Divindade emergente

Autor: Rogério Coelho

Uma vez purificada, a Alma se liberta da roda dos nascimentos

O propósito da reencarnação é dar-nos oportunidade para aprendermos a transcender a condição humana 

Giordano Bruno

Viajando pela cultura oriental, concluiu Elizabeth C. Prophet[1]: “(…) ao longo da vida na Terra as Almas emaranham-se na ignorância, dor e sofrimento; criam laços cármicos que as obrigam a retornar continuamente em novos corpos. Um texto hindu compara o universo à uma roda à qual estão ligadas todas as criaturas sujeitas ao nascimento, morte e renascimento.

“Carma” em sânscrito significa ato, ação, trabalho ou obra. No Hinduísmo, o significado da palavra carma foi evoluindo até referir-se às ações que aprisionam a alma ao mundo da existência. “Assim como um fazendeiro ao plantar certo tipo de semente obtém uma determinada colheita, o mesmo acontece com as boas ou as más ações”, diz o Mahabharata, um texto épico hindu. Por termos semeado o bem e o mal, precisamos retornar para fazer a colheita.

O hinduísmo reconhece que as Almas se sentem felizes fazendo isto, vida após vida.   Desfrutam a vida na Terra com sua mistura de prazer, dor, sucesso e fracasso. Vivem, morrem e tornam a viver, provando o sabor agridoce do bom e do mau carma que semearam.  Mas existe outra senda para aqueles que estão cansados deste retorno infindável: a união com Deus. Cada vida, como explicou o novelista francês Honoré de Balzac, deve ser vivida para “(…) alcançar a estrada onde brilha a Luz. A morte marca etapas nesta jornada”.

Quando as Almas decidem retornar à sua origem, a sua meta é purificar-se da ignorância e das trevas. Esse processo pode levar muitas vidas. O Mahabharata compara o processo de purificação ao trabalho de um ourives que refina o seu metal, lançando-o sucessivamente ao fogo. Uma vez purificada, a Alma se liberta da roda do nascimento e une-se a Brahman, atingindo assim a “Imortalidade”.

Os budistas também veem o ciclo de renascimento como uma roda a que estamos presos até podermos quebrar as correntes cármicas. Siddharta Gautama (563 – 483a.C.), fundador do Budismo, começou a vida como hindu. Tomou emprestadas as ideias do hinduísmo sobre carma e reencarnação e desenvolveu-as.

O Dhammapada, um dos textos budistas mais conhecidos, explica o carma da seguinte forma: “(…) o que somos hoje provém dos nossos pensamentos de ontem, e nossos pensamentos atuais constroem a nossa vida de amanhã. A nossa vida é criação da mente. Se um homem fala ou age com uma mente impura, o sofrimento o segue assim como as rodas da carroça seguem os animais que a puxam… Se um homem fala ou age com uma mente pura, a alegria o acompanha como a sua própria sombra”.

Hoje a palavra carma está na moda como um substituto para destino. Mas a crença no carma não é fatalista. O carma, de acordo com os hindus, pode fazer com que a pessoa nasça com certas tendências ou características, mas não a obriga a agir de acordo com estas características. O carma não nega o livre-arbítrio. Cada pessoa “pode seguir a tendência que criou ou lutar contra ela”, como explica a Sociedade Vedanta, uma organização que promove o hinduísmo no Ocidente.

Lemos na Enciclopédia de Filosofia e Religião Orientais. “o carma não é determinista”os atos realmente determinam como o indivíduo renascerá, mas não são as suas ações.  O carma determina a situação, não a resposta à situação”.

O Budismo concorda com esse conceito. Buda ensinou que a compreensão do carma nos dá a oportunidade de mudar o futuro. Para ele, a crença no determinismo era a mais perigosa de todas as doutrinas. “Em vez de nos entregarmos a um destino irreversível” – ensinava ele -, “a reencarnação permite-nos agir hoje para mudar o futuro”. 

O Dhammapada explica: “(…) assim como um homem que volta de uma longa viagem é recebido com alegria por seus parentes e amigos, as boas obras de um homem em uma vida recebem-no na vida seguinte, com a alegria de um amigo recebendo outro amigo que retorna”.

Segundo os hinduístas e budistas, o nosso carma exige que continuemos a reencarnar até alcançarmos a união divina. Essa união com o Atman – segundo eles -, pode ocorrer em etapas enquanto estamos vivos e tornar-se permanente depois da morte.

