O tempo perdido

Autora: Teresinha Olivier

Novamente, ele estava sozinho em sua casa.

Sentado na sala, pensava que agora que procurava ficar mais em casa, fazer companhia para a esposa, estar mais presente na vida dos filhos, eles não tinham tempo. Sempre tinham compromissos. Saíam e o deixavam sozinho.

Ele até compreendia. Seu comportamento nos últimos anos tinha sido de um pai e de um marido distante. Agora, entristecia-se ao lembrar-se de tantas oportunidades perdidas.

Sua memória levou-o para anos atrás, quando conheceu aquela que seria a companheira de sua vida. Apaixonaram-se logo que se conheceram. Sentiram que tinham nascido um para o outro. Não namoraram muito tempo, casaram-se dois anos após o primeiro encontro.

Nos primeiros anos, foram muito felizes num clima de amor e carinho. Logo vieram os dois filhos, completando a felicidade do casal.

Ele, que sempre fora ambicioso, sonhava em proporcionar à família muito conforto material e, quando surgiu uma oportunidade de subir de cargo na empresa em que trabalhava, dedicou-se com afinco para conseguir o intento.

Conseguiu. Com a vitória, sentiu-se poderoso, com talento para conquistar mais. E assim, passou a dedicar-se quase que exclusivamente a galgar os degraus que o levariam ao topo da empresa. Foi uma ideia fixa que se apoderou de sua mente e o levava a querer sempre mais.

Não tinha mais tempo para a família e o pouco tempo que passava em casa, ficava diante do computador, trabalhando. A esposa procurava atraí-lo para um passeio familiar, ou para um convívio mais afetivo no lar e ele se desculpava, dizendo que estava muito ocupado e precisava trabalhar, que tinha problemas muito sérios para resolver. Justificava-se dizendo que tudo era para o bem da família.

O tempo, inflexível, foi passando. Os filhos, crescendo. A esposa, antes alegre, foi se entristecendo. Mas isso ele percebia agora, revolvendo as lembranças dos tempos passados, porque, na época, se percebesse alguma mágoa na esposa, ou uma ponta de frustração nos filhos, achava que eles eram muito exigentes e que não compreendiam o sacrifício que fazia por eles.

Agora via com clareza.

Lembrou-se de algumas ocasiões em que a esposa tentou chamar a sua atenção.

– Meu bem, eu e as crianças sentimos muito a sua falta. Quase não temos a sua companhia…

Ele, sempre cheio de razão, respondia:

– Vocês não compreendem que tudo o que eu faço é para vocês, para dar mais conforto a você e às crianças?

– Mas, querido, nós já temos conforto suficiente, não precisamos de mais nada. Só necessitamos da sua presença, do seu convívio. As crianças estão crescendo tão depressa e você nem está percebendo!

– Pode deixar, meu bem. Mais alguns anos e terei todo o tempo para vocês. Tenha um pouco mais de paciência.

Os anos se passaram. Os filhos cresceram. E ele continuou na sua busca obsessiva por subir cada vez mais. Não percebia na época que não era pela família que o fazia. Agora ele via que era para satisfazer seu próprio ego.

Sua esposa havia simpatizado pelo Espiritismo e começou a frequentar um centro espírita e levava os filhos. Ele achou bom que ela tivesse algumas distrações além das tarefas domésticas. Ela o convidou várias vezes, mas ele não tinha tempo.

– Quando eu tiver tempo, irei com vocês.

Ela engajou-se em algumas atividades no centro espírita, fazia cursos, lia muito, e ele percebeu que ela estava mais animada. Ficou satisfeito. Assim, ele poderia trabalhar sem se preocupar com ela.

Num dos costumeiros serões que fazia na empresa, uma secretária provocante que há muito tentava chamar a sua atenção, conseguiu, e ele acabou por envolver-se com ela. Esse seu caso extraconjugal durou alguns meses. Por conta disso, ele ficava ainda mais tempo fora de casa.

