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História de um condenado

Revista Espírita, março de 1860

Sociedade, 9 de dezembro de 1859. – Primeira sessão

O senhor de Ia Roche, membro titular, comunicou o fato seguinte, que é de seu conhecimento pessoal: Numa pequena casa perto de Castelnaudary, havia ruídos estranhos e diversas manifestações que faziam olhá-la como assombrada por algum mau gênio. Por esse fato, ela foi exorcizada em 1848, e ali se colocou um grande número de imagens de santidade. Desde então, o senhor D…, querendo nela habitar, fez-lhe reparos, e, por outro lado, fez tirar todas as gravuras. Ele morreu subitamente, há alguns anos. Seu filho, que a ocupava nesse momento ou antes, que a ocupava ainda há pouco tempo, recebeu um dia, entrando num apartamento, uma vigorosa bofetada dada por mão invisível; como estava perfeitamente só, não pôde duvidar de que não lhe veio de uma fonte oculta. Agora não quer mais ali morar, e vai deixá-la definitivamente. Há, na região, uma tradição segundo a qual um grande crime teria sido cometido nessa casa.

São Luís, interrogado sobre a possibilidade de evocar o aplicador de bofetadas, respondeu que isto era possível.

O Espírito chamado se manifestou por sinais de violência; o médium foi tomado por uma agitação extrema, sete ou oito lápis foram quebrados, vários foram lançados contra os assistentes, uma página foi rasgada e coberta de traços insignificantes, traçados com cólera.

Todos os esforços foram improdutivos para acalmá-lo; instado a responder às questões que se lhe dirigia, escreveu com a maior dificuldade um não quase indecifrável.

1. (A São Luís.) Teríeis a bondade de nos dar algumas informações sobre este Espírito, uma vez que não pode ou não quer dá-las ele mesmo? – R. é um Espírito da pior espécie, um verdadeiro monstro; fizemo-lo vir, mas não pudemos constrangê-lo a escrever, apesar de tudo o que lhe foi dito; ele tem seu livre arbítrio. O infeliz dele faz um triste uso.

2. Faz muito tempo que está morto como homem? – R. Tomai vossas informações: Foi ele quem cometeu o crime, cuja lenda existe na região.

3. Que era quando vivo? – R. Sabê-lo-eis por vós mesmos.

4. Portanto, é ele que assombra essa casa agora? – R. Sem dúvida, uma vez que foi assim que eu vos fiz designá-lo.

5. Os exorcismos que se praticaram, portanto, não puderam expulsá-lo dela? – R. De nenhum modo.

6. Ele foi alguma coisa na morte súbita do senhor D…? – R. Sim.

7. De que maneira pôde contribuir para essa morte? – R. Pelo medo.

8. Foi ele quem deu a bofetada ao senhor D… filho? – R. Sim.

9. Poderia dá-la aqui em qualquer um de nós? – R. Mas, sem dúvida, e o desejo, para isso,
não lhe faltaria.

10. Por que não o faz? – R. Não lhe é permitido.

11. Haveria um meio de fazê-lo mudar desta casa, e qual seria? -R. Se se quiser desembaraçar-se de obsessões de semelhantes Espíritos, isto é fácil orando por eles: É que se negligencia sempre fazê-lo. Preferem-se amedrontá-los com fórmulas de exorcismo, que os divertem muito.

12. Dando-se às pessoas interessadas a idéia de orar por este Espírito, nós mesmos orando por ele, far-se-ia desalojá-lo? – R. Sim; mas notai que eu disse orar e não de fazer orar.

13. Este Espírito é suscetível de melhorar-se? -R. Por que não? Não o são todos, aqueles como os outros? É necessário, contudo, esperar encontrar dificuldades; mas, por perverso que seja, o bem dado para o mal acabará por tocá-lo. Que se ore primeiro, e que se o evoque em um mês, podereis julgar da mudança que se operará nele.

14. Este Espírito é sofredor, infeliz; podeis nos descrever o gênero de sofrimentos que ele suporta? -R. Ele está persuadido de que deve permanecer na situação em que se encontra durante a eternidade. Ele vê constantemente o momento em que cometeu o seu crime:

Toda outra lembrança foi-lhe retirada, e toda comunicação com um outro Espírito interditada; ele não pode, na Terra, ficar senão nesta casa, e se está no espaço, está nas trevas e na solidão.