Os cristãos primitivos reencarnacionistas podem ter recebido do hinduísmo algumas de suas ideias sobre a reencarnação.  Também eles acreditavam que a Alma contém uma parte de Deus, uma semente ou centelha, e que tem o potencial para integrar-se com esta centelha e tornar-se Deus.   Também acreditavam que tornar-se Deus é um processo gradual.

O que teria – mais tarde – causado o cisma entre os cristãos no que respeita à reencarnação? Entendemos que o confronto entre os reencarnacionistas e cristãos ortodoxos tornou-se inevitável, devido às suas visões divergentes sobre o mundo. Os ortodoxos eram literalistas; tinham crenças que muitos cristãos de hoje consideram inaceitáveis. Por exemplo: acreditavam que o Jardim do Éden era um local real na Terra.

Os reencarnacionistas, por outro lado, raramente interpretavam a Bíblia literalmente.   Buscavam símbolos ocultos.  Para eles, o Éden não era um local histórico, mas um estado eterno em que as Almas faziam parte de Deus. As Almas, de alguma forma, perderam este estado e foram colocadas na Terra para recuperá-lo. Como o corpo humano é finito e fraco, os reencarnacionistas acreditavam que as Almas poderiam precisar de mais de uma vida para completar este processo.   Para eles, a ideia de reunião com Deus caminhava de mãos dadas com a ideia da reencarnação.

Os reencarnacionistas viam Jesus como um homem que nos mostrou a forma de nos unirmos a Deus.  Os ortodoxos, ao contrário, viam Jesus como alguém completamente diferente de nós – para ser adorado, não emulado. Embora ensinassem que os cristãos deveriam imitar as admiráveis qualidades humanas de Jesus, como a humildade e a bondade, não acreditavam que os seres humanos tinham capacidade para se tornarem Filhos de Deus.

Vejo a todos como filhos de Deus que têm o potencial de tornar-se o Cristo, como fez Jesus. A cristicidade não é algo que apenas Jesus possui. É algo que Ele alcançou fazendo da vontade do Pai a Sua comida.

De Pitágoras aos místicos judeus medievais, dos professores gnósticos do século III, como Orígenes de Alexandria, vemos sempre o mesmo tema: oportunidade infinita igual a possibilidade infinita.Só areencarnação pode nos oferecer no tempo e no espaço a definitiva alforria espiritual.

Tornar-se “perfeito como perfeito é o Pai Celestial” conforme exortação de Jesus não é uma ideia que atrai a todos.  Muitos mesmo acreditam ser isso apenas uma utopia; e ademais, algumas pessoas estão felizes com a vida que levam. Sem embargo, a reencarnação também lhes oferece uma saída:  a oportunidade de continuarem a retornar à Terra até que estejam satisfeitas e prontas para buscar as formas de existências mais elevadas. Mesmo que estejam contentes com a vida, podem estar na estrada que conduz à união com Deus e não sabê-lo. Se alguma vez se sentiram parte do todo que é a vida, seja através de um sentimento de integração com a Natureza, com um ser amado ou com a humanidade, é porque já iniciaram esse processo”.

Com este excelente livro histórico de Elizabeth Clare Prophet podemos compreender que – provavelmente – os Apóstolos e discípulos de Jesus possuíam rudimentos do conhecimento da reencarnação provenientes da cultura hinduísta.  Daí a oportunidade da pergunta feita ao Mestre ante o cego de nascença: “Senhor quem pecou para que este homem nascesse cego?”

Jesus, ao Seu tempo só teve condições de esboçar palidamente a questão dos renascimentos na carne, porque até mesmo os considerados intelectuais da época tinham enormes dificuldades para entender isso, haja vista o episódio do Seu diálogo com o doutor Nicodemos.

Nos tempos atuais, a Doutrina Espírita, concretizando a promessa de Jesus acerca do “Consolador” ensina-nos “todas as coisas” de forma clara, objetiva e com fatos, inclusive e em especial a reencarnação e os mecanismos da Lei de Causa e Efeito.

Assim, vemos que somos os artífices do nosso destino e a Luz Divina ínsita em cada um de nós deverá emergir na medida em que o nosso livre-arbítrio for direcionado para as boas obras.

Referência

[1] – PROPHET, E. Clare. Reencarnação – O Elo Perdido do Cristianismo. 2.ed. Rio: NOVA ERA, 1992.

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