Relacionamento e Sexualidade

O tabu chamado “homossexualidade”

Autor: Thiago Rosa

Domingo de manhã. Um dia ensolarado que chega a refletir na janela. Mesmo com o ar friorento, pego o carro e vou esperar no metrô Vila Matilde um grande amigo do movimento jovem. Na verdade eu fui buscá-lo para uma palestra que ele iria dar numa casa espírita na zona leste de São Paulo.

Vejo o Joelson de longe vindo ao meu encontro com o seu sorriso de sempre e seu olhar calmo. E é o mesmo rapaz que minutos depois de bons papos, dos mais entusiasmados aos mais íntimos, que vejo subir no patamar à frente de umas 60 pessoas e abrir mais uma palestra sobre Homossexualidade.

Já são três anos que o ex secretário de doutrina do Departamento de Mocidade Espírita da USE – Regional São Paulo – vem abordando o tema.  E quando este tipo de assunto é falado em alto e bom tom, o eco ressoa no ouvido de muitos com certo espanto. E as palavras dele, pausadas e muito bem alinha das com o assunto, vão de encontro ao silêncio que contagia momentaneamente. Em cada discurso exposto, um murmúrio se ouve como um cochicho entre alguns grupinhos formados pelas pessoas presentes. Percebemos que o tema causa muitas dúvidas e discussões. Alguns ainda têm medo de perguntar, comedidos por certa vergonha.

Engraçado que para nosso amigo palestrante, tudo começou num evento organizado por jovens espíritas das Distritais Penha e Tatuapé. Naquele ano de 2003 o sub-tema “Homossexualidade” fazia parte do tema “Sexo, Amor e Obsessão” abordado na Quinzena do Jovem Espírita (Quinjesp). De lá pra cá ele não parou. Além de trabalhar o tema na 8ª Confraternização das Mocidades e Juventudes Espíritas do Estado de São Paulo (COMJESP), ocorrida em abril deste ano, até em oficinas com o tema a serem abordadas com trabalhadores de casas espíritas ele vem atuando.

Isso mostra que o tema é curioso e as pessoas têm se questionado mais a respeito. Afinal, ver praticamente três milhões de pessoas na maior passeata do orgulho gay do mundo, organizada na cidade de São Paulo, realmente mostra que o homossexual é figura constante na maior cidade do país e tem um meio de interação própria que já faz parte do calendário da cultura brasileira. O que antes era movido por meia dúzia de gatos pingados, a 10ª edição da Parada GLBT mostrou que a massa corporal que tem caras, bocas e sentimentos como qualquer pessoa, ganhou volume. E, com base nisso, faço agora a mesma pergunta que ouvi do nosso amigo naquela manhã: “De onde saíram três milhões de pessoas? Com certeza elas tem uma casa, uma família, e saíram de algum lugar. Será que uma delas não poderiam ter saído da casa de vocês?”.

Tabu

Gostei muito da sua palestra. São poucos que tem coragem como você. Muitos acham que falar de um tema tão abrangente como este e de muita discussão podem ser rotulados de alguma forma. Podem ter vergonha de serem apontados como tal e tratam o assunto com frieza. E as pessoas podem acabar puxando o assunto a favor de suas idéias. Se forem contrárias, sem querer, acabam persuadindo a platéia a seu favor”. Este foi o discurso do Sr. Machado ao final da exposição do tema do Joelson.

Homossexualidade ainda parece e é tabu. Por mais que os diversos tipos de mídia esbocem de diversas formas o homossexual, falar do tema e discuti-lo de forma educativa e sadia, seja sob o olhar da doutrina ou sob os parâmetros psicológicos e da ciência, parece ser um caminho cheio de obstáculos difíceis a ser ultrapassado.

Ao contrário disso, falar sobre o gay entre rodas de amigos ou numa mesa de bar apontando fulano ou sicrano de forma pejorativa, ou comentando sobre algum fato ocorrido, é muito mais fácil. Assim como é fácil falar que não tem preconceito. Mas será que não tem mesmo?

A ciência pelo menos não tem. A origem da orientação sexual é hoje um tema debatido e estudado entre pesquisadores e cientistas. As pesquisas vão desde análise genética até a fatores psicológicos e sociais.

Pesquisadores americanos, por exemplo, da Universidade de Boston, analisaram gêmeos e viram que, entre bivitelinos (fecundados em óvulos diferentes), se um deles é gay, o outro tem 22% de chance de ser. Para os univitelinos (fecundados no mesmo óvulo), a probabilidade sobe para 52%. Mas são números que vão muito além da taxa de homossexualidade entre a população, que seria de 10% de acordo com o Relatório Kinsey, dos anos 40, e entre 2% e 5% segundo pesquisas mais recentes. A pesquisa que continua em andamento, pelo menos permite uma estimativa onde aponta que 40% da orientação sexual venham dos genes.

Outro estudo recente tenta provar que a homossexualidade vem do útero como a teoria dos hormônios pré-natais, quando o feto ainda está em formação.  A idéia é que os hormônios masculinos (andrógenos) se conectam as partes responsáveis pelos desejos sexuais no cérebro e influenciam o seu crescimento, tornando o cérebro mais tipicamente masculino ou feminino. Uma falha ou maior recepção destes hormônios poderia ser uma das causas de um homem mais feminino ou uma mulher mais masculinizada.

