Autora: Teresinha Olivier
Enfim, o dia tão esperado!
Chegou em casa, trazendo nos braços seu filho que acabara de nascer. Colocou-o carinhosamente no berço e ficou admirando aquele pequeno ser que, de agora em diante, dependeria do seu amor e dos seus cuidados.
Rute estava imensamente feliz! Ela e seu marido há muito desejavam ter um filho e o conseguiram somente depois de vários tratamentos.
Sua mãe ficaria com ela durante algumas semanas para que o novo papai, cuidadoso, pudesse trabalhar sem preocupações.
Aos poucos, o tumulto inicial que uma criança recém-nascida traz a um lar foi sendo controlado, e as coisas foram entrando numa rotina tranquila.
Numa tarde, depois do banho, Rute foi à cozinha tomar o chá que sua mãe preparara.
– Rute, por que você colocou os bichinhos de pelúcia no berço, ao lado do bebê?
– Eu não coloquei, mamãe. Por que eu faria isso?
– Então, quem foi? Quando entrei no quarto, ele estava dormindo tranquilamente e havia dois bichinhos, um de cada lado!
– Ora, mamãe, só estamos nós duas aqui! Se não fui eu e nem a senhora, quem poderia ser?
As duas mulheres ficaram trocando impressões sobre o fato, sem chegar a nenhuma conclusão.
À noite, Rute comentou com o marido sobre o ocorrido e ele rindo, disse:
– Vocês duas fazem uma bela dupla, hein? Não sei qual é a mais esquecida…
Riram e deixaram a questão de lado.
Numa noite, Rute levantou-se, como de costume, e foi dar uma olhada no bebê que ficava no quarto ao lado do seu. Levou o maior susto. Todos os bichinhos que decoravam o quarto e que ficavam nas prateleiras estavam distribuídos ordenadamente em volta da criança, que dormia tranquila.
Aflita, correu ao seu quarto e acordou o marido.
– Manoel, Manoel, acorde! Venha ver uma coisa!
O esposo, assustado, acompanhou-a e o que viu deixou-o meio aturdido.
– Mas o que é isso?
– Está vendo, Manoel, tem alguma coisa esquisita acontecendo!
– Chame sua mãe. Só pode ter sido ela.
Quando D. Guiomar aproximou-se do berço, colocou as mãos na boca, reprimindo um grito. Apenas conseguiu murmurar:
– Meu Deus!
– Foi a senhora que fez isso?
– É claro que não, Manoel. Mas que coisa estranha!
Rute, nervosa, começou a chorar.
– O que está acontecendo com o nosso bebê, Manoel?
Manoel abraçou-a, tentando confortá-la, porém, ele mesmo estava preocupado. Colocou os bichinhos num saco e o guardou debaixo da escada.
– De manhã dou um jeito neles.
Puseram o berço ao lado de sua cama, mas conseguiram dormir somente alguns minutos de manhãzinha.
Rute acordou antes do esposo e a primeira coisa que fez foi olhar o bebê. Manoel despertou com o seu grito.
Ele pulou da cama e, aproximando-se do berço, ficou paralisado: todos os bichinhos que haviam sido guardados no saco e colocados debaixo da escada estavam novamente no berço, distribuídos harmoniosamente ao redor de Guilherme, que chorava assustado por ter despertado com o grito da mãe.
D. Guiomar também chegou assustada no quarto e o que viu deixou-a sem fala.
Rute, desesperada, pegou seu filho no colo e, chorando dizia para o marido:
– Faça alguma coisa, Manoel! Não quero que nada aconteça ao nosso filho! Pelo amor de Deus, faça alguma coisa!
Manoel estava sem ação. Não sabia o que pensar, mas sabia que precisava acalmar as duas mulheres que estavam entrando em pânico. Procurou tranquilizar-se e transmitir alguma segurança para a mulher e a sogra. Começou a recolher os bichinhos do berço.
– Vou levar tudo para a creche da esquina.
Rute, procurando recompor-se, enxugando as lágrimas, disse ao marido:
– Mas, meu bem, será que você não vai levar o problema para as crianças de lá?
