Autor: Rogério Miguez
A arte de bem falar tem maravilhado o homem. Oradores inspirados conseguem arrebanhar multidões, envolvendo-as em suas bem articuladas ideias, adornadas por palavras e frases de efeito. Usam o verbo com tamanha emotividade e sentimento que conseguem elevar o estado da alma daqueles que os ouvem à patamares inconcebíveis.
Pelo discurso correto e bem articulado, podem conduzir o homem a sentir em seu interior as labaredas do inferno e, num átimo, conduzi-los às delícias do céu.
Talvez o veículo mais popular para se estabelecer um canal de intercâmbio entre os homens, de modo a que se entendam e comuniquem.
Dádiva de Deus, ofertada indiscriminadamente a todos, embora muitos não percebam tal realidade, atravessando a existência alheios às joias contidas neste tesouro de inigualável valor: o dom da fala.
Por não notarem que o poder da fala é uma demonstração inequívoca da bondade do Criador às suas muitas criaturas, invejam àqueles que sabem bem se articular na defesa de suas propostas e ideais, deixando passar indolentes as águas do tempo em seus rios de oportunidades oferecidas pelo Magnânimo, calando-se, sem saber como desenvolver o potencial da fala.
Outros, mais ingratos, questionam a Deus por qual razão não foram também aquinhoados, ao nascer, pela virtude da oratória, iludidos que estão sobre os imensos esforços despendidos por todos os que hoje sabem manejar bem as palavras.
Para se dominar uma virtude é preciso exercitá-la, aos poucos, sem sobressaltos, por existências à fio, até que, ao final, o indivíduo também se veja como um virtuoso no uso do verbo edificante.
E como temos a exercitar!
Basta observar ligeiramente as conversações que se estabelecem no cotidiano, no ambiente de trabalho, nas rodas sociais, nas filas do comércio, para entender de imediato por qual razão não sabemos ainda manipular as palavras para bem nos expressarmos.
Quantas palavras lançadas ao léu. Se no plano espiritual houver um contador de palavras articuladas por cada um ao longo de sua existência, o resultado será estarrecedor, quando se filtrarem as boas das más palavras pronunciadas durante o decorrer de uma reencarnação. As últimas, seguramente, serão de longe as campeãs.
Sim, é preciso atentar, cuidadosamente, como temos usado o verbo – para que e por quê -, examinando o sentido, o modo e a direção do nosso falar antes de emitir os pensamentos, vestidos de palavras. Como a conversa indica o nível de nossa posição evolutiva, é imperioso aprimorá-la e enobrecê-la.
E mais, segundo a definição espírita de trabalho, este se caracteriza por representar qualquer ocupação útil. Vicente, amigo de André Luiz, assim se expressou no plano espiritual: “– Nosso orientador – explicou-me Vicente, solicito – considera trabalho útil toda conversação sadia que nos enriqueça os conhecimentos e aptidões para o serviço. Pelas nossas palestras construtivas, portanto, receberemos também a remuneração devida à cooperação normal.”1
Por conta dos maus discursos, a humanidade vem catalogando incontáveis guerras, inúmeros conflitos sociais, acerbaram-se os preconceitos, incentivou-se a violência…
Uma das principais partes no aparelho fonador, responsável pela articulação das palavras, é a pequenina língua, órgão que pode ser visto como modesto leme a guiar o que saí de nossas bocas, direcionando frases com o poder de construir ou destruir.
Infelizmente, em raras ocasiões é usada para consolar, edificar, apaziguar, comunicando a tão desejada esperança, naqueles que as ouvem.
Por meio dela, é possível: combater a ignorância, apontar caminhos seguros a trilhar, abrandar os muitos sofrimentos, modificar a atmosfera psíquica dos que ouvem, construindo imagens positivas sobre as questões do dia a dia, confortar pelo esclarecimento os tantos desesperados dos dois planos da existência, substituir tristezas e lágrimas pelo sorriso calmante e estimulador, apagar a ligeira tempestade emotiva prestes a transformar-se em incontrolável dilúvio, iluminar consciências com as luzes da verdade.
Sobre a verdade, é apropriado lembrar que, conforme Emmanuel, ela se assemelha ao diamante. Oferecido a uma moça, pode ser transformada em joia que realce a sua beleza; ofertado a um pobre irmão enfermo, pode ser trocado por dinheiro para compra de remédio e alimento. Contudo, em uma hora de descontrole moral, se arremessado à face do interlocutor, pode provocar vergonha e inquietação íntima naquele que a recebe. Então, a verdade deve ser dosada. Não deve ser dita nua e crua, senão, ao invés de bem, fará o mal.2
Por outro lado, de modo geral, ela está sempre pronta a: amaldiçoar, excitar, disputar, deprimir, agredir, enxovalhar, acusar, ferir impiedosamente, fazendo, em consequência, surgir o desalento, as rixas e as incontáveis discórdias.
O seu poder para o bem é imenso, contudo, é usada frequentemente de forma mesquinha, pequena, às vezes tirânica, espalhando dúvidas sobre tudo e todos.
Quando desviada para a calúnia, intriga, malícia e maledicência, atinge graus de hediondez inimagináveis, com pesadas cotas de resgates futuros para todos os portadores da conversação ferina.
