A fascinação pelas armas

Autor: Rogério Miguez

Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; aquele que matar terá de responder no tribunal

Mt, 5:21

“Premiê do Canadá anuncia projeto para congelar compra de armas de fogo.”1

Esta é uma das manchetes de conhecida rede internacional de notícias sobre a intenção do chefe de estado canadense restringir ao máximo a circulação de armas em seu país: “No dia em que esta legislação entrar em vigor, não será mais possível comprar, vender, transferir ou importar armas de fogo no Canadá”, afirmou Justin Trudeau, enfático aos repórteres, exatamente dias após novo massacre ocorrido no país que mais defende a democracia, contudo, é o maior fabricante e vendedor de armas no mundo, os Estados Unidos da América do Norte.

O Canadá já tem restrições à posse de armas significativamente mais fortes do que seu vizinho e pretende apertar o cerco ao comércio de armas, pois entende que: “Além de usar armas de fogo para tiro esportivo e caça, não há razão para que alguém no Canadá precise de armas em suas vidas cotidianas”, disse Trudeau a repórteres em entrevista.

Graças ao Bom Deus, o premiê canadense possui senso pacifista mais apurado do que outros líderes americanos. Apenas três dias após o recente massacre em Uvalde, Texas, em 24 de maio último, que chocou mais uma vez o mundo, a famigerada NRA – National Rifle Association (Associação Nacional do Rifle) poderoso braço do lobby de armas nos EUA, realizou mais uma convenção no Texas e disse que iria “refletir” sobre o massacre na escola.2

Estas notícias – uma promissora, outra preocupante – surgem dos irmãos do hemisfério norte. E por aqui, no hemisfério sul, o que tem acontecido?

Mais uma vez, poucos segmentos da sociedade brasileira elegeram, lamentavelmente e inesperadamente, a aquisição de armas para materializar a tão desejada paz e tranquilidade de espírito em suas atribuladas existências.

Não é de fato surpreendente!!!

Entretanto, o que causa mais perplexidade é saber que seguidores da Doutrina Espírita – em consequência, supostos cristãos – apoiam esta estapafúrdia proposta, comprando, por sua vez, armas com o intuito de fazer justiça com as próprias mãos.

É de arrepiar os cabelos – de quem ainda os tem, claro!

Buscando ser cristão, o espírita deveria sempre lembrar-se de Jesus ao orientar Pedro, que, mesmo ferindo o servo do sumo sacerdote – Malco -, em defesa de seu próprio Mestre, orientou-o a guardar a espada pois quem fere com a espada com a espada será ferido, confirmando o basilar princípio da lei de causa e efeito.

Além de Jesus, o exemplo máximo de pacificação, podemos lembrar muitos outros pacifistas, tais como a Grande Alma – Mahatma Gandhi – e Francisco de Assis – o franguinho preto.

O título escolhido, não foi ao acaso – aliás, todo espírita deveria estar convicto de que o acaso não existe. A expressão fascinação pode explicar, em parte, por qual razão um espírita deseja armar-se para defender-se dos chamados “perigos” do mundo.

Muito de nós já estivemos envolvidos em guerras e conflitos ao longo de nossas trajetórias. Manuseamos incontáveis armas, de todos os tipos. Dando vazão à nossa índole belicosa, característica de um mundo de provas e expiações, já devemos ter abreviado existências de incontáveis irmãos e, também, já podemos ter tido existências passadas abreviadas por outros irmãos, em um verdadeiro turbilhão de crueldades e violências. Explicando inclusive por qual razão há povos que parecem perseguir-se em uma espiral sem fim, pois, inimigos de outrora, mantém a nível inconsciente o rancor pela outra nação.

Estas infelizes experiências – basta observar quantas guerras já aconteceram -, não há dúvida, nos marcaram profundamente e muitos, até o momento, possuem este lado sombrio incorporado à sua personalidade e caráter.