– Acredito que não, Rute. Acho que isso tem a ver mais é com esta casa ou…
Ele não queria completar o pensamento com receio de preocupar ainda mais a esposa, porém, ela adivinhou seu pensamento:
– Ou com o Guilherme. Não era isso que você ia dizer?
– Não vamos tirar conclusões precipitadas – disse a mãe de Rute.
– Também não sei explicar o que está acontecendo, Rute. Vamos pensar em alguma coisa depois de nos acalmarmos. E, por via das dúvidas, vou queimar esses bichinhos.
Manoel levou-os para o fundo do quintal e pôs fogo nos bichinhos de pelúcia que Rute havia comprado para enfeitar o quarto do seu filho.
Por alguns dias, as coisas se acalmaram. Rute e D. Guiomar procuraram não falar sobre as ocorrências estranhas e sem explicações e, envolvidas com as tarefas diárias, evitavam tocar no assunto.
Numa noite, Manoel acordou com gemidos da esposa, que se contorcia enquanto dormia.
– Rute, Rute, acorde!
Rute, despertando, abraçou-se ao marido, chorando.
– Que foi, Rute? Por que você está desse jeito?
– Uma mulher ali, ao lado da porta! – Disse Rute, aterrorizada, agarrada ao marido.
– Não tem ninguém, Rute. Foi um pesadelo.
– Não foi um pesadelo, Manoel. Ela estava bem ali!
– Mas eu acabei de acordar você, querida. Você estava dormindo.
– Mas foi muito real para ser um apenas um sonho mau, Manoel. Eu vi uma mulher jovem, olhando para mim com uma expressão de raiva, gritando: – Ele é meu! É meu filho! Por que você o tirou de mim? – Foi quando ouvi você me chamar.
Manoel abraçou a esposa bem forte junto ao peito, enquanto falava:
– Minha querida, você ficou muito impressionada com os episódios dos bichinhos de pelúcia. Os sonhos refletem as nossas preocupações. Procure acalmar-se.
Rute aninhou-se nos braços do marido.
– Não sei, não, Manoel. Foi muito real. Ainda estou tremendo.
Aos poucos, ela foi se acalmando, mas não conseguiu dormir no resto da noite.
Numa tarde, Rute recebeu a visita de uma amiga que veio para conhecer o bebê. Enquanto conversavam trivialidades, Rute percebeu que sua mãe estava meio aflita, parecia querer falar alguma coisa, olhava para ela com ansiedade. Por fim, não aguentou mais e disse:
– Marina, você mexe com essas coisas de Espírito, não é?
– Mamãe! – Exclamou Rute – você sabe que não acreditamos nessas coisas! Respeito a Marina e suas ideias, mas o Manoel não quer esses assuntos dentro de casa. Já conversei com a Marina sobre isso e ela compreende muito bem a nossa posição.
– Mas Rute, minha filha, você não acha que o que tem acontecido aqui é muito estranho? Encontramos alguma explicação? Quem sabe a Marina pode nos ajudar de alguma forma.
Rute não teve argumentos contra a o raciocínio da mãe e resolveu contar à amiga os fatos ocorridos. No íntimo, também desejava desabafar o que a estava angustiando.
Marina ouviu com atenção, em silêncio. Depois do relato, respirou fundo e disse cuidadosa:
– Rute, o que posso dizer no momento é que pode haver uma interferência espiritual. Aliás, os fatos com os bichinhos de pelúcia nos levam a essa conclusão. Quanto ao sonho…
– Não acho que foi sonho, Marina – interrompeu Rute – foi muito real para mim.
– Acredito em você, Rute, mas não podemos fazer afirmações precisas. Isso é muito subjetivo.
– O que você nos aconselha, Marina? – Perguntou D. Guiomar.
