Autor: Igor Leal da Silva Freitas
Desde as épocas mais fundamentais e longínquas da Humanidade, o Sobrenatural sempre foi alvo de interesse humano. É biológico do nosso ser se encantar e sustentar as hipóteses mais figuradas possível apenas porque aquilo é mais interessante, isso vai desde conceitos mais lógicos como a existência de Deus como a conceitos mais inventados como o raio ser Zeus. As pessoas preferem ficar encolhidas na própria mente fértil sustentando o absurdo do que encarar a verdade face a face. Esse conceito deve ser inclusive metodologia para sustentar a nossa fé. Allan Kardec já disse: “Fé inabalável só o é a que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade.” A razão não deve ser inimiga da fé, ao contrário, deve ser sua aliada, conforme demonstrou Allan Kardec. Essa tendência de crermos mais na fantasia do que na realidade é um fenômeno comum e já observado há séculos. O filósofo racionalista René Descartes já dissera: “ainda que muitas vezes a verdade não toque tanto nossa imaginação quanto o fazem as falsidades e as fantasias, uma vez que ela parece menos admirável e mais simples, todavia o contentamento que ela dá é sempre mais durável e mais sólido.” É conhecido da neurociência que tendemos a adotar os caminhos mais fáceis e de menor energia, e isso explica o fenômeno que estamos tratando. Igualmente as ciências psicológicas nos apontam que isso pode ser um desejo de fugir da realidade e da monotonia que estamos inseridos. É uma simples questão de causa e efeito muito lógica.
Esse cenário também pode indicar outra questão que a priori eu mantive excluída, unicamente por merecer uma atenção própria. As fantasias e ideias Sobrenaturais podem vir justamente quando não compreendemos o natural, atribuindo, portanto, uma causa além dessa normalidade, no que chamamos de anormal ou Sobrenatural. E aqui entra o ponto fundamental do nosso argumento: podemos compreender Deus? Pode a ciência comprovar a sua existência? Para responder a essa questão irei recorrer ao livro elementar do Codificador, a obra O Livro dos Espíritos:
10. Pode o homem compreender a natureza íntima de Deus?
“Não; falta-lhe para isso o sentido.”
Claro fica então que não podemos compreender Deus, e que somente nossos sentidos ainda são mui grosseiros para tal tarefa. Portanto, tentar lograr essa tarefa na condição espiritual em que nos encontramos seria tarefa vazia e que gera exatamente as problemáticas que há muito são disseminadas: ideias de que Deus irá propor um último julgamento para exercer a tarefa de um juiz implacável e nada indulgente; a personificação de Deus numa figura “física”; um deus que manda matar ( 1 Samuel 15:2-3; Deuteronômio 13:6-10; Josué 6:21; Números 31:17 etc) em controvérsia extrema às leis anteriormente dadas a Moisés e ao que Jesus pregou durante toda a sua estadia terrena. Esses são poucos dos vários exemplos que podemos citar dos absurdos e incoerências que o homem já produziu por tentar compreender Deus. Esse deus que criam e que julgam muito saber, nada mais é do que uma visão de um homem personificado em deus. Em vez de sermos a imagem e semelhança de Deus, procuramos criar Deus à nossa imagem e semelhança. Quando Nietzsche escreveu “Deus está morto, e nós o matamos.”, devemos reaplicar isso. Para esse deus inventado e cruel, o Espiritismo há muito veio matá-lo, tal como matou a morte, a desesperança e o materialismo. O Deus que os Espíritos se referem é “a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.” Esse sim é O Criador do Universo, o que é a razão de todas as causas e a unidade de tudo que se é derivado. Léon Denis muito poeticamente define Deus em sua obra Depois da Morte, onde ele diz: “Estudando as leis da natureza, procurando a beleza ideal na qual se inspiram todas as artes, em toda parte e sempre, acima e do íntimo de tudo, encontramos a ideia de um Ser superior, necessário e perfeito, fonte eterna do bem, do belo e do verdadeiro, no qual a lei, a justiça, a razão suprema se identificam.”
