Naquela noite

Autora: Teresinha Olivier

Naquela noite, realmente, estava se sentindo bastante estranho.

Não conseguia dormir. Tentou ler, assistir à TV, trabalhar no computador, mas logo desistia.

O que fazer? Estava há horas acordado e logo o dia ia amanhecer. Precisava dormir ao menos um pouco para poder aguentar o dia atarefado que tinha pela frente, mas já desistira. Não conseguiria. Não naquela noite.

Desligou o computador e foi para a cozinha. Resolveu fazer um café, já que não ia dormir mais mesmo, e insistiu na leitura.

Já tinha tido algumas noites de insônia, mas naquela havia alguma coisa que o deixava mais inquieto, ansioso, não sabia o que era.

Fez o café e sentou-se à mesa da cozinha com seu livro. O assunto o interessava muito, por isso acabou mergulhando na leitura, deixando de se preocupar com o dia cheio de compromissos que o esperava.

Já estava lendo por alguns minutos, quando ouviu um ruído vindo da sala. Pensou ser o Toby, seu cão que fizera da sala o seu local predileto para dormir. Mas Toby estava deitado ao lado de sua cadeira, num sono tão profundo de dar inveja.

Foi até à sala, acendeu a luz e não viu nada de anormal. Deu de ombros e voltou à leitura, não sem antes se servir de mais uma dose de café bem quente.

– Já que não é para dormir mesmo…

Nem bem recomeçou a ler, e novamente o mesmo ruído. Era um barulho seco, como se um objeto meio pesado tivesse caído ao chão.

Acendeu novamente a luz da sala, procurou em todos os cantos e nada. Intrigado, voltou para a cozinha. Toby dormia o sono dos anjos caninos, se é que os havia.

– Será que ele não ouviu o ruído? Onde está a sua aguçada audição? E como melhor amigo do homem, ele não deveria estar acordado, me fazendo companhia?

Resolveu deixar de lado indagações sem respostas. Olhou para o relógio: 4 horas. Agora, mesmo que o sono viesse, não adiantava deitar mais. Teria que se levantar às 5 horas para trabalhar.

Esqueceu-se do barulho.

Retomou a leitura, mas por poucos minutos. Da sala veio um barulho mais forte, como se um objeto mais pesado ainda houvesse caído no tapete. Largou o livro. Olhou para o Toby. Dormia profundamente.

Foi até a sala, não sem um pouco de receio. Acendeu a luz e cautelosamente foi andando por entre as poltronas com cuidado.

De repente, sentiu medo! Andou pela casa silenciosa, examinou todas as portas e janelas. Estavam trancadas. Foi até os quartos dos filhos que dormiam tranquilamente, assim como a esposa.

Deu mais uma olhada na sala e verificou que tudo estava em ordem. Voltou para a cozinha um pouco mais tranquilo:

– Pelo menos ladrão não é…

Recomeçou a leitura, não sem um pouco de apreensão.

– Mas que esse barulho é estranho, isso é!

Mal pegou no livro e novamente o ruído seco.

– Isso já é demais! Agora tenho que descobrir o que está acontecendo, mesmo que tenha que acordar a família inteira.

Retornou à sala, dessa vez acompanhado de Toby. Acendeu todas as luzes e começou a procurar, só não sabia o quê.

Ao dar a volta na mesinha, tropeçou em algo. Era um livro. Apanhou-o.

– Como esse livro caiu da estante?

Resolveu fazer um teste. Colocou cuidadosamente o livro na estante e voltou para a cozinha. Sentou-se e esperou. Não demorou muito e ouviu o mesmo barulho novamente.

Voltou à sala, e o livro estava no chão.

– Aqui tem alguma coisa muito estranha, Toby – disse sentindo um arrepio – da forma como eu coloquei este livro na estante, ele não poderia cair. Isso vai contra as leis da física.

Apanhou o livro e, mais uma vez ia colocá-lo de volta, quando percebeu uma ponta de algo saindo de dentro de suas páginas. Curioso, abriu-o e deparou-se com uma fotografia bem antiga. Era dele mesmo com um amigo que não via há séculos. Ambos na pré-adolescência, estavam abraçados e sorrindo para a câmera.