15. De onde veio antes de sua última encarnação; a que raça pertencia? – R. Teve uma existência entre os povos mais ferozes e mais selvagens e, precedentemente, veio de um planeta inferior à Terra.

16. Se este Espírito se reencarnasse, em qual categoria de indivíduos se encontraria? – R. Isto dependerá dele e do arrependimento que sentir.

17. Poderia, na próxima existência corpórea. Ser o que se chama um homem honesto? -R. Isto ser-lhe-á difícil; o que quer que faça, não poderá evitar uma vida ainda bem agitada.

Nota. -A senhora X…, médium vidente que assistia à sessão, viu este Espírito no momento em que se quis fazê-lo escrever: ele sacudia o braço do médium; seu aspecto era apavorante; estava vestido com uma camisa coberta de sangue e tinha um punhal.

O senhor e a senhora F…, que não assistiam a esta sessão senão como ouvintes, não sendo ainda sócios, desde a mesma noite, receberam a recomendação feita a favor do infeliz Espírito, e oraram por ele. Obtiveram dele várias comunicações assim como de suas vítimas.

Nós as narraremos em sua ordem, com aquelas que ocorreram na Sociedade sobre o mesmo assunto. Além do interesse que se prende a essa dramática história, dela ressalta um ensinamento que não escapará a ninguém.

18. (Ao Espírito familiar.) Pode nos dizer alguma coisa do Espírito de Castelnaudary? – R. Evoque-o.

19. Será mau? – R. Tu o verás.

20. O que é preciso fazer?- R. Não lhe fale se nada tens a dizer-lhes.

21. Se lhe falarmos, para compartilharmos as suas penas, isto lhe fará bem? – R. A compaixão sempre faz bem ao infeliz.

22. Evocação do Espírito de Castelnaudary. – R. Que querem de mim?

23. Nós te chamamos com o objetivo de te ser útil. – R. Oh! vossa piedade me faz bem, porque eu sofro… Oh! Como eu sofro!… Que Deus tenha piedade de mim. Perdão… Perdão!

24. Nossas preces te serão salutares? – R. Sim; orai, orai.

25. Pois bem! Nós oraremos por ti. – R. Obrigado! Tu, pelo menos, não maldizes.

26. Por que não quisestes escrever na Sociedade, quando foste chamado? – R. Oh! Maldição!

27. Maldição sobre quem? – R. Sobre mim, que expio bem cruelmente crimes onde minha vontade não teve senão uma fraca parte.

Nota. – Dizendo que a sua vontade não é senão uma fraca parte em seus crimes, ele quer
atenuá-los, como se soube mais tarde.

28. Se te arrependes serás perdoado? – R. Oh! Nunca.

29. Não te desesperes. -R. Eternidade de sofrimentos, tal é o meu quinhão.

30. Qual é o teu sofrimento? -R. O que há de mais horrível; tu não o podes compreender.

31. Orou-se por ti desde ontem à noite? -R. Sim; mas eu sofro ainda mais.

32. Como ocorre isto? – Eu o sei!

Nota. – Essa circunstância foi explicada mais tarde.

33. Deve-se fazer alguma coisa com relação à casa onde estais instalado? – R. Não! Não! Não me fales mais dela… Perdão, meu Deus! Eu tenho sofrido bastante.

34. Tens que ali permanecer? – R. A isso estou condenado.

35. É para que tenhas, constantemente, teus crimes sob os olhos? – R. É isto.

36. Não desesperes; tudo pode ser perdoado no arrependimento. – Não há perdão para Caim.

37. Portanto mataste teu irmão? – R. Nós somos todos irmãos.

38. Por que quisestes fazer mal à senhora D…? – R. Bastante, de graça, bastante.

39.’ Pois bem! Adeus; tem confiança na misericórdia divina! – R. Orai.

Terceira sessão

40. Evocação. – Estou junto de vós.

41. Começas a ter esperança? -R. Sim, meu arrependimento é grande.

42. Qual era teu nome? – R. Sabê-lo-eis mais tarde.

43. Há quantos anos sofres? – R. 200 anos.

44. Em que época cometeste o crime? – R. Em 1608.

45. Podes repetir estas datas para no-las confirmar? – R. Inútil; é bastante uma vez. Adeus, eu vos falarei amanhã, uma vontade me chama.

