Além do console: como a cultura geek está oxigenando o Espiritismo

Autor: Cauê Sanchez

e o que aprendemos com isso

Para quem frequenta o movimento espírita há décadas, a imagem de uma casa de prece é quase imutável: o silêncio respeitoso, o vocabulário solene e, talvez, uma certa resistência ao que vem de fora. Agora, imagine cruzar esse cenário com o frenesi de um campo de batalha no jogo League of Legends, a estética vibrante dos animes ou as discussões acaloradas no aplicativo Discord. À primeira vista, parece um erro de sistema, um “bug” geracional.

No entanto, o movimento enfrenta um desafio inadiável: o envelhecimento de suas fileiras e o distanciamento de uma juventude que não mais se vê representada em formatos estáticos. O debate promovido no programa espírita “Sem Fronteira” (transmitido no Youtube) nos mostra que a cultura geek não é apenas entretenimento de massa ou “perda de tempo”. Ela é, na verdade, uma gramática contemporânea capaz de traduzir leis universais. O propósito aqui é entender que o controle do videogame pode ser uma ferramenta de autoconhecimento e a “nerdice” a ponte necessária para a prática do bem no século XXI.

O Espiritismo precisa falar “Geek” para sobreviver

A renovação do movimento passa pela coragem de atualizar a embalagem sem corromper o conteúdo. Mike (20 anos) e Tales (34 anos), vozes à frente do projeto “Cultura Geek e o Espiritismo“, trazem essa perspectiva intergeracional: enquanto Mike representa a geração que “nasceu dentro do Google”, Tales traz a bagagem de quem viu a transição da tecnologia nos anos 90.

Eles argumentam que o uso de memes e gírias da internet não é um desrespeito à obra de Allan Kardec, mas uma tradução simultânea necessária. Se o jovem não compreende a linguagem, a mensagem se perde no vácuo. Como bem definiu Mike:

“Eu chego e falo: ‘Intancável. Não dá para tancar Kardec’. Vocês entenderam algo? Eu sim. É uma forma de apresentar as lições com o nosso linguajar, nossas gírias e memes.”

Videogames como parábolas modernas

Diferente de qualquer outra forma de arte, o videogame exige agência. Tales destaca que a imersão nos permite viver a história, tornando o aprendizado muito mais orgânico do que a recepção passiva de uma palestra. Sob o olhar da filosofia espírita, grandes sucessos da cultura pop tornam-se parábolas modernas sobre a alma humana:

  • The Witcher: Através de “Geraldo” (como Mike e Tales carinhosamente chamam o protagonista), vemos o combate aos monstros como uma metáfora perfeita para o enfrentamento de nossos próprios vícios e a lida com espíritos obsessores que se nutrem de nossas sombras.
  • Minecraft: Uma lição prática sobre a Lei do Trabalho e a capacidade do espírito de transformar a matéria e cocriar seu próprio universo dentro do game.
  • Undertale: Representa o que podemos chamar de “consequências das mecânicas”. O jogo exige uma ética rigorosa; cada escolha molda o destino do jogador, refletindo com precisão a Lei de Ação e Reação.
  • Dragon Ball: O icônico Goku é analisado como uma representação do Übermensch (o Além-do-Homem) que transcende seus limites não pelo ego, mas pela “Simplicidade e Pureza” moral — conceito central na reforma íntima.

O fenômeno dos “jogos espíritas” e a rencarnação no controle

Apesar da timidez do movimento espírita em produzir arte própria, já existem sementes florescendo. O jogo Cozy Grove é o exemplo perfeito: nele, o jogador atua como um guia em uma espécie de “zona de desequilíbrio lúdica”, auxiliando espíritos em transição a encontrarem paz e devolvendo cor ao ambiente. Além disso, franquias como Final Fantasy já exploram a reencarnação e a sobrevivência da alma há décadas, muitas vezes sob a forma de Visual Novels que provocam reflexões profundas sobre o pós-morte.

Reflexão do Autor: O movimento espírita ainda enfrenta tabus em relação à criação artística profissional. A ausência de um sistema de custeio (como o dízimo ou outro similar) e o preconceito contra o “novo” dificultam o financiamento de projetos tecnológicos de alta qualidade. Precisamos entender que a arte digital não é supérfluo; é o respiro que sustenta a saúde mental e espiritual da alma moderna.

Vigilância em vez de ataque: O lado sombrio da rede

A conversa toma um tom mais sóbrio com a participação da assistente social Dani, que alerta para os perigos ocultos em plataformas populares entre crianças e adolescentes. Tales explica que o crime digital utiliza uma Engenharia Social sofisticada: o aliciamento muitas vezes começa dentro do jogo Roblox, migra para as “panelinhas” (grupos fechados de usuários conhecidos como “paneleiros”) no aplicativo Discord e culmina em ameaças graves através dos aplicativos Telegram ou WhatsApp.

O diagnóstico, porém, não é a proibição tecnológica. O Discord, por exemplo, é uma ferramenta extraordinária que muitos grupos espíritas utilizam para realizar estudos online. O foco deve ser a conscientização e o diálogo. A ferramenta é neutra; o mal reside no uso mal-intencionado. A solução é a presença ativa dos pais e educadores, desarmando o ambiente através da supervisão e do acolhimento.

Ivone Pereira de fones de ouvido: quebrando a idolatria

Um dos pontos de maior atrito gerados com o programa Cultura Geeek e o Espiritismo é a humanização de ícones do Espiritismo. Ao ilustrar a médium Ivone Pereira usando fones de ouvido gamer ou fazendo referências a animes como Naruto (a polêmica comparação com a “raposa de Nove-Caudas” da cultura oriental), o projeto busca retirar a mentora do pedestal de estátua intocável.

Essa resistência de setores mais conservadores revela uma “idolatria aos palestrantes” que engessa o movimento. Tratar pioneiros como seres humanos passíveis de conexão com a cultura atual não diminui sua importância; pelo contrário, permite que sua mensagem alcance quem hoje consome “nerdolices” e busca nas “webdivas” e influenciadores um sentido para a vida. O diálogo intergeracional é um fluxo de mão dupla: o jovem ganha a experiência do mais velho, e o veterano se oxigena com a criatividade e a jovialidade do mais jovem.

O próximo nível da jornada

A espiritualidade não nos pede o abandono do mundo, mas a capacidade de decifrá-lo. Como lembrou Mike, a máxima de Paulo aos Tessalonicenses nunca foi tão atual: “analisar tudo e reter o que é bom”. Seja na profundidade de um livro de Leon Denis ou na narrativa complexa de um jogo indie, as lições morais estão espalhadas por todas as interfaces da nossa realidade.

    A diversidade cultural e tecnológica é a beleza do mundo em que reencarnamos, e não um motivo para isolamento. No final das contas, o “game over” é apenas um reinício para quem entende que a vida é uma jornada de múltiplos níveis em busca de evolução.

    Pergunta Final: E se a próxima grande lição de vida que você precisa aprender estiver escondida na narrativa do jogo que você acabou de baixar?

    SE BEBER, NÃO DIRIJA.SIMPLES ASSIM