Marina pensou por alguns momentos:
– O que posso aconselhar a vocês, no momento, é que tenham calma em primeiro lugar. Se houver realmente uma entidade ligada a esta casa ou a vocês, provavelmente é uma criatura sofredora que está precisando de auxílio. Procurem não ter medo e irradiem pensamentos de paz para ela. Vou levar os nomes de vocês para o centro que frequento e pedir auxílio aos dirigentes mais experientes e aos Espíritos orientadores. Mas seria bom se vocês fossem ao centro, assistissem algumas palestras, tomassem passe…esses procedimentos nos fortalecem, nos dão ânimo, coragem e nos acalmam para podermos enfrentar situações difíceis. Podem levar o bebê, pois são reuniões abertas ao público em geral.
Rute comprometeu-se em conversar com Manoel.
Não foi muito difícil convencê-lo. Aliás, Rute ficou espantada de como ele aceitou a ideia facilmente. O que ela não sabia é que ele estava bastante preocupado e havia conversado também com um amigo que o convencera a procurar um lugar, a fim de pedir ajuda. Só esperava uma ocasião para falar com a esposa.
Seguiram as orientações de Marina. Foram ao centro, ouviram palestras interessantes e receberam o auxílio do passe.
De fato, Rute começou a se sentir mais tranquila. Já há algum tempo não acontecia nada. Porém, numa tarde, D. Guiomar saiu para fazer compras e Rute estava dando banho no bebê, conversando carinhosamente com ele.
– Agora, vamos tomar um banho bem gostoso para esperar o papai que logo, logo vai chegar e vai encontrar seu filhinho bem cheirosinho…
Mal acabou de dizer essas palavras, sentiu um frio percorrer seu corpo e percebeu um vulto se formando do outro lado de sua cama. Instintivamente, tirou seu filho da água e, segurando-o fortemente de encontro ao peito, encostou-se no armário. Estava tremendo.
A mesma moça que vira no sonho estava na sua frente. Chorava amarguradamente. De braços estendidos em direção à criança, dizia palavras que eram mais pressentidas do que propriamente ouvidas por Rute:
– Ele é meu… devolva o meu filho…por que você o tirou de mim?
Rute estava petrificada. Não conseguia mover-se. Nisso, a porta da frente bateu. Era Manoel que estava chegando.
– Olá, querida, cheguei! Onde você está?
A figura foi se desvanecendo, mas o semblante sofrido daquela moça foi a última imagem que se desfez.
Manoel entrou no quarto e assustou-se quando viu a esposa encostada no armário, com uma expressão de terror e agarrada à criança, que chorava assustada e molhada.
– Rute! O que você está fazendo? – Exclamou, tirando o bebê dos seus braços – o que aconteceu querida?
Parece que foi só nesse momento que Rute percebeu a chegada do marido. Olhou para ele e sentiu um grande alívio.
– Manoel! Ah! Manoel que bom que você chegou! – Disse, caindo num choro convulsivo.
Manoel enrolou o filho numa toalha e colocou-o na cama. Voltando-se para a esposa, abraçou-a, tentando acalmá-la.
Depois de algum tempo, D. Guiomar já havia retornado e Rute, já mais calma, conseguiu contar o que havia visto.
Ligaram para Marina que, solícita, foi até lá.
– Essas coisas não se resolvem de uma hora para outra. Vocês precisam ter paciência e calma.
– Como eu vou ter calma, Marina, se esse Espírito quer o meu filho?
– Nós estamos fazendo reuniões no centro, procurando justamente esclarecimento e encaminhamento para o caso de vocês, porém, parece que a situação desse espírito vem de longa data e não podemos ter pressa. Nós estamos trabalhando e os Espíritos que nos ajudam também. Não estamos nos descuidando do seu problema, Rute. Espere e confie.
– Mas, e se essa mulher fizer alguma coisa ao meu filho?
– Não acredito nisso, minha amiga. Pelo que você relata, é um Espírito sofredor e não maldoso. Vocês podem ir ao centro hoje à noite?
– Podemos sim. – Respondeu Manoel prontamente.
– Ótimo! Vocês irão ouvir a palestra e tomar passe, enquanto isso, em outra sala, faremos uma reunião pedindo ajuda aos Espíritos amigos especificamente para o caso de vocês.