Diante dessa foto, sua lembrança retornou para aquele tempo tão distante e as recordações afloraram muito nítidas.

A amizade entre ambos começou quando ainda eram bem pequenos. Estudaram   juntos até à época dessa fotografia. Lembrava-se agora que seu pai a tirara. Era uma despedida, porque sua família ia mudar de cidade.

Virou a foto e atrás estava escrito:

“Uma amizade que nunca vai acabar”.  E a assinatura dos dois: Júlio e Gabriel.

Sentou-se no sofá e ficou pensando na forma, no mínimo estranha, de encontrar essa fotografia.

– Onde será que ele está agora? Tantos anos se passaram…

Lembrou-se que chegaram a se escrever algumas vezes. Depois houve muitas outras mudanças de cidade, e a amizade caiu no esquecimento.

Logo cedo foi para o trabalho, mas não conseguia parar de pensar no misterioso fato ocorrido durante a madrugada.

Por que fui encontrar essa fotografia dessa maneira? Deve haver uma razão e eu preciso descobrir qual é. Não terei sossego enquanto não compreender tudo isso…

Resolveu ir até a cidade onde morou e conheceu Júlio. Se ele não morasse mais lá, alguém poderia lhe dar alguma informação. Tirou o final de semana para a viagem. Explicou tudo para a esposa e partiu.

Depois de algumas horas, chegou. Daquilo que se lembrava, a cidade estava bem diferente.

– Também, pudera! Depois de tantos anos…

Dirigiu por algumas ruas, parou numa lanchonete para comer alguma coisa e procurou pelo endereço onde morara há muito tempo. Encontrou-o facilmente. Aquela que fora sua casa estava completamente reformada. Andou mais um pouco e lembrou-se de onde ficava a casa de Júlio. Parou em frente e hesitou um pouco antes de tocar a campainha.

– O que eu vou falar? E se ninguém souber dele? Afinal, quantos anos se passaram?

Fez as contas.

– Trinta e oito anos! Que loucura!

Fez menção de voltar para o carro. Parou no meio do caminho, pensou um pouco…

– Não, já que cheguei até aqui, vou até o fim.

Tocou a campainha. Uma mulher atendeu. Meio encabulado, perguntou:

– Por favor, minha senhora, o Júlio ainda mora aqui?

A mulher ficou olhando para ele como que pensando no que iria responder. Por fim, disse:

– Posso saber o porquê da sua pergunta?

– É uma história meio estranha, mas é que fomos amigos de infância e me lembrei dele nestes dias e resolvi visitá-lo.

– Qual é o seu nome? – Ela perguntou demonstrando surpresa.

– Meu nome é Gabriel.

– Júlio me falou muitas vezes do senhor. Entre, por favor. Eu sou Laura, a esposa dele.

Ele ficou agradavelmente surpreso. Então, Júlio ainda morava na mesma casa!

Entrou, olhou em volta. Era uma residência simples, mas arrumada com muito bom gosto. Sentiu-se bem ali. Sentaram-se e ela perguntou:

– Diga-me, senhor Gabriel, como foi que o senhor se lembrou do meu marido só agora, depois de tantos anos?

– É que aconteceu um fato interessante, estanho mesmo.

E contou-lhe resumidamente o que ocorrera naquela noite, não sem um pouco de preocupação com o que ela iria pensar dele. Mas, para sua surpresa, ela se levantou tranquilamente sem dizer nada, abriu uma gaveta e pegou uma foto.

– Por acaso é uma fotografia igual a esta?

Era a mesma foto. Ele ficou confuso, sem saber o que pensar. Depois de alguns segundos de silêncio, tirou a foto do bolso e mostrou à esposa de Júlio.

Ela ficou segurando as duas e ele percebeu que lágrimas rolavam pelo seu rosto. Ficou encabulado. Era uma desconhecida chorando na sua frente, e ele não sabia o que fazer.

