Autora: Teresinha Olivier
Estava um pouco atrasado.
Chegou ao hospital meia hora depois do que havia se programado. A cirurgia seria bastante delicada e ele deveria estar preparado, antes de operar dona Rute, uma senhora muito simpática que, apesar do problema sério de saúde, não se deixava abater. Estava sempre sorrindo e otimista.
Mas a mente dele era um turbilhão. Não se sentia nem um pouco preparado emocionalmente para a delicada e demorada cirurgia que iria fazer dali a pouco.
Enquanto se trocava, lembrava-se da conversa conturbada que tivera com a esposa naquela manhã. Ela descobrira o seu caso com Lídia, a enfermeira mais bonita e mais cobiçada do hospital. Havia alguns meses que saía com ela e sentia-se lisonjeado com a atenção e admiração de uma bela e jovem mulher.
Mas a esposa ficou sabendo por terceiros e descarregou sobre ele toda a sua mágoa e revolta, chegando a exigir-lhe a separação.
Ele não sabia definir os seus sentimentos. Por um lado, não conseguia imaginar sua vida sem a esposa e os filhos. Amava-os profundamente. Por outro lado, estava como que fascinado com a beleza e sensualidade de Lídia, e sabia que não seria fácil viver sem as emoções que ela lhe proporcionava.
Lídia era uma das enfermeiras que auxiliariam na cirurgia. Aproximou-se dele e, discretamente, segurou a sua mão. Ele esquivou-se e disse-lhe baixinho:
– Precisamos conversar. Estou com um problema muito sério. Marlene descobriu tudo e quer a separação.
– Mas isso não vem facilitar as coisas para nós? – Disse ela à meia voz.
– Não é tão simples assim, Lídia. Não sei se quero a separação.
Ela percebeu que o sentimento dele para com ela não era tão sólido como pensava. Sentiu a insegurança da sua situação.
A cirurgia começou. Ele procurou se concentrar e deixar de lado, naquele momento, os seus problemas pessoais. Mas, a todo instante, quando seus olhos cruzavam com os de Lídia, via neles preocupação e ansiedade e isso o incomodava e entristecia.
A cirurgia demorou algumas horas, como previsto. Num determinado momento, quando seus assistentes iniciavam a sutura, ele olhou para Lídia e havia lágrimas em seus olhos. Ela foi para a sala ao lado e ele a seguiu. Procurou confortá-la, falando baixinho e enxugando carinhosamente suas lágrimas.
– Não fique assim. Você sabe que eu gosto muito de você. Hoje à noite darei um jeito de nos encontrarmos, está bem?
Ela ficou mais esperançosa. Sorriu e voltaram para os procedimentos finais da cirurgia de dona Rute.
Algumas horas depois, tempo suficiente para que passasse o efeito da anestesia, ele foi até o quarto da sua paciente recém-operada.
Ela estava acordada e, quando o viu, abriu um sorriso cativante.
– Olá, Doutor!
– Olá, dona Rute, como está se sentindo?
– Estou me sentindo bem, doutor, somente com um pouco de tontura.
– Isso é normal e logo vai passar. Deixe-me examiná-la.
Depois de feito os exames e constatar que seu quadro era muito bom, ele ia sair, quando ela lhe disse:
– Doutor, eu gostaria de conversar um pouquinho com o senhor. Será que o senhor tem uns minutinhos?
Meio contrariado, ele assentiu. Não podia se recusar. Não para a dona Rute e muito menos depois dela passar por um procedimento cirúrgico tão sério. Procurando esquecer um pouco os seus conflitos íntimos, disse:
– É claro, dona Rute. Tenho todo o tempo para a senhora. Sobre o que gostaria de conversar? Alguma dúvida sobre a cirurgia?
– Não é sobre a cirurgia propriamente dita. É sobre algo que aconteceu durante ela, algumas coisas que eu presenciei enquanto o senhor me operava.
– Mas, dona Rute, o que a senhora poderia ter visto, se ficou o tempo todo sob o forte efeito da anestesia geral? – Ele retrucou, batendo carinhosamente em sua mão.
– Eu não sei explicar o que ocorreu, doutor, mas eu vi algumas coisas!
Ele puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama e, segurando a mão da dona Rute, começou a falar, procurando tranquilizá-la:
– Sabe, dona Rute, a anestesia pode provocar reações químicas no cérebro, e algumas imagens se reproduzem nesse nosso órgão tão sofisticado, e a pessoa pode reter algumas dessas impressões. Mas elas vão se apagando, na medida em que a pessoa vai se recuperando dos efeitos da anestesia. Não se preocupe, isso é perfeitamente normal e passageiro.
– Ah! Entendi, doutor.
– Ótimo! Mais alguma dúvida? – Disse já se preparando para sair.
– Tem mais uma coisa que eu não estou entendendo, doutor.
Ele sentou-se novamente para ouvir.
– É que num determinado momento, eu me senti no alto e num dos cantos da sala. Eu via todos vocês de cima e via também o meu corpo deitado e vocês todos em volta. Como pode ser isso, doutor?
Ele ficou sem saber bem o que responder, nunca tinha se deparado com uma experiência desse tipo, mas, como médico tinha que falar alguma coisa.
– Isso também pode ser a reação química da anestesia sobre o cérebro, criando uma imagem na sua mente. A senhora não podia ver nada, estava totalmente inconsciente.
– Mas, doutor, se eu estava inconsciente e não podia ver nada, como que eu pude ver o senhor dar uma ordem a um enfermeiro alto e moreno que, em seguida, trouxe para a sala um aparelho grande com uns fios coloridos? Isso aconteceu mesmo, não é doutor?
