Infância e Família

Olhos encantados

Autora: Rosana Alves

“Que pena que os adultos, em sua maioria, não tenham mais a simplicidade da infância, a capacidade de se encantar com as folhas de uma árvore, com os passarinhos, de sorrir espontaneamente… Por isso, nos é necessário nascer de novo, até o dia em que todas essas virtudes estejam conosco em todas as idades.”

A criança é um espírito qualquer que reencarna na Terra para uma nova etapa, em busca de conquistas intelectuais e morais, sendo que tal reencarne poderá ser a continuidade de vitórias ou o reinicio de erros desastrosos. Desta maneira, o amor é essencial. Sentir-se acolhida, amada é fundamental para a criança ter um desenvolvimento saudável com base na autoconfiança, para que tenha efetivamente a oportunidade de ter uma vida vitoriosa.

Nesta fase, o adormecimento das paixões inferiores permite ao espírito expressar suas melhores tendências, tendo, como afirma o famoso escritor e educador brasileiro, Rubem Alves, “olhos encantados” para vida, onde tudo vê com simplicidade, pureza, algo que a maioria dos adultos já há muito perdeu.

Certo dia no local em que trabalho foi decidido que deveríamos conhecer a região em que os nossos aprendizes moravam e, eu, mais do que empolgada, lá fui e mais uma vez me surpreendi e aprendi com esses que chamamos de aprendizes, mas que na maioria das vezes nos ensinam… Em meio ao lixão, rodeado de barracos na sua maioria de madeira e com o esgoto correndo a céu aberto, lugar onde ninguém deveria morar, lá vejo um garotinho que costumo chamar de “apito”, empinando pipa tranquilamente e como sempre, ao me ver, abre um belo sorriso e me cumprimenta, mesmo em meio aquele lugar que a mim pasmou, ele teve a mesma atitude de sempre e continuou a brincar na maior naturalidade. Em todo o tempo que neste lugar caminhei, todas as crianças que eu vi, me receberam com o mesmo sorriso e a mesma alegria…

Quando em um lugar onde a miséria e a violência reinam, um ser humano sorriria e encontraria alegria? Só as crianças mesmo, os melhores professores que poderíamos receber de presente de Deus.

E a humanidade… O que faz com essas crianças?

Ao abrimos o jornal nos deparamos com manchetes, como: “Garoto é arrastado até a morte”, “Menina é atingida por bala perdida”, “Trabalho infantil ainda emprega 210 mil crianças”, “Bebê é encontrado dentro de saco de lixo”.

Deus em sua infinita bondade tem nos “cutucado” diariamente com situações trágicas como estas, e olha como continuam a serem tratados esses seres com os quais se tem a chance de melhorar a cada dia a situação lastimável que a humanidade padece.

Ao reencarnarmos, passado o período da infância, é dada a oportunidade ao espírito, revestido da roupagem da inocência e da pureza, de se redimir e iniciar um novo processo e aos adultos dada à responsabilidade de encaminhar este ser no caminho do bem. Responsabilidade esta que muitas vezes fingimos não ser nossa. Educadores, pais, amigos, irmãos, avós, vizinhos, todos têm sim a responsabilidade de cuidar, ensinar, educar as crianças para que o Reino dos céus seja de todos, e que após passar pela infância todas as qualidades que encontramos na criança ainda estejam nos jovens, adultos, idosos, sendo assim eternas crianças em suas atitudes de benevolência, de bondade e caridade que são podadas, quando se deixa a infância.

Apenas duas das melhores qualidades que as crianças têm e que todos ainda deveriam ter:

A DÁDIVA DO PERDÃO… – “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”. Conhece ser que perdoe seja o que for com a maior facilidade, a brutalidade de um pai, os erros de um amiguinho, a ignorância da humanidade?

A ESSÊNCIA DA VIDA, O AMOR… – “Amar ao próximo como a si mesmo”. Ver o belo, mas não este físico que a sociedade tanto se preocupa em enfatizar, mas sim o verdadeiro, a alma, gostar não porque você é lindo, ou rico, mas pelo simples fato de gostar. Existe maior grandeza que esta: gostar por gostar?

Cultivar, pois a criança que existe em cada um de nós, é cultivar as futuras gerações que estão por vir e as que já gritam fervorosamente ao nosso socorro, para que não as esqueçamos e enxerguemos o quanto elas podem contribuir para a evolução da humanidade, para que esta seja mais justa, bondosa, alegre…

As crianças vivem, enquanto os adultos muitas vezes só existem. Quantas vezes você viu uma criança reclamando que não tem dinheiro, ou que o trânsito esta péssimo, ou que os políticos são corruptos, ou que o mundo esta violento? E isso não quer dizer que elas não percebam, mas que simplesmente não se deixam abater e sim que continuam lutando a sua maneira, seja rindo das coisas mais bobas ou se encantando com o simples, vivendo.

Não deixar se perder este espírito com essa oportunidade de evoluir é a tarefa imediata que temos. Parece comum dizer que as crianças são o futuro do mundo, mas são! E nós as estamos perdendo, deixando-as se tornarem seres existentes desde que reencarnam e a vida e a luz que trazem consigo são apagadas, pelo nosso desânimo, descrença, ignorância…

Aprendamos com os seres mais iluminados que existem e que mesmo nas maiores vicissitudes, ainda conseguem se encantar e enxergar luz e alegria. Os melhores professores que poderíamos ter e que não nos exigem muito, mas que nos tiram o melhor com um simples sorriso.

Fala MEU! Edição 52, ano 2007
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