– O Júlio morreu há alguns dias atrás – disse ela sem conter um soluço.

Ele ficou lívido. Queria consolá-la, mas foi pego de surpresa. Agora o que mais queria era entender toda aquela situação.

– Por favor, me diga quando foi que ele morreu.

– Na madrugada da última terça-feira. Foi o coração.

– Foi justamente nessa madrugada que eu encontrei a foto daquela forma que eu lhe contei. Eu gostaria de compreender tudo isso.

– Senhor Gabriel, eu não sei explicar, mas posso lhe dizer que Júlio era um homem especial. Ele era espiritualizado, tinha sentimentos nobres, todos o amavam muito. Tanto os familiares, como os amigos e vizinhos sentiram muito a sua morte. Ninguém se conforma.

Ficaram conversando por bastante tempo. Ela lhe contou como Júlio havia sido um bom homem, excelente pai de família, dedicado e amoroso. E como ela sentiria a sua falta.

Contou-lhe também que Júlio prezava demais a amizade que eles dois haviam tido na infância, que ele nunca havia esquecido o companheiro de meninice e sempre dizia que algum dia iria procurá-lo.

Gabriel chegou tarde em casa. Todos já estavam dormindo. Foi para a cozinha, sentou-se à mesa e se pôs a pensar:

– Por que aquilo aconteceu bem naquela noite, na noite em que Júlio morreu? Por que eu estava angustiado a noite toda e não conseguia dormir? Parece que ele ou alguém queria que eu encontrasse a fotografia! Mas por quê? E por que eu, que quase nem me lembrava mais dele?

As perguntas rodavam em sua mente, mas não conseguia encontrar respostas. Nunca havia se preocupado com esses fatos misteriosos e, logo agora, na meia idade, é que essas coisas iriam acontecer com ele?

Foi para a sala e sentou-se no sofá. Toby deitou-se ao seu lado. Recostou a cabeça cansada de tanto pensar e fechou os olhos. Procurou relaxar o corpo e a mente. Sentiu-se mais leve, mais tranquilo. Respirou fundo e deixou-se levar por essa sensação agradável.

Uma imagem começou a se delinear na sua mente. Uma lembrança longínqua da sua infância. Viu-se correndo num campo, ao lado de Júlio. A lembrança foi ficando cada vez mais clara, mais nítida. Parecia que estava vendo numa tela de cinema. Estavam correndo e rindo. Eram dois meninos e pareciam tão felizes…

Sentaram-se ofegantes na grama. Era um fim de uma tarde magnífica, e o sol estava se pondo. Ficaram sentados, olhando para o sol vermelho que estava se despedindo do dia. Permaneceram sem dizer nenhuma palavra por alguns minutos. Foi Júlio quem interrompeu o silêncio:

– Gabriel, você acredita que depois de morrer a gente continua vivendo?

– Sei lá, Júlio. Por que você está falando isso?

– É que eu conversei com minha avó e ela disse que a morte não existe. Que o que morre é só o corpo e nós continuamos vivendo, porque nós somos Espíritos imortais.

– Ah! Não sei, não, Júlio. Eu acho isso meio estranho. Eu não penso nessas coisas, não.

Depois de mais alguns minutos de silêncio:

– Gabriel, a nossa amizade é de verdade, não é?

– É claro que é, Júlio.

– É para sempre, não é?

– É para sempre, Júlio.

– Então, vamos combinar uma coisa?

– O quê?

– Quem morrer primeiro, volta para visitar o outro.

– Combinado!

Selaram o compromisso com um aperto de mão e ficaram ali, sentados, observando os últimos raios de sol, antes de voltarem para suas casas.

AÇÃO ESPÍRITA NATRANSFORMAÇÃO DO MUNDO

O Espiritismo surge no mundo na metade do século dezenove, mais precisamente no ano de 1857, quando aparece nas livrarias francesas a obra O Livro dos Espíritos, assinada por Allan Kardec. Um nome curioso e uma assinatura desconhecida chamam a atenção dos leitores, e em seis meses a primeira edição estava esgotada, de um livro feito...

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