Sua esposa ficou sabendo por outras pessoas e sentiu-se extremamente magoada, chorou muito. Essa triste lembrança doía por demais na sua consciência. Ele pediu-lhe perdão, prometeu que aquilo nunca mais aconteceria. Ela o perdoou, mas, depois disso, passou a dedicar-se ainda mais ao centro espírita que frequentava. Agora, lembrando-se dessas ocorrências, ele percebia que ela se resignou a viver sem ele, mesmo tendo-o morando na mesma casa. Talvez, pelos filhos, ela não o abandonou.

Ele se recordou que, algum tempo depois desses fatos, ele ficou muito doente. Não sabe quanto tempo ficou hospitalizado, mas lembrava-se da presença constante da esposa, dedicada, cuidando dele, apesar de tudo.

Agora, sentado na sala de sua linda casa, lembrando-se de tudo isso, decidiu recuperar o tempo perdido. Decidiu ficar mais em casa, conversar e passear com os filhos, ser um companheiro mais dedicado à esposa. Já não tinha tanto interesse pela empresa. Ia até lá todos os dias, observava o trabalho dos funcionários e, verificando que tudo corria bem, voltava para casa.

Os filhos, agora adolescentes, tinham muitos compromissos e saíam muito. A esposa, com certeza ainda muito magoada com ele, vivia para suas atividades no centro espírita e, quando estava em casa, vivia ocupada com seus afazeres domésticos e não tinha tempo para sentar-se ao seu lado e conversar.

Mas, ele iria mudar tudo isso. Com o tempo, conseguiria convencê-los de que era um homem diferente. Com paciência e dedicação, ele reconquistaria o amor dos seus entes queridos, porque agora sabia que eles eram o que de mais importante havia em sua vida.

Naquela noite, a sua esposa arrumou a mesa da sala de jantar e chamou os filhos para o Evangelho no lar. Sentaram-se e ele, pela primeira vez depois de tantos convites dela, ele sentou-se também.

Percebeu que lágrimas começaram a correr pelas faces da sua querida esposa.

– É a emoção de eu estar participando – pensou – como eu não percebi o quanto era importante para ela…

Ela, abrindo o Evangelho Segundo o Espiritismo, disse:

– Meus filhos! Hoje teremos um Evangelho no Lar especial. É uma data muito importante para nós.

Ele ficou emocionado. Ela continuou:

– É especial porque hoje está fazendo exatamente um ano que o seu pai nos deixou e vamos dedicar o nosso estudo do Evangelho de hoje a ele. Queridos filhos, está fazendo um ano que o seu pai morreu.

Ele levou um tremendo choque. Olhou para a sua mulher, tentando entender o que ela estava dizendo. Olhou para os filhos, que também choravam.

– O que está acontecendo? – Gritou, levantando-se e dirigindo-se à esposa.

Ela continuou:

– Filhos, vamos orar para que o seu pai, que amamos tanto, seja bastante amparado no mundo espiritual e que ele possa receber nestes momentos as nossas vibrações de amor e de carinho.

De repente, ele sentiu que tudo escureceu ao seu redor e começou a flutuar, como se uma energia o sugasse dali. Não via nada, nem sentia nada, apenas um torpor tomava conta de sua mente e de seu corpo. Soltou-se como uma pluma levada pelo vento. Não saberia dizer quanto tempo durou essa situação. Era como se o tempo não existisse.

Começou a sentir-se em algum lugar. Uma tênue luz começou a dissipar a escuridão. Ouvia de longe uma voz calma conversando com ele, dizendo-lhe palavras amigas, reconfortantes que o tranquilizaram.

Aos poucos foi percebendo que estava numa sala, com pessoas concentradas em torno de uma longa mesa, como se estivessem em oração.

E aquela voz lhe dizia:

– Seja bem-vindo, meu irmão. Estamos aqui reunidos em nome de Jesus, para ajudá-lo.

Ele estava no centro espírita.

AÇÃO ESPÍRITA NATRANSFORMAÇÃO DO MUNDO

O Espiritismo surge no mundo na metade do século dezenove, mais precisamente no ano de 1857, quando aparece nas livrarias francesas a obra O Livro dos Espíritos, assinada por Allan Kardec. Um nome curioso e uma assinatura desconhecida chamam a atenção dos leitores, e em seis meses a primeira edição estava esgotada, de um livro feito...

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