A casa da praia

Autora: Teresinha Olivier

Quando o carro da família chegou à frente da enorme casa alugada para as férias de verão, os mais novos desceram correndo e gritando de satisfação.

Era a primeira vez que passariam as férias inteiras numa casa enorme, com muito espaço, quartos para todos, e ainda de frente para o mar. A excitação era imensa! A família era grande. O casal e seis filhos, de quatro a dezessete anos.

As crianças entraram atropeladamente na casa e cada um já foi escolhendo seu quarto, sua cama, tirando suas roupas das malas e esparramando-as, numa agitação própria das crianças quando se veem diante de um sonho realizado.

Daniel, o mais velho, carregava uma bagagem mais pesada. Iria estudar para o vestibular e trazia uma mala somente com livros. Escolheu o quarto menor e mais afastado. Precisava de privacidade e de silêncio. Ficou combinado que ficaria com um quarto só para ele e que seus irmãos seriam proibidos de entrar e importuná-lo. Acomodou-se, arrumou uma mesa onde organizou seu material.

Naquele primeiro dia, com a agitação e algazarra dos menores, não havia condições de estudar, por isso, depois de ajudar o pai a descarregar e arrumar algumas coisas, Daniel saiu para uma caminhada pela areia clara e fina da praia. Caminhou descalço, sentindo a satisfação da areia morna passando pelos seus dedos e envolvendo seus pés, dando-lhe uma sensação extremamente agradável. A vista do mar trouxe-lhe um grande bem-estar, sentiu seu coração apaziguado e sua mente leve.

Quando estava retornando, percebeu na entrada da casa que ficava ao lado da sua uma jovem que olhava para ele. Era linda! Ele também ficou olhando, até que ela se virou para dentro como se alguém a estivesse chamando, e sumiu para o interior da casa. Ele deu mais uns passos e olhou novamente para trás, na esperança vê-la, porém, viu outra jovem, igualmente linda, olhando para a imensidão do mar.

– Será que são irmãs? – Pensou.

Na manhã seguinte, quando acordou, teve a impressão que estava numa casa abandonada, tamanho o silêncio que dominava todos os cômodos. Essa era a vantagem de estar bem de frente para o mar. Seus irmãos, nem bem despertaram, já correram para a praia e, com certeza, lá passariam a maior parte do dia. Ele teria, então, toda a tranquilidade que almejava. Resolveu iniciar e terminar o dia com uma caminhada na praia e, quem sabe, um mergulho também.

Nesse mesmo dia começou a pôr em prática sua rotina. Na caminhada da tarde, com a esperança de rever a garota vizinha, caminhou lentamente, olhando com o canto do olho para a casa dela. Ela estava lá, olhando para ele. Ele achou que devia falar alguma coisa, afinal, eram vizinhos. Aproximou-se.

– Olá, sou o Daniel.

– Meu nome é Rosana. Vi quando você chegou com a sua família, que é bastante grande, diga-se de passagem.

– É grande mesmo. Grande e barulhenta.

– Deve ser legal ter uma família assim. Aqui tudo é muito silencioso, monótono.

– Acredite Rosana, às vezes eu queria um pouco de monotonia, minha família é agitada demais. Mas, você tem uma irmã, não tem? Ontem eu vi outra garota…

– Não, sou filha única. Somente eu e meus pais estamos nesta casa enorme. Que garota você viu?

– Ontem, quando eu estava passando e depois que você entrou, quando olhei novamente vi uma garota nesse mesmo lugar que você está agora.

– Que estranho! Não recebemos nenhuma visita. Você tem certeza?

Ele achou melhor não insistir no assunto.

– Deixe pra lá. Posso ter feito confusão. O dia de ontem foi bastante tumultuado.

Conversaram mais um pouco e combinaram de se encontrar depois do jantar para continuarem o papo.

Uma sintonia estabeleceu-se logo entre os dois jovens. Conversaram sobre vários assuntos, mas, quando Daniel fez perguntas sobre seus pais, Rosana entristeceu-se e desabafou:

– Meu pai está sofrendo de uma depressão muito grave, Daniel. Está em tratamento severo e viemos para cá com a esperança de que o clima pudesse ajudá-lo. Ele quase não sai de casa, quase não conversa, vive sempre triste e sem ânimo para nada.

– Isso deve ser bastante preocupante para você e sua mãe.

– É sim, Daniel. Estamos fazendo tudo que podemos para ajudá-lo.

