20 de novembro – Dia da consciência negra

Autor: Cauê Sanchez

Um Chamado à Reparação, à Responsabilidade e à Verdadeira Vivência Espírita

O Dia da Consciência Negra não é apenas uma data comemorativa. É um ato de memória, uma denúncia histórica, um convite à reflexão profunda e um grito por reparação. E, dentro do movimento espírita, essa reflexão não pode ser ignorada. Somos herdeiros de uma Doutrina que proclama a igualdade espiritual, a universalidade do ser e a lei de amor. Mas também somos herdeiros de uma cultura brasileira atravessada por séculos de escravidão, exclusão e violências que ainda ecoam — inclusive nos espaços religiosos. Por isso, hoje, mais do que celebrar, é dia de pensar, sentir, reconhecer e transformar.

Por que “Consciência Negra”?

Essa expressão carrega história, filosofia e luta. Já parou para pensar nisso? Por que chamamos de Consciência Negra — e não “Orgulho Negro”, “Luta Negra” ou “Resistência Negra”? A resposta exige que retornemos à filosofia.

Durante séculos, a ideia de consciência foi associada ao que significava ser humano. Na era moderna, René Descartes fixou esse pensamento na frase que moldou o pensamento ocidental: “Cogito, ergo sum” — “Penso, logo existo”. Pensar passou a ser sinônimo de existir como humano.

Enquanto essa ideia florescia na Europa, o mesmo continente escravizava povos africanos, negando-lhes exatamente aquilo que dizia definir a humanidade: a consciência. Pessoas negras eram tratadas como mercadoria, “ferramentas falantes”, peças de um sistema econômico violento. Leis, religiões, ciências, escolas e universidades repetiram e legitimaram essa visão. É por isso que o nome “Consciência Negra” é tão simbólico: ele reivindica aquilo que foi negado por séculos — a humanidade plena, a dignidade e o direito de existir com consciência, voz e identidade.

E o Espiritismo nisso tudo?

Amor não anula responsabilidade histórica. O Espiritismo nasceu no século XIX, um período marcado pelo colonialismo, pela escravidão recém-extinta, por teorias racistas travestidas de ciência e por visões eurocêntricas profundamente enraizadas. Allan Kardec trouxe princípios avançados, mas, como qualquer pensador inserido em seu tempo, também utilizou expressões influenciadas pelo contexto histórico.

E isso precisa ser dito. Porque fingir que não existe é repetir um silêncio que machuca.

Muitas vezes, dentro do movimento espírita, reproduzimos textos antigos sem reflexão crítica e sem sensibilidade histórica. E, quando fazemos isso, podemos ferir irmãos e irmãs que ainda carregam marcas de um passado que o Brasil insiste em não encarar completamente. Mas amadurecer espiritualmente é ter coragem de olhar a verdade de frente.

O que a Doutrina realmente ensina

O Espiritismo afirma que todos os Espíritos são criações iguais de Deus, que não existe superioridade racial, biológica ou cultural, que o corpo é temporário e o Espírito é eterno, que o progresso moral é universal e acessível a todos e que o racismo é uma violação direta da Lei de Justiça, Amor e Caridade.

Diante disso, a pergunta precisa ser feita: por que ainda existe racismo dentro de espaços espíritas?

A resposta é dura, mas necessária. Porque nem sempre estudamos com consciência histórica, nem sempre escutamos quem sente a dor, nem sempre colocamos o Evangelho em prática e, muitas vezes, preferimos preservar tradições a corrigir equívocos. Mas o Espiritismo não é a religião da acomodação; é a religião da transformação moral.

Consciência é acolhimento, reparação e coragem de mudar

Consciência Negra, para nós espíritas, é um chamado a reler nossas obras com senso crítico, carinho e responsabilidade. É revisar discursos que, mesmo sem intenção, machucam, reparar falas, materiais, práticas e posturas, escutar e dar protagonismo às vozes negras dentro do movimento e romper com qualquer neutralidade que proteja a injustiça.

Reparar não é acusar. Reparar é amar de forma madura. Reparar é agir como Jesus agiria.

Uma consciência que transforma

A verdadeira Consciência Negra é espiritual, humana, coletiva e diária. Ser espírita é reconhecer que não existe reforma íntima verdadeira sem justiça social. É admitir onde erramos. É escolher fazer diferente. É enxergar o outro como Espírito imortal e, ao mesmo tempo, respeitar sua história material, cultural, racial e social.

Hoje, honramos a memória e a resistência do povo negro e reafirmamos nosso compromisso com um movimento espírita mais lúcido, mais justo, mais acolhedor e mais parecido com o Cristo. Que a Consciência Negra nos desperte, nos eduque, nos transforme e nos faça, finalmente, enxergar e amar com profundidade.

AMOR NÃO É CRIME.PRECONCEITO, SIM