Quarta sessão

46. Evocação. – Obrigado, Hugo (nome de batismo do senhor F…).

47. Queres nos falar do que se passou em Castelnaudary? – R. Não; fazeis-me sofrer quando me falais disto; isso não é generoso de vossa parte.

48. Sabes bem que se disto te falamos, é com o objetivo de poder esclarecer a tua posição, e não para agravá-la; assim, fala sem medo. Como te deixaste ir cometer este crime? – R. Um momento de descaminho.

49. Houve premeditação? -R. Não.

50. Isto não pode ser a verdade. Teus sofrimentos provam que tu és mais culpado do que o dizes. Saibas que não é senão pelo arrependimento que podes abrandar tua sorte, e não pela mentira. Vamos! Sé franco. – R. Pois bem! Uma vez que eu o fiz, sim.

51. Foi um homem ou uma mulher que mataste? – R. Um homem.

52. Como causaste a morte do senhor D…-R. Eu lhe apareci visivelmente, e sou tão pavoroso de se ver, que minha única visão o matou.

53. Fizeste-o de propósito? – R. Sim.

54. Por que isto? – R. Ele quis me desafiar, e lhe faria outro tanto se viesse me tentar.

55. Se eu fosse morar nesta casa, far-me-ias mal? -R. Oh! Não, certamente; tu tens piedade de mim, tu, e tu me queres bem.

55. O senhor D… morreu instantaneamente? -R. Não; o medo se apoderou dele, mas ele não morreu senão duas horas depois.

57. Por que te limitaste a dar um sopro no senhor D… filho? – R. Seria muito ter matado dois homens.

Quinta sessão – Sociedade, 16 de dezembro de 1859

58. Perguntas dirigidas a São Luís. O Espírito que se comunicou com o senhor e a senhora F… era o de Castelnaudary? – R. Sim.

59. Como ocorre que haja ele podido se comunicar com eles tão prontamente? – R. Na Sociedade ele ainda ignorava; não estava arrependido; o arrependimento é tudo.

60. As informações que deu sobre seu crime são exatas? – R. Cabe-vos procurar, disto vos assegurar e vos explicardes em seguida com ele.

61. Ele disse, que o crime foi cometido em 1608, e que morreu em 1659; há, pois, 200 anos que ele está neste estado? – R. Isto vos será explicado mais tarde.

62. Quereis nos descrever o gênero de seu suplício? -R. É atroz para ele; ele foi, como o sabeis, condenado a morar na casa onde o crime foi cometido, sem poder dirigir seu pensamento sobre outra coisa que sobre esse crime, sempre diante de seus olhos, e se crê condenado a essa tortura pela eternidade.

63. Ele está mergulhado na obscuridade? – R. Obscuridade quando ele quer se afastar desse lugar de exílio.

64. Qual é o gênero de sofrimento mais terrível que um Espírito possa, neste caso, sofrer? – R. Não há descrição possível das torturas morais que são a punição de certos crimes; aquele mesmo que as prova teria dificuldade em dar-vos uma idéia delas; mas a mais horrível é a certeza de crer-se estar a ela condenado sem retorno.

65. Eis aqui dois séculos que está nesta situação; ele aprecia o tempo como o fazia quando vivo; quer dizer o tempo parece-lhe tão longo ou menos longo que quando vivo?- R. Parece-lhe antes mais longo: o sono não existe para ele.

66. Foi-nos dito que, para os Espíritos, o tempo não existia, e que, para eles, um século é um ponto na eternidade; não ocorre, pois, o mesmo para todos? – R. Não, certamente; não ocorre assim senão para os Espíritos chegados a um grau muito elevado de adiantamento; mas para os Espíritos inferiores o tempo é algumas vezes bem longo,  sobretudo quando sofrem.

67. Esse Espírito é punido bem severamente para o crime que cometeu; ora, vós nos dissestes que, antes desta última existência, ele estivera entre as populações mais bárbaras. Ali deveu cometer atos pelo menos atrozes quanto o último; por isso foi punido da mesma forma. -R. Ele foi menos punido, porque, mais ignorante ainda, compreendia- lhe menos a importância.

Nota. – Todas as observações confirmam este fato, eminentemente conforme a justiça de Deus, que as penas são proporcionais, não à natureza da falta, mas ao grau de inteligência do culpado e à possibilidade, para ele, de compreender o mal que fez. Assim uma ‘alta, menos grave em aparência, poderá ser punida mais severamente num homem civilizado, que um ato de barbárie num selvagem.