Outro cientista canadense, Ray Blanchard e o colega Anthony Bogaert estudam agora o fenômeno do “irmão mais velho”. Uma pesquisa feita pelos dois com 7mil pessoas viu que a maioria dos gays nascem depois de irmãos homens heterossexuais. Cada irmão mais velho homem aumenta 33% a chance do menor ser homossexual. Estudos como estes criam várias hipóteses que vão desde fatores familiares até os biológicos, mas sem nenhuma certeza ainda.

Nenhum cientista que tenta desvendar o dilema nega que fatores ambientais possam entrar na equação. Mas não existem provas, por exemplo, de que o abuso sexual na infância causa homossexualidade. O número de gays também não é maior em lares chefiados por mulheres nem entre filhos criados por casais gays. E muito menos em períodos de guerra causados pela ausência do chefe de família ou figura paterna.

É certo dizer que não existe teoria certa ou regras que identificam o “porquê” do homossexual

Prisioneiro

Voltemos àquela pergunta: “De onde saíram 3 milhões de pessoas para incentivar a 10ª Parada do Orgulho Gay na  Avenida Paulista?

Lembro que naquele sábado de junho, mais precisamente o dia 18, estava eu na reunião da Regional São Paulo em Santana. Quando bem termina a reunião meu celular toca e reconheço a voz no fundo. Eram na verdade dois amigos meus me convidando para encontrá-los em frente à igreja da Consolação,local de dispersão das pessoas durante a Parada.

Não é a primeira vez que me encontrava em meio aquela passeata. É uma mistura de muitas cores rodeado de pessoas comuns, famílias com crianças, algumas outras cenas um pouco mais obscenas, outras de afetividade, jovens de diversas idades e adultos dos mais moços aos mais velhos. Mães com filhos, casais homo ou heterossexuais. Bebidas que vão da água à pinga e um embate de vozes e música eletrônica estonteante. Para alguns é uma festa rave (festa em ambiente aberto regada a música eletrônica e em alguns países proibida), para outros um desfile de carnaval e para os demais uma luta contra a homofobia como pregavam muitos cartazes e que era o tema deste ano do evento.

Portanto, eu e mais dois amigos meus somos 0,0001% de todo aquele montante. Que temos um lar, famílias e saímos de nossas casas e lá comparecemos. Mas sob a ótica do espiritismo, ainda lembro muito bem toda a exposição do Joelson que foi muito taxativo e feliz ao lembrar pontos importantes que fazem refletir hoje e que eu os retransmito aqui.

Sem colocar regras é bom lembrar que o homem que abusa de seu porte e sua masculinidade, cobiçando e utilizando do sexo feminino para satisfação egoísta de seus prazeres momentâneos e muitas vezes animalescos, ou da mulher que usa de seu corpo e se utiliza do assédio para ganhar proveito sobre o homem, ambos poderiam agora ter a oportunidade de resgatar dívidas que adquiriram no passado.

É dado ao homem a oportunidade de se redimir reencarnando num corpo feminino tendo seus desejos masculinos, assim como é dada a mulher à oportunidade de reencarnar num corpo masculino tendo ainda os seus desejos femininos.

Não é uma regra. O espírito não tem sexo. Assim como tem aquele que viveu muitas vidas se utilizando um único modelo de corpo para suas provas, masculino ou feminino, e que, quando numa nova oportunidade o modelo for diferente, vai acabar trazendo as reminiscências do passado para a nova vida que florescerá na Terra. E que vai depender do grau de evolução dele o modo como vai interagir com isso. Assim como também é de responsabilidade dos pais a orientação e educação conforme as leis Divinas.

Nós devemos pensar como o espírito nestas condições acaba sendo um prisioneiro dentro de seu próprio corpo. Afinal é bonitinho ver a criança logo cedo falando de namorada na escolinha. Na adolescência comentar sobre as dúvidas na hora de uma paquera com o pai ou com a mãe. E o homossexual? Qual será a reação dos pais quando o menininho, por exemplo, falar que está apaixonado pelo amiguinho da escola?

Pode não ser esteticamente bonito ver um casal de homens ou de mulheres ter um relacionamento afetivo ou num beijo em meio a um espaço público. Mas não devemos pensar no ato. Nossa cabeça é muito fértil. Devemos lembrar que todos merecem ter o direito de igualdade e de respeito. Afinal, devemos amar o próximo como a si mesmo, não é mesmo?

Daí as pessoas ainda questionam porquê os gays vivem nos inferninhos, no centro velho de São Paulo, onde tudo parece mais fácil. Ainda os culpam pela propagação da AIDS. Mas poucos de nós sabem se apontar como culpados. Assim como há anos o negro foi marginalizado e há muito é ainda, atacado por um tiroteio de preconceitos, o homossexual também já foi muito e hoje ainda é. Incrivelmente pais infelizes ainda falam que preferem um filho drogado, bandido a ter um filho gay. Toda sociedade tem muito daquela consciência “hitleriana”, de se afastar e atacar aqueles que são diferentes do grupo “principal”, quando esquecemos que todos somos irmãos em escalada de evolução, onde todos compartilhamos dos mesmos erros e que ainda nos faltam muitos degraus para alcançarmos a maioridade. Temos que ser, sim, os primeiros agentes da mudança! E temos que começar desde já, varrendo nossa própria casa.

Fala MEU! Edição 41, ano 2006
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