De outra forma, a palavra doce, suave, branda, desinteressada, honesta, esclarecedora, ajuda imensamente a criar nobres valores naqueles que as escutam, daí a importância de seu uso adequado nas preleções e conferências tão em voga no movimento espírita. A propósito, neste particular campo de atuação, o verbo deve ser usado na medida exata da compreensão dos ouvintes, nem mais, nem menos, sob pena de confundi-los, sempre baseando os ensinos nos justos princípios espíritas.
Ainda dentro da seara espírita, especial atenção devem ter os antigos doutrinadores, agora esclarecedores, nobres trabalhadores das reuniões de desobsessão, tão benéficas aos moradores do invisível. Ao conversar com os chamados mortos, especial atenção, pois eles muitas vezes nos acompanham e sabem o que fazemos fora das instituições espíritas. Desta forma, durante o delicado momento do diálogo com as sombras, elas podem surpreender-nos, contra-argumentando conosco, apontando condutas inadequadas por parte dos integrantes da reunião fora do ambiente de trabalho mediúnico.
E, se observarmos estes chamados tempos modernos, a surpresa é imensa quando notamos, enraizado no meio social, tal qual erva daninha, o costume de mentir descaradamente, sem qualquer critério, de forma sistêmica, sem nenhum freio, tudo em nome da máxima: os fins justificam os meios.
Triste realidade, quando se nota mesmo entre os espíritas o cultivo deste hábito infeliz.
Há algum tempo, ainda imersos nas incertezas provocadas pela pandemia de Covid-19, circulou uma mensagem no meio espírita, pela palavra escrita, informando os muitos seguidores de Allan Kardec que naquele único dia permanecessem, à noite, às 23h, em suas residências, pois Adolfo Bezerra de Menezes – o Médico dos Pobres – iria ter com cada qual para imunizá-los contra os efeitos devastadores do vírus. Este comunicado tinha por patrono da proposta conhecida casa espiritualista, certamente escolhida para dar crédito ao estapafúrdio convite. Contudo, consultando à época o portal da referida e séria instituição, lá se encontrava um aviso de que não foram os idealizadores do comunicado. Tratava-se de mais uma caso das conhecidas fake news.
O bom uso da palavra é tão importante que Emmanuel, amigo e anjo da guarda do médium uberabense Chico Xavier, era muito exigente na questão do trato com os outros ao longo do desempenho da tarefa deste médium educador. Emmanuel explicou que no trato com o próximo, a luz do Evangelho de Jesus deve ser sempre comunicada de quem fala para quem ouve. A partir desta orientação, toda vez que Chico conversava com qualquer pessoa em voz áspera, com impaciência, agressividade, anotações de maledicência ou azedume, ele deixava passar os momentos infelizes do diálogo e, depois, principalmente quando o médium se recolhia para meditações e preces da noite, ele o reprendia severamente, lamentando as suas faltas.3
É certo: por hora, desconhecemos a arte de falar.
Entretanto, pelo dom da fala podemos retirar incontáveis pérolas deste tesouro oculto que Deus nos oferece hoje, e no futuro também, caso soubermos usá-lo a contento.
O mau uso sistemático na emissão de palavras torpes e doentias, manchadas pelo veneno do coração desequilibrado, impregnadas do ódio e da cólera oriundos de uma mente doentia, cria, ao longo do tempo, condições determinantes para que o indivíduo, em futuro próximo, reencarne com anomalias características no aparelho fonador que traduzem, inequivocamente, a contaminação do perispírito do reencarnante, por conta de fluidos maléficos emitidos de forma continuada pelo portador desta dádiva divina, em existências pretéritas.
É próprio lembrar que as boas conversações devem sempre ser acompanhadas por uma vida de igual teor, com exemplos consoantes à boa fala, sob pena de se perder, pelo mal viver, o ensino dito apenas da boca para fora:
“Fala pouco. Pensa muito.
Sobretudo, faze o bem.
A palavra sem ação.
Não esclarece a ninguém.”4
Muito pertinente observar que pela oração, por meio de palavras ditas com serenidade, resignação e obediência, entramos em contato com nosso anjo guardião, conversamos com ele, de modo a melhor receber boas intuições e inspirações tão necessárias nestes tempos turbulentos, caracterizando esta particular humanidade.
Há milênios possuímos imenso manancial de modelos de como bem usar as palavras. Basta consultar os Evangelhos e colher, deste perfumado jardim de ensinos, as melhores flores, ofertando-as, pelo uso ponderado do verbo, a todos aqueles que conosco interagem. Afinal, a palavra de Jesus – o Verbo Divino – sempre foi de luz e de amor. Quem se consagrar ao estudo e meditação das palavras do Cristo, certamente abrirá a porta do coração a novas a alentadoras claridades.
E, quando a noite for chegando, e a hora do descanso do corpo se fizer necessária, reflitamos: “Terei neste dia bem utilizado a minha língua, do mesmo modo que Jesus utilizou a d’Ele quando por aqui esteve?”
Referências
1 XAVIER, Franciso C. Os mensageiros. Pelo Espírito André Luiz. ed. 16. Brasília/DF: FEB. 1983. Advertências profundas. cap. 6.
2 GAMA, Ramiro. Lindos casos de Chico Xavier. ed. 15. São Paulo: LAKE. 1987. A Verdade e como o Diamante. cap. 90.
3 BARBOSA, Elias. No mundo de Chico Xavier. Edição Calvário/São Paulo, 1968. cap. 5. item 14.
4 XAVIER, Francisco C. Cartas do Evangelho. Pelo Espírito Casimiro Cunha. Carta aos crentes novos.