– Os médicos descobriram o motivo da depressão?

– Não. Não sabemos por que meu pai, de uns tempos para cá, entregou-se a esse desânimo. Ele era muito diferente, trabalhador, ativo, dinâmico. É triste ver meu pai desse jeito.

Daniel procurou confortá-la da melhor maneira que sabia. Quando entrou em casa para dormir, já passava das onze horas.

A partir daquele dia, Daniel não fez mais suas caminhadas sozinho, Rosana partilhava com ele o prazer do passeio, tanto de manhã, como à tarde. E ainda se encontravam à noite. Para Daniel, os passeios com Rosana tornaram-se os momentos mais agradáveis daquelas férias. Enquanto estudava, ansiava pelos encontros com ela.

Numa das manhãs, quando a esperava para mais uma caminhada, viu, em uma das janelas, aquela jovem novamente. Ela estava olhando para o mar, mas seu olhar era triste. Decidiu tirar a limpo aquela história. Foi se aproximando da janela e, à medida que chegava mais perto, a figura da jovem ia se afastando, sempre com o olhar perdido no mar. Quando ele chegou bem perto da janela e pôde olhar para dentro da sala, constatou que não havia ninguém, a sala estava vazia. Ainda estava olhando para dentro, tentando entender o que estava acontecendo, quando Rosana, atrás dele, perguntou:

– O que você está procurando? Eu estou aqui!

Com o susto, deu um pulo para trás.

– Oi, Rosana, desculpe estar olhando…

– Tudo bem. Vamos, então?

– Vamos.

– Ah! Daniel, antes que eu me esqueça, minha mãe convidou você para jantar, hoje.

– Verdade?

– Você vai?

– Vou, sim, com prazer!

Caminharam e conversaram, mas, na sua mente estava a figura daquela jovem que desapareceu misteriosamente. Ele não sabia explicar aquilo.

Arrumou-se e, na hora marcada, compareceu para o jantar na casa de Rosana. Foi muito bem recebido pela sua mãe, uma mulher ainda jovem e simpática. Porém, quando Rosana o apresentou ao seu pai, tudo o que pôde ouvir foi um quase inaudível “prazer” como cumprimento. Em seguida, aquele homem triste e alquebrado foi sentar-se numa poltrona, na sala ao lado.

A mãe de Rosana procurou ser atenciosa com Daniel e desculpou-se pelo marido:

– Desculpe Daniel, mas meu marido vai jantar na outra sala. Ele está doente e prefere ficar sozinho. Espero que não repare.

– Não se preocupe Dona Rosália. A Rosana já me falou sobre a doença do Sr. Artur. Eu compreendo.

Durante o jantar, Daniel, de vez em quando, olhava discretamente para Artur, que, com o prato numa mesinha, comia lentamente, olhando para a televisão. Porém, pelo seu olhar vago, parecia que não estava vendo nada.

Numa dessas olhadas furtivas, viu Artur curvar-se para frente, como se em suas costas houvesse um peso enorme. Ele começou a gemer. Os três correram até ele, procurando endireitá-lo, o que o fazia gemer ainda mais.

– Minhas costas! Estão doendo muito!

Ele não conseguia sair daquela posição e Daniel não sabia o que fazer para ajudar. Penalizou-se com a aflição de Rosana e de sua mãe.

De repente, viu aquela moça atrás de Artur, olhando firmemente para ele e, quanto mais ela fixava seu olhar, carregado de ódio, mais Artur se curvava para frente e mais gemia de dor.

Daniel observou Rosana e Rosália para verificar se elas viam alguma coisa, mas elas não registravam aquela presença e até passavam através dela, na ânsia de socorrer Artur. Daniel ficou aterrorizado.

– O que é isso, meu Deus! Pensou, agoniado.

De repente, a moça olhou para ele. Daniel arrepiou-se dos pés à cabeça. Sentiu vontade de sair correndo dali, mas, vendo a aflição da mãe e da filha, muniu-se de muita coragem e permaneceu de pé, olhando para aquela moça, que fixava agora seu olhar raivoso nele. Daniel sentiu muito medo.

Mas nesse momento aconteceu algo estranho: aquela jovem parecia que se acalmava com ele. Sua fisionomia foi se modificando, passando da raiva para uma expressão de dor, de sofrimento. Parecia que estava pedindo ajuda a ele com seu olhar de tristeza. E ele, sentindo muito medo e sem saber o que fazer, ficou parado, ou melhor dizendo, paralisado, olhando para ela.