Ele ficou mudo, olhando para aquela senhora que estava trazendo questões que ele, com todo o seu estudo acadêmico, não sabia responder. De fato, as coisas se passaram da forma como ela estava descrevendo, mas, naquele momento ela não poderia ter visto nada! Ele não sabia o que pensar e muito menos o que dizer.
Já havia lido algumas coisas referentes a essas experiências, mas nunca deu muita importância a esses fatos. Considerava-se racional e achava essas coisas frutos da imaginação, e o médico que demonstrasse atenção a isso corria o risco de ser desacreditado pela classe.
Dona Rute tirou-o dos seus questionamentos mentais:
– Tem mais uma coisa que eu vi, doutor.
– Mais ainda, dona Rute? O que foi?
– Teve uma hora que aquela enfermeira bonita saiu da sala e o senhor foi atrás. Eu não sei por que, alguma coisa me fez ir também. E eu vi que ela estava chorando e o senhor a consolava e enxugava suas lágrimas. Por que ela estava chorando, doutor?
Ele não conseguiu disfarçar o abalo que sentiu, o que não passou despercebido pela senhora.
Ele apenas conseguiu dizer, gaguejando:
– Ela está com problemas pessoais e eu procurei acalmá-la.
Mas a dona Rute era uma mulher bastante experiente e sensível. Debaixo de uma aparência meiga e simples, estava um Espírito muito observador e intuitivo. Percebeu o drama que se passava no coração do doutor. Agora era ela que batia carinhosamente na mão dele, dizendo:
– Sabe, doutor, muitas vezes, em nossas vidas, passamos por crises muito difíceis. E nessas crises temos que fazer escolhas, tomar decisões. E cada escolha que fizermos ou cada decisão que tomarmos provocarão consequências que se refletirão em nossas vidas, mais cedo ou mais tarde. A sabedoria está em fazermos as escolhas certas.
Ele ficou olhando para aquela mulher, admirado com a sabedoria que ela revelava possuir. Compreendeu perfeitamente aquelas palavras carinhosas e sábias. Despediu-se de dona Rute, beijando-lhe a mão e saiu.
Andando pelos corredores do hospital, pensava em tudo que acontecera, mas, o que mais ficou em sua mente foram as palavras de dona Rute sobre escolhas e decisões. Aquilo, realmente calou fundo em sua alma, porque sentiu que aquele era um momento decisivo para o seu futuro e o futuro de outras pessoas.
Pensou em sua esposa, sempre dedicada e amorosa, preocupada com a família, pensou nos filhos queridos e pensou em Lídia, com a sua juventude e beleza que o estava envolvendo cada vez mais.
Sabia que teria que tomar uma decisão e esse era o momento. Não podia deixar passar mais tempo, mesmo porque, pela atitude de Marlene, ele não teria tempo para indecisões. Ela fora taxativa. Não toleraria uma situação como essa.
Estava imerso em seus pensamentos, quando sentiu ao seu lado a aproximação de Lídia. Ela segurou seu braço e disse discretamente:
– Estarei esperando por você hoje à noite. Está bem?
Ele ia dizer que sim, mas lembrou-se da esposa e dos filhos e imaginou como ficaria sua situação no lar, se não chegasse cedo para conversar com Marlene.
Sentiu um aperto muito forte no peito só de imaginar a possibilidade de não encontrar sua mulher e filhos ao chegar em casa. Sentiu subitamente uma ansiedade muito grande em voltar para casa. Olhou para Lídia, segurou em seus ombros e disse num só fôlego:
– Lídia, eu peço perdão por ter alimentado em você a ideia de que eu poderia me separar da minha esposa. Isso é impossível. Eu a amo e não posso viver sem ela e os meus filhos. Mais uma vez peço desculpas. Eu gosto de você. Você é uma pessoa maravilhosa, mas eu não a amo. O que sinto por você é uma atração e uma admiração muito grandes. Mas isso não é suficiente para um relacionamento duradouro. Perdoe-me, Lídia. Seja feliz.
Dizendo isso, saiu correndo.
Dirigiu o mais rapidamente que pôde. Desejava desesperadamente encontrar a esposa e conversar com ela, pedir perdão e outra oportunidade. Não poderia de forma alguma jogar fora o que eles dois haviam construído até agora.
– E se ela tiver ido embora? O que vou fazer? – Pensava angustiado, enquanto dirigia no trânsito caótico. Acelerava o mais que podia, mas parecia que o trânsito estava mais lento que de costume.
Chegou depois do que lhe pareceu uma eternidade. Entrou em casa quase correndo, ofegante. Encontrou a esposa sentada no sofá da sala, na penumbra. Sentiu um alívio.
– Marlene! – Disse ele, aproximando-se devagar – precisamos conversar.
Sentou-se ao seu lado e começou a falar. Não sabe o quanto tempo falou, mas abriu seu coração com a maior sinceridade possível. Ela que estava de cabeça baixa até então, levantou os olhos para ele e abraçou-o chorando.
– Eu tive tanto medo de que tudo estivesse acabado – disse ela entre soluços.
– Não, meu amor, nunca! Eu a amo demais e quero estar sempre com você.
Ficaram ali abraçados por muito tempo.
De madrugada estava acordado e pensando. Pensava em tudo o que acontecera naquele dia. Pensava em dona Rute e em suas “visões”, que na realidade o haviam ajudado a encontrar um caminho.
Ele sempre fora materialista e nunca acreditou que no ser humano houvesse algo além da matéria, mas aquele fato perturbador abalava profundamente suas convicções.
Algo muito importante acontecera e ele estava disposto a procurar a explicação.