Existe também outra problemática na questão do homem tentar compreender Deus. Vimos anteriormente que isso pode ocasionar nas ideias equivocadas que o homem faz e cria um deus segundo lhe convém e segundo as próprias características humanas. Porém, existe outro problema: a negação. Nós temos a tendência de negar, na mesma medida que temos de fantasiar, as ideias que não entendemos. Não estamos aqui para atacar os ateus e os céticos, mas sim alertar para os perigos do materialismo. Não há um perigo tão silencioso quanto o materialismo, que corrompe as Leis Morais de Deus e leva o homem a uma condição de desesperado. A ideia de que somos frutos do acaso, de que nada nos aguarda e de que somos um mero acidente muito bem calibrado só produz o engano. Já nos disse Léon Denis que o acaso e o caos não podem gerar ordem e leis bem estabelecidas. Tudo o que o materialismo propõe é um vazio existencial que acaba por gerar doenças anímicas naqueles que o professam, como a ansiedade, depressão, pânico e muitas outras doenças, uma vez que essa doutrina imputa ao indivíduo que aqui na terra é tudo o que ele tem, portanto, tudo o que deveria ser transitório como os bens materiais, posses e status se tornam o objetivo de vida do materialista, porém ele mesmo reconhece, em algum grau, que isso é vazio, retroalimentando o ciclo que apontamos anteriormente. Portanto, aos que crêem que essa vida é tudo, sofrerão ao apoiar-se nos vazios da existência terrena. Eis um dos males do século. Ademais, com o essa doutrina propõe que não se tem propósito a não ser através de posses e do hedonismo desenfreado, um grande problema se aflora daí: o egoísmo. O indivíduo foca apenas em si e no que ele pode construir e ter, apoia-se desesperadamente nos seus próprios ideais e esquecem do próximo, violando uma das máximas Leis do Espiritismo e também da Natureza, isto é, de Deus, que diz: “Fora da caridade não há salvação.”
Se não podemos conhecer e entender Deus, como prosseguir?
Esse é o maior questionamento que muitos possuem… Se não conhecem Deus, como aceitar aquilo que não conhece? A resposta é simples: nem tudo precisa ser compreendido por nós para que seja verdadeiro ou para aceitarmos. Temos uma ideia quase inata de que nossa razão e nossos sentidos precisam compreender tudo para atestar sua veracidade. Immanuel Kant em sua obra Crítica da Razão Pura aponta que a razão não é o suficiente para eliminar todas as questões que temos na vida. O Universo possui seus segredos inalcançáveis aos nossos sentidos grosseiros e que passarão muito longe de nosso conhecimento, mas estão lá. A Teoria de Tudo da física é um exemplo disso. Nós não conhecemos e não conseguimos sondar por detrás do véu dessa teoria, mas ela está lá. Na verdade, toda a Mecânica Quântica é um grande exemplo de como ainda desconhecemos muita coisa e, o pouco que conhecemos, não segue os padrões que gostaríamos que seguisse, tanto que o próprio Albert Einstein jamais aceitou a Mecânica Quântica que ele mesmo fora precursor, apenas pelo seu caráter pitoresco. Acreditar em Deus não significa compreender Ele, mas sim senti-Lo. O próprio Nietzsche passou a sua vida defendendo os sentidos, o amor aos fatos e a vida como ela é. Ele criticava duramente Sócrates e seus seguidores que utilizavam da razão excessivamente. Na obra O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta o que é Deus, eis que os Espíritos respondem:
“Deus é a Inteligência Suprema, causa primeira de todas as coisas.”
Ainda tentando compreender Deus, Kardec pergunta se Ele é o infinito, e os Espíritos dizem que não, e que era uma pobreza da linguagem humana definir assim. Portanto, apesar da astúcia do Codificador, vemos o quão longe estamos de compreender a Natureza de Deus e que devemos, portanto, Viver Ele e não entender sua origem.