68. O estado em que se encontra esse Espírito, é dos seres vulgarmente chamados condenados? – R. Absolutamente; e os há bem mais terríveis ainda. Os sofrimentos estão longe de serem os mesmos para todos, mesmo para crimes semelhantes, porque eles variam segundo o culpado seja mais ou menos acessível ao arrependimento. Para este, a casa onde ele cometeu o seu crime é seu inferno; outros o carregam neles, pelas paixões que os atormentam e que não podem saciar.

Nota. – Com efeito, vimos avaros sofrerem com a visão do ouro, que, para eles, se tornara uma verdadeira quimera; orgulhosos, atormentados pelo ciúme das honras que viam render, e que não se dirigiam a eles; homens que haviam comandado na Terra, humilhados pelo poder invisível que os constrangia a obedecerem, e pela visão de seus subordinados que não curvavam mais diante deles; ateus sofrerem as angústias da incerteza, e se encontrarem em um isolamento absoluto no meio da imensidade, sem encontrar nenhum ser que pudesse esclarecê-los. No mundo dos Espíritos, se há alegrias para todas as virtudes, há penas para todas as faltas, e aquelas que a lei dos homens não atinge são sempre alcançadas pela lei de Deus.

69. Esse Espírito, apesar de sua inferioridade, sente os bons efeitos da prece; vimos a mesma coisa com outros Espíritos igualmente perversos e da mais bruta natureza; como ocorre que Espíritos mais esclarecidos, de uma inteligência mais desenvolvida, mostrem uma ausência completa de bons sentimentos; que se riam de tudo o que há de mais sagrado; em uma palavra, que nada os toca, e que não há nenhuma trégua em seu cinismo? – R. A prece não tem efeito senão em favor do Espírito que se arrepende; aquele que, levado pelo orgulho, se revolta contra Deus e persiste em seus descaminhos, exagerando-os ainda como o fazem infelizes Espíritos, sobre aqueles a prece nada pode, e nada poderá senão no dia em que uma luz de arrependimento se manifeste neles. A ineficácia da prece para eles é ainda um castigo; ela não alivia senão aqueles que não estão inteiramente endurecidos.

 70. Quando se vê um Espírito inacessível aos bons efeitos da prece, é uma razão para se abster de orar por ele? – R. Não, sem dúvida, porque cedo ou tarde ela poderá triunfar de seu endurecimento e fazer germinar nele pensamentos salutares.

Sexta sessão; casa do senhor F…

71. Evocação. – Eis-me.

72. Podes, pois, deixar agora quando queres a casa de Castelnaudary? – R. É-me permitido, porque aproveito os vossos bons conselhos.

73. Experimentais algum alívio? R. Começo a ter esperança.

74. Se pudéssemos ver-te, sob qual aparência ver-te-íamos? -R. Ver-me-íeis de camisa, sem punhal.

75. Por que não terias mais teu punhal; que fizeste dele? – R. Eu o maldigo; Deus poupou- me de sua visão.

76. Se o senhor D… filho retornasse à casa, tu lhe farias ainda mal? – R. Não, porque estou arrependido.

77. E se quisesse ainda te desafiar? -R. Oh! Não me pergunteis isso; não poderia dominar- me, isso estaria acima de minhas forças… porque não sou senão um miserável.

78. As preces do senhor D… filho ser-te-iam mais salutares que as de outras pessoas? -R. Sim, porque foi a ele que fiz maior mal.

79. Pois bem! Continuaremos a fazer o que pudermos por ti. – R. Obrigado; pelos menos encontrei em vós amigos caridosos. Adeus.

Sétima sessão

80. Evocação do homem assassinado. – Estou aqui.

81. Que nome tínheis quando vivíeis? – R. Eu me chamava Pierre Dupont.

82. Qual era a vossa profissão? -R. Eu era salsicheiro em Castelnaudary, onde fui assassinado por meu irmão, no dia 6 de maio de 1608, por Charles Dupont, meu irmão mais velho, com um punhal, no meio da noite.

83. Qual foi a causa desse crime? – R. Meu irmão acreditou que eu queria fazer a corte a uma mulher que ele amava, e que eu via muito frequentemente; mas ele se enganou, porque jamais sonhei com isso.