Assim, ao vislumbrar a possibilidade de, mais uma vez, usar um instrumento de morte, “legalmente” apoiado por leis e decretos humanos, quem sabe, fascinados por instintos ainda egoístas e pelo orgulho, têm reminiscências de passado reavivadas, buscando novamente, armar-se, como faziam anteriormente para defender a família, a propriedade e a tradição.

Há também aqueles apanhados pelo segundo mecanismo definido sobre as obsessões: a fascinação espiritual.

Não há a menor sombra de dúvida que Espíritos obsessores podem sugerir ao incauto e indisciplinado encarnado a aquisição de uma arma, fortalecendo esta sugestão ao reavivar na mente da vítima as muitas possibilidades de violência com que somos obrigados a conviver hoje em sociedade. Formando imagens repetidas na mente do obsidiado, podem induzir o indivíduo a armar-se, na suposta certeza de que, assim o fazendo, estará preparado para o que der e vier.

E mais, na raiz do problema estão os obsidiados que inventam estas leis e decretos absurdos atendendo às suas belicosas índoles, fortalecidas pelos violentos do lado de lá.

É de se notar que ao usar uma arma para matar um delinquente ou contraventor, justificativa usada para sua aquisição aplicamos a pena de morte sumariamente, sem julgamento, sem defesa, apenas para satisfazer a nossa sombra.

Contudo, se estes assassinos em potencial soubessem que ao matar o alegado inimigo eles não se livram do problema, pois agora estes supostos mortos estarão livres para agir como desejarem, muitos obsidiando sem dó nem piedade seus algozes terrenos, pensariam muitas vezes antes de puxar o gatilho.

Se continuarmos neste ritmo, em breve algum tresloucado e obsidiado proporá o porte indiscriminado de armas de fogo, como já é permitido no Texas.3 Tal medida tem o potencial de recuperar o triste costume do duelo, que passaria novamente a ocorrer, agora nas ruas e avenidas, caso diferenças do cotidiano não pudessem ser resolvidas através do diálogo.

A esse respeito, Allan Kardec, ao discorrer sobre os duelos, registrou que o Espiritismo apagaria os vestígios da barbárie, incutindo nos homens o espírito de caridade e de fraternidade.4

A violência que nos caracteriza é fruto de nossas próprias ações do passado, representam um estado passageiro de desequilíbrio e, se estamos aqui, é porque precisamos vencer desafios como este.

Tenhamos a certeza de que não há nada cristão na conduta de armar-se para matar o nosso próximo. Agindo assim, estamos andando para trás em matéria do controle da violência.

A propósito, quem sabe em curto espaço de tempo, em futuro não muito distante, Trudeau e seus conterrâneos decidam também por banir definitivamente de sua organizada sociedade a posse de armas visando à caça dos animais irracionais, prática exclusivíssima visando ao puro deleite de uns poucos Espíritos ainda notadamente inferiores, que até agora trazem as marcas dos tempos medievais em suas individualidades. Um costume marcantemente bárbaro do ponto de vista das leis divinas e do amor ao próximo, seja de qual reino for.

Como iniciamos falando de ensinos do Rabi da Galileia, terminamos recordando outro ensinamento antiquíssimo. Relembremos uma vez mais: “Bem-aventurados os mansos porque herdarão a Terra” (Mt. 5:5), e, se a nossa memória não nos trai, esta profecia não foi também revelada pelo Cristo de Deus!?

Referências

1 Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/premie-do-canada-anuncia-projeto-para-congelar-compra-de-armas-de-fogo/

Acesso em 31/05/2022

2 Disponível em: https://tudo-sobre.estadao.com.br/nra-associacao-nacional-do-rifle

Acesso em 31/05/2022

3 Disponível em:https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/texas-aprova-lei-que-elimina-necessidade-de-licenca-para-portar-armas-em-publico/

Acesso em 31/05/2022

4 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília/DF: FEB. cap. XII. it. 16.

A DOUTRINA DATRANSFORMAÇÃO MORAL

veja também