que naquela altura já tinha 19 anos, a se resignar heroicamente. Eles chegam até mesmo a inspirá-la durante os longos interrogatórios. Os inquisidores se impressionam com as belas palavras da donzela e percebem que ela era sim uma enviada de Deus. No entanto, apegando-se de forma mesquinha a questões política, condenam injustamente a jovem à fogueira por heresia. O erro não consistia apenas em desrespeitar o quinto mandamento da Lei Mosaica, mas também em levantar testemunho falso contra uma inocente.
Em 30 de maio de 1431, Joana é queimada viva em praça pública. Já em cima do cadafalso, a donzela se ajoelha e perdoa tanto seus algozes, quanto os amigos que não a socorreram. Após as chamas serem acesas, começa a ter visões do paraíso, dos irmãos do plano espiritual que vinham auxiliá-la, e declara em voz alta que as vozes dos santos não haviam mentido. Antes de perder a consciência, a última palavra que exclama é “Jesus!” Assim ela vai para os amorosos braços do Mestre.
Alguns anos depois, o processo de condenação pela Inquisição é anulado pela Igreja Católica e, no século XX, Joana d’Arc é canonizada, tornando-se a padroeira da França. Léon Dénis ensina que seus feitos não foram “milagres” sem explicação lógica, como diz a Igreja, nem fruto de sua imaginação, como afirmam os acadêmicos materialistas. Trata-se de fenômenos mediúnicos explicados logicamente pela Doutrina Espírita.
Lembram que eu mencionei que Joana d’Arc passou por uma expiação? A obra Crônicas de Além-Túmulo, escrito pelo espírito Humberto de Campos e psicografada por Chico Xavier, traz fortes indícios de que ela foi a reencarnação de Judas Iscariotes, o apóstolo que entregou Jesus a seus algozes em troca de 30 moedas de prata. No livro, há uma entrevista que Humberto de Campos fez com o espírito de Judas, na qual ele afirma que se redimiu do crime cometido no século I, após reencarnar na Europa do século XV, justamente o século em que viveu a heroína.
Para terminar a palestra, desejo que a história dessa missionária nos inspire a seguirmos sempre a vontade de Deus, mesmo quando isso for o mais difícil de ser feito; a termos esperança na Providência Divina, mesmo nos momentos mais complicados; e a sermos cristãos não apenas da boca para fora, mas com ações. Assim como Joana, que todos nós enfrentemos as batalhas da vida com coragem e bom ânimo, tendo como norte os ensinamentos do Mestre Jesus. Que assim seja. Graças a Deus.
Nota
Foram feitos ajustes no texto para que ele fosse publicado no site Juventude Espírita