84. Como vos matou? – R. Eu dormia; ele me atingiu na garganta e depois no coração; atingindo-me, ele despertou-me; quis lutar, mas sucumbi.

85. Vós o perdoastes? -R. Sim, no momento de sua morte, há 200 anos.

86. Com que idade ele morreu? – R. Com 80 anos.

87. Portanto, não foi punido quando vivo? – R. Não.

88. Quem foi acusado de vossa morte? – R. Ninguém; nesses tempos de confusão, dava-se pouca atenção a essas coisas; isso não teria nenhum objetivo.

89. Em que se tornou a mulher? -R. Pouco depois, ela morreu assassinada na minha casa
por meu irmão.

90. Por que a assassinou? – R. Amor enganado; ele a havia desposado antes da minha morte.

91. Por que ele não fala da morte dessa mulher? -R. Porque a minha foi a pior para ele.

92. Evocação da mulher assassinada. – Estou aqui.

93. Que nome tínheis quando vivíeis? R. Marguerite Aeder, mulher de Dupont.

94. Quanto tempo estivestes casada? – R. Cinco anos.

95. Pierre nos disse que seu irmão acreditava em relações criminosas entre vocês dois, isso é verdade? – R. Nenhuma relação criminosa existia entre Pierre e mim; não crede nisso.

96. Quanto tempo depois da morte de seu irmão Charles ele vos assassinou? – R. Dois anos depois.

97. Que motivo o impeliu? -R. Ciúme, e o desejo de ter o meu dinheiro.

98. Podeis relatar as circunstâncias do crime? – R. Ele me agarrou e me atingiu na cabeça, na sala de trabalho, com a sua faca de salsicheiro.

99. Como ocorreu que não foi perseguido? – Para quê! Tudo era desordem nesses tempos de infelicidade.

100. O ciúme de Charles tinha fundamento? – Sim, mas isso não podia autorizá-lo a semelhante crime, porque neste mundo nós somos todos pecadores.

101. Quantos anos estivestes casada depois da morte de Pierre? – R. Depois de três anos.

102. Podeis precisar a data da vossa morte? – Sim, no dia 3 de maio de 1610.

103. Que se pensou da morte de Pierre?- Fez-se crer em assassinos que queriam roubar.

Nota. -Qualquer que seja a autenticidade desses relatos, que parecem difíceis de controlar, há um fato notável, que é a precisão e a concordância das datas e de todos os acontecimentos; só esta circunstância é um curioso objeto de estudo, considerando-se que esses três Espíritos chamados em diversos intervalos não se contradizem em nada. O que pareceria confirmar suas palavras, é que o principal culpado nesse negócio, tendo sido evocado por um outro médium, deu respostas idênticas.

Nona sessão

104. Evocação do senhor D… – Eis-.me.

105. Desejamos vos perguntar alguns detalhes sobre as circunstâncias de vossa morte; consentis em no-los dar? – R. De bom grado.

106. Sabíeis que a casa que habitáveis era assombrada por um Espírito? – R. Sim; mas eu
quis desafiá-lo e errei ao fazê-lo; teria feito melhor orando por ele.

Nota. Vê-se, por aí, que os meios que se empregam geralmente para se desembaraçar de Espíritos importunes não são os mais eficazes. As ameaças os excitam mais do que os amedrontam. A benevolência e a comiseração têm mais império que o emprego de meios coercitivos que os irritam, ou de fórmulas das quais se riam.

107. Como esse Espírito vos apareceu? – R. À minha entrada na minha casa, ele estava visível, e me olhava fixamente; não pude escapar; o medo se apoderou de mim, e eu devi expirar sob os olhos terríveis desse Espírito, que eu havia desprezado e para com o qual me mostrara tão pouco caridoso.

108. Não podíeis chamar para vos socorrer? – R. Impossível; minha hora chegara, e era assim que eu deveria morrer.

109. Qual aparência tinha? -R. De um furioso disposto a me devorar.

110. Sofrestes ao morrer? – R. Horrivelmente.

111. Morrestes subitamente? – R. Não, duas horas depois.

112. Que reflexões tínheis em vos sentindo morrer? -R. Eu não pude refletir; estava atingido por um terror inexprimível.

113. A aparição permaneceu visível até o fim? -R. Sim, ela não deixou um instante meu pobre Espírito.

114. Quando vosso Espírito se achou livre, vistes a causa da vossa morte?-R. Não, tudo tinha acabado; eu a compreendi mais tarde.