E assim foi feito. No final, eles foram chamados a fim de receberem esclarecimentos quanto ao que havia acontecido na reunião mediúnica. Foi o coordenador da equipe que falou com o grupo familiar aflito:
– Digam uma coisa: a sua casa é antiga?
– Sim – respondeu Manoel – é bem antiga. Já sofreu várias reformas.
– Amigos, a explicação que recebemos através de um médium, foi que há muitos anos, provavelmente no início do século passado, essa jovem engravidou de um rapaz que a abandonou em seguida. Seu pai, homem austero, aprisionou a filha no próprio quarto e, quando a criança nasceu, foi levada para um destino ignorado pela jovem mãe, que nunca mais o viu. A partir desse dia, a pobre jovem foi sendo tomada por um desequilíbrio mental, sempre chamando por seu filho. Ficou trancada até morrer, poucos anos depois.
O coordenador parou um pouco o seu relato, esperando que lhe fizessem alguma pergunta, e continuou:
– Os Espíritos não entraram em detalhes. Somente relataram o que interessa no caso. Podemos concluir que essa moça que a senhora viu é o Espírito daquela jovem, que nunca se conformou com a situação de perder seu filhinho, e o fato de ficar trancafiada por tanto tempo pelo próprio pai contribuiu e muito para o seu desajuste emocional e mental. Até hoje, ela pensa que continua viva, que continua trancada na casa e espera que lhe tragam seu filho. Quando viu o seu bebê, pensou que fosse o dela, arrancado dos seus braços de forma impiedosa.
Rute, Manoel e D. Guiomar estavam aturdidos. Foi Rute quem falou primeiro:
– Mas, então, o que devemos fazer? Sair da nossa casa?
– É claro que não! Essa não é a solução. O que realmente precisa ser feito é ajudar a essa entidade, que está sofrendo muito. Devagar, iremos ajudando-a a compreender a sua real situação. Ela irá se conscientizando que tudo já passou e que, quando ela se equilibrar, até poderá saber o que aconteceu de fato com o filho. Mas isso poderá se dar brevemente ou em um prazo mais longo. É preciso paciência. É importante que vocês, principalmente você Rute, faça preces por ela e passe para ela pensamentos de tranquilidade, de paz, de fraternidade. Ela está precisando muito. Talvez tenha chegado o momento da libertação de uma situação que ela vive há tantos anos.
Voltaram para casa com o coração condoído por aquela moça tão sofrida. Tomaram um chá e foram deitar. Cada um envolto em seus pensamentos de compaixão, orou por ela com um sentimento sincero.
Passaram-se dois meses sem nada acontecer. D. Guiomar teve que ir para sua casa resolver algumas pendências. Rute já não sentia tanto medo de ficar sozinha com Guilherme. Estava mais confiante e não se esquecia nunca de orar pela jovem.
Numa noite, acordou e foi olhar se o filho estava coberto. Ajeitou as cobertas carinhosamente e deitou-se novamente. Nisso, seu olhar foi atraído para a direção da porta do quarto. Lá estava ela. Já não chorava, apesar do olhar tristonho. A moça olhava para ela e balbuciou alguma coisa que Rute compreendeu de pronto:
– Me perdoe.
Rute sentiu no peito a dor daquela mulher. Era uma dor profunda. Procurou devolver-lhe um sentimento de amor e compreensão.
– Não tenho nada a perdoar. Vá em paz e que Deus te abençoe.
A moça, lançando um olhar afetuoso para o bebê que dormia tranquilamente, virou-se para sair. Só então é que Rute percebeu que havia duas silhuetas levemente luminosas amparando-a. Entendeu, então, que ela fora levada até ali para se despedir e também para deixá-la tranquila.
As três figuras desvaneceram-se.
Rute, tranquila, olhou mais uma vez para o seu bebê e sorriu. Deitou-se, fechou os olhos e murmurou:
– Obrigada, meu Deus!
Manoel, virando-se, sonolento, perguntou:
– O que você disse, meu bem?
– Nada, querido. Volte a dormir. Está tudo bem.
Abraçou-se a ele e adormeceu.



