Dito pelo não dito

Autor: Joelson Pessoa

“O chacra laríngeo é uma rosácea de algumas pétalas que, colorido, irradia força, luz, paz, esperança e coragem, quando emite palavras bem ditas. Mas a palavra tem sido tratada como a mais vil e abjeta das criaturas da Terra, pior que uma prostituta. Elas tem sido violada no seu direito de estar inteira, íntegra, dizendo aquilo que é” – Eurípedes Barsanulfo – Palavra Nossa de Cada Dia – Cap. IV

Que a minha e a sua palavra sejam melhores que o nosso silencia.

Se não temos nada de bom a acrescentar, é sábio calar-nos.

A palavra oral foi uma das primeiras faculdades que a humanidade conquistou ao emergir da brutalidade primitiva, e desde então vem sendo desenvolvida na esteira do progresso intelectual das civilizações.

A arte da comunicação oral, a oratória, alcançou notável progresso técnico com os oradores da Grécia antiga, cujo maior expoente foi Demóstenes (384 a 322 A.C). A oratória é empregada para a comunicação por artistas, políticos, líderes sociais, religiosos e até mesmo pelas pessoas comuns, nas tarefas do dia-a-dia.

Com Jesus, porém a palavra além de encantar, curou as almas, iluminou as consciências, libertou os Espíritos e transformou as sociedades ocidentais. Tão poderoso foi o seu verbo que talvez você nunca tenha escutado falar no orador Demóstenes, mas o mundo inteiro já ouviu algo de maravilhoso sobre o Cristo. Este instante em que eu me ocupo em escrever, e você amigo leitor, em ler, é uma consequência da breve passagem de Jesus pela Terra.

Conforme a advertência do Espírito Eurípedes Barsanulfo, em nosso trecho de apoio acima, tão antiga quanto a prostituição do sexo, é a prostituição do verbo.

No macrocosmo é o verbo mal dito que declara guerra, quem vaticina as sentenças de mortes, quem anuncia as leis injustas, quem proclama contra o direito e a democracia, é ainda o verbo quem divulga as ideologias filosóficas, religiosas e políticas nefastas.

No microcosmo é através da palavra que fazemos promessas de amor jamais honradas, ofendendo corações inocentes; é através da palavra que conquistamos a confiança de um amigo, para decepcioná-lo posteriormente; é com a palavra que caluniamos ou perseguimos o alvo da nossa inveja; e é pela palavra que acusamos injustamente a vítima do nosso ciúme; empregamos o verbo para dissimular o que sentimos, para falsear o que pensamos, para iludir aquele a quem desejamos tirar algum proveito.

Ao falar mentiras, quase sempre prostituímos a palavra. E conforme esclarece o Espiritismo, não há uma única ação contrária às leis divinas, que não traga a sua consequência em certo espaço de tempo.

Dessa maneira devemo-nos preocupar com o bom ou mau uso que estamos emprestando ao nosso falar.

Já parou para pensar pro qual motivo teria a lei de justiça privado nesta encarnação milhões de homens e mulheres de se comunicarem “normalmente” pelo uso da palavra oral?

Você tem noção sobre os sofrimentos possíveis para aqueles que experimentam essa prova/ expiação (privação da comunicação oram)?

Eis algumas:

  1. Não ouvir e consequentemente não aprender a falar;
  2. Conviver num grupo restrito de pessoas com as mesmas dificuldades;
  3. Impossibilidade de comunicar-se livremente com os não surdos-mudos (maioria absoluta das pessoas);
  4. Sofrer preconceito devido à ignorância alheia;
  5. Estar privado de exercer muitas profissões;
  6. Sentimento de inferioridade e auto-estima baixa devido à revolta e não aceitação (de alguns) por vivenciar esta condição.

Como o nosso planeta constitui ainda um mundo de provas e expiações, evidentemente todos nós que pisamos o chão da Terra, estamos privados de alguma coisa (saúde, beleza, dinheiro, família, amor, paz, maternidade-paternidade, liberdade” intelectual, física ou de expressão”, oportunidade “estudo, trabalho ou alegrias diversas”, etc.) e a nossa doutrina nos orienta que somos corrigidos naquilo em que nos excedemos, quase sempre aquilo que nos falta para completar a nossa felicidade é precisamente o tesouro que já tivemos e fizemos mau uso dele anteriormente.

Ou seja, algo nos é ‘proibido temporariamente’ para que possamos reconhecer na pela o valor daquilo que nos falta, o quanto dói semelhante privação, e, para que o silêncio de nossas meditações, possamos prometer para nós mesmos que ao recuperar tal condição, iremos exercê-la com dignidade, para o bem e para o belo.

Diante destas perspectivas, convém refletirmos honestamente sobre a utilidade do que comunicamos:

Têm sido a minha palavra um veículo de mensagens construtivas?

O que eu falo destaca o bem no outro? O que eu comunico é verdadeiro? Minhas palavras representam os meus melhores sentimentos? Minhas palavras espelham realmente as minhas ideias? Agradeço e desculpo-me em todas as situações em que tais gestos são requisitados? Oriento e dialogo sempre que sou solicitado? O que predomina em minhas abordagens: ironia, agressividade, arrogância ou  simplicidade, doçura e autenticidade?

Para pensar: se lhe fosse suspenso o dom de falar, que prejuízos isso realmente lhe traria? O mundo sentiria essa perda?

Para você compreender a importância desta questão, pensa na falta que faria se não pudesse falar: (seu cantor preferido, sua melhor professora, o palestrante que você mais gosta de ouvir, a pessoa que você mais gosta de trocar ideias, etc).

Então, já pode avaliar com justiça se você vem empregando com utilidade a sua comunicação oral?

Mentir, ofender, caluniar, praguejar, iludir, chantagear, omitir, agredir, dissimular, denegrir, acusar, enganar, trair, humilhar, destruir, matar, deprimir, debochar, mau-dizer e desamar são ações manifestas no falar e que nos afastam do Caminho, da Verdade e da Vida.

Aconselhar, reanimar, incentivar, instruir, construir, educar, liderar, cantar, encantar, agradecer, perdoar, apaziguar, orientar, bem,-dizer, trabalhar e amar são ações que aguardam no seu e no meu falar preciosos meios de se manifestarem.

Medite e faça a sua escolha.

Você tem algo a dizer?

Fala MEU! Edição 82, ano 2010

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