115. Podeis indicar a data da vossa morte? -R. Sim, no dia 9 de agosto de 1853. (A data precisa não pôde ainda ser verificada; mas ela é exata aproximativamente.)

Décima sessão – Sociedade, 13 de janeiro de 1860

Quando esse Espírito foi evocado em 9 de dezembro, São Luís convidou a chamá-lo de  novo em um mês, a fim de julgar sobre o progresso que fizera nesse intervalo. Já se pôde julgar, pelas comunicações do senhor e da senhora F… da mudança que se operou em suas idéias, graças à influência das preces e dos bons conselhos. Tendo decorrido mais de um mês, desde sua primeira evocação, foi chamado de novo na Sociedade em 13 de janeiro.

116. Evocação. – Estou aqui.

117. Lembrai-vos de ter sido chamado entre nós há mais ou menos um mês? – R. Como o esqueceria?

118. Por qu e não pudestes escrever então? – R. Eu não o queria.

119. Por que não o quedeis? – R. Ignorância e brutalidade.

120. Vossas idéias mudaram desde aquele momento? – R. Muito; vários dentre vós se compadeceram e oraram por mim.

121. Confirmais todas as informações que foram dadas tanto por vós como por vossas vítimas? – R. Eu não as confirmo, isto seria dizer que não fui eu que as dei, e fui bem eu.

122. Entrevedes o fim de vossas penas? – R. Oh! Não ainda; já é muito mais do que mereço saber, graças à vossa intercessão, que elas não durarão para sempre.

123. Quereis nos descrever a situação em que estáveis antes da nossa primeira evocação. Compreendeis que vos perguntamos isso para a nossa instrução, e não por um motivo de curiosidade. -R. Eu vos disse, não tinha consciência de nada no mundo do meu crime, e não podia deixar a casa onde o cometera, senão para me elevar no espaço onde tudo, ao redor de mim, era solidão e obscuridade; não saberia vos dar uma idéia do que é, nunca nada compreendi; desde que me elevava acima do ar, era noite, era vazio; eu não sei o que era. Hoje sinto muito mais remorsos, mas, como provam minhas comunicações, não estou mais constrangido a permanecer nessa casa fatal; é-me permitido errar na Terra, e procurar esclarecer-me pelas minhas observações; mas, então, não compreendo senão melhor a enormidade de meus crimes; e se sofro menos de um lado, minhas torturas aumentam de outro pelo remorso; mas, pelo menos, tenho a esperança.

124. Se devíeis retomar uma existência corpórea, a qual escolheríeis? – R. Não vi ainda bastante, e refleti bastante para sabê-lo.

125. Reencontrais vossas vítimas? – R. Oh! Que Deus me guarde disso!

Nota. Sempre foi dito que as visões das vítimas é um dos castigo dos culpados. Aquele ainda não as vira, porque estava no isolamento e nas trevas: era o castigo; mas ele teme essa visão, isto será talvez o complemento de seu suplício.

126. Durante vosso longo isolamento, e se pode dizer o vosso cativeiro, tivestes remorsos? – R. Nem o menor, e foi por isso que tanto sofri; foi somente quando comecei a prová-los, quando foram provocadas com o meu desconhecimento, as circunstâncias que conduziram à minha evocação, à qual devo o começo de minha libertação. Obrigado, pois, a vós que tivestes piedade de mim eme esclarecestes.

Nota. Esta evocação não foi’ o fato do acaso; como deveria ela ser útil a esse infeliz, os Espíritos que velam por ele, vendo que começava a compreender a enormidade de seus crimes, julgaram que o momento chegara para lhe dar um socorro eficaz, e foi então que prepararam as circunstâncias propícias. É um fato que vimos se produzir muitas vezes.

Pergunta-se a esse respeito, o que lhe teria advindo senão houvesse sido evocado, e o que ocorre com todos os Espíritos sofredores que não o podem ser, ou nos quais não se pensa. A isso é respondido que os caminhos de Deus, para a salvação de suas criaturas, são inumeráveis; a evocação pode ser um meio de assisti-los, mas certamente não é o único; e Deus não deixa ninguém no esquecimento. Aliás, as preces coletivas devem também ter, sobre os Espíritos acessíveis ao arrependimento, sua parte de influência.

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