Ela, na medida em que olhava para ele, ia se desligando de Artur, que começou a sentir certo alívio e conseguia endireitar o corpo. A forma da moça foi se desfazendo como um vapor que se dilui até desaparecer completamente.

As duas mulheres, na sua aflição, não perceberam a atitude estática de Daniel. Rosana chorava.

– Papai, o senhor está melhor?

– Estou, filha. A dor nas costas passou.

– Graças a Deus! – Suspirou Rosália, aliviada.

Daniel, então, num estremecimento, como que saindo de um torpor, voltou-se para as duas, tentando auxiliar de alguma forma.

Mais tarde, em sua cama, não conseguia dormir. Pensava naquele episódio aterrorizante, procurando entender a situação e o que deveria fazer. Decidiu conversar com Rosana no dia seguinte e contar o que estava acontecendo com ele.

Rosana ouviu-o com toda a atenção e não dissimulava seu espanto.

– Você acredita em mim, Rosana?

– Acredito Daniel. Mas quem seria essa moça? O que ela quer com o meu pai?

– Isso eu não sei. Nunca passei por uma situação dessas antes. O que você acha que devemos fazer?

– Não tenho ideia, Daniel.

Na caminhada seguinte, Rosana estava ainda mais triste.

– Parece que meu está piorando, Daniel. Esta noite dormiu muito mal, falava, gesticulava e se mexia o tempo todo. Minha mãe disse que ele repetiu várias vezes um nome: Regina.

– Vocês conhecem ou conheceram alguém com esse nome?

– Não. Pelo menos não nos lembramos. Minha mãe não quis perguntar nada para não o perturbar ainda mais.

– É tudo muito estranho, Rosana.

– Contei para minha mãe sobre as suas visões.

– E o que ela disse?

– Ela acredita em Espíritos, apesar de não entender nada sobre o assunto, mas não compreende que relação pode ter tudo isso com a doença do meu pai.

Daniel também não entendia, e muito menos entendia o que ele tinha a ver com tudo isso. Por que ele via a moça e Rosana e sua mãe, as maiores interessadas nos problemas do Artur, não viam e nem sentiam nada?

Numa noite, Daniel sonhou com a moça. Ele a viu entrando em seu quarto, caminhando em sua direção. Ele se levantou e, surpreendentemente tranquilo, ficou frente a frente com ela. Ela somente olhava para ele e seu olhar transmitia tristeza, muita tristeza. Lágrimas escorriam pela sua face. Ele sentiu pena, queria ajudá-la, via muito sofrimento naquele semblante. Percebeu que ela queria falar alguma coisa, mas sentia dificuldade.

A figura foi se desfazendo aos poucos até desaparecer. Daniel fez o movimento de voltar para a cama, mas viu-se dormindo tranquilamente. Ficou parado, olhando para seu corpo como se fosse a coisa mais natural do mundo, quando se sentiu envolto numa espécie de torpor. Quando passou, ele estava na casa de Rosana, no quarto de seus pais, que dormiam. A moça estava ao lado da cama e olhava fixamente para Artur, que começou a agitar-se e a gemer.

Nesse momento, Daniel acordou em sua cama. Lembrou-se de todos os detalhes do sonho. Começou a suar abundantemente. Levantou-se, tomou banho e pensou:

– Preciso falar com minha mãe! Ela vai saber o que fazer.

Cida, a mãe de Daniel, era médium e trabalhava na casa espírita há muitos anos. Chegando em casa à noite, Daniel esperou pacientemente seus irmãos irem para a cama e chamou sua mãe.

– Mãe, sei que a senhora está cansada, mas precisamos conversar.

– Agora, Daniel? É quase meia noite! Você precisa dormir para estudar amanhã.

– Sente-se aqui, mãe, e me escute.

Contou a ela, com todos os detalhes, tudo o que vinha acontecendo na casa de Rosana e com ele. Ela ouviu tudo com muita atenção e disse, decidida como sempre:

– Bom! Temos que fazer alguma coisa. Resta saber se a mãe dessa garota tem a mente aberta para esses assuntos.

– Tem, sim, mãe. Apesar de não entender nada, ela acredita em Espíritos e, além disso, é muito simpática.

Na noite seguinte, depois que as crianças já estavam dormindo, Cida, seu marido Geraldo e Daniel, sentados na cozinha, prepararam-se, fazendo uma prece e lendo um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Pediram a ajuda de Espíritos protetores e o pai de Daniel, ciente do assunto, solicitou que o Espírito da jovem pudesse ser trazido a fim de que pudesse ser auxiliado. Não demorou muito. Cida, médium experiente, sentiu-se envolvida por vibrações de muita dor e sofrimento. Gemendo, o Espírito da jovem balbuciava palavras desconexas. Geraldo procurava acalmá-la, estimulando-a para que conversasse com ele e dissesse o que a afligia.

Demorou um tempo para que ela conseguisse coordenar suas ideias e, com o auxílio dos Espíritos que a amparavam, começou a falar da dor que ele lhe causara. Que o odiava por ter sido tão cruel para com ela e seu pobre filho. Que o seu desejo era vingar-se, que ele sofresse muito também. Ele não merecia ser feliz com a sua família. Geraldo, com muito tato, perguntou se ela se referia ao Artur.

– Sim! Ele é o causador da minha morte e da morte do meu filho. Eu o odeio!

Na tarde seguinte, Geraldo, Daniel, Cida e Rosana, sentados na areia, observavam as crianças que brincavam na praia com o entusiasmo e alegria de sempre.

Enquanto isso, entre Rosália e Artur estabelecia-se um diálogo muito difícil. Rosália, depois de ouvir o relato da mãe de Daniel sobre a conversa com o Espírito da jovem que parecia perseguir seu marido, resolveu chamá-lo, decidida a esclarecer a situação. Ela, que desde que ele adoecera, procurava poupá-lo de aborrecimentos, não teve dúvidas. Perguntou abruptamente:

– Artur, quem é a Regina?

Artur levou um choque.

– O quê?

– Quero saber quem é essa moça. Você a conheceu?

Rosália percebeu que seu marido ficou extremamente pálido.

– Mas, por que essa pergunta, Rosália?

Rosália contou a Artur tudo que a mãe de Daniel lhe havia relatado.

– Não adianta negar, Artur, você balbuciou o nome dela dormindo, várias vezes. É melhor ser honesto comigo. Acho que mereço isso.

Artur, de cabeça baixa, se mantinha em silêncio.

– Artur, o que você tem a dizer sobre isso? Tem algum fundamento? Existe alguma verdade nessa história? Seja o que for, estou aqui para ouvi-lo e procurar entender.

Artur deu um suspiro profundo. Olhou para Rosália e, como não conseguisse suportar seu olhar, abaixou a cabeça. E, profundamente constrangido, começou a falar:

– Rosália, infelizmente eu cometi um erro muito grave. Conheci uma jovem há dois anos e me envolvi com ela. Me perdoe, Rosália, fui muito fraco, mas nunca deixei de amar você.

– Isso agora não vem ao caso, Artur. O nome dela era Regina?

– Sim.

– O que aconteceu com ela?

– Aconteceu que ela engravidou e queria que eu me separasse de você. Eu não concordei e a obriguei a fazer o aborto. Paguei um profissional inescrupuloso e ela e o bebê não resistiram.

Rosália não conseguia segurar as lágrimas, que escorriam por sua face.

– Que tragédia, Artur! Como você pôde fazer uma coisa dessas? Eu sempre o tive como um homem honrado!

– Me perdoe, querida. Fui um fraco. Mas não quero perder você. Nunca! Eu a amo.

– Não sei o que será de nós daqui para frente, Artur. A decepção é muito grande.

Seguindo as orientações da mãe do Daniel, experiente nesses assuntos, Rosália e Artur passaram a frequentar o centro espírita em que Cida trabalhava como médium. Foram necessárias muitas reuniões mediúnicas bem dirigidas, nas quais o Espírito foi tratado com muito carinho, foi sendo esclarecido e auxiliado.

Aos poucos, essa entidade tão sofrida foi compreendendo a necessidade de seguir seu caminho e deixar para trás o rancor e o desejo de vingança que só a prejudicariam na sua caminhada espiritual.

Quanto a Artur, ainda sofria muito devido ao remorso e também por causa do distanciamento da esposa, que pediu que ele saísse de casa por uns tempos. Ela precisava ordenar seus sentimentos.

Daniel e Rosana continuaram a se ver. Gostavam um do outro. Esse drama serviu para eles como uma experiência muito dolorosa, porém, um ensinamento valioso para suas vidas.

E Daniel, com sua mediunidade comprovada de forma tão patente, tinha pela frente muitas possibilidades de trabalho no campo espiritual.

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