Autor: Augusto dos Anjos (espírito)
Oh! que desdita estranha a de nascermos
Nas sombras melancólicas dos ermos,
Nos recantos dos mundos inferiores,
Onde a luz é penumbra tênue e vaga,
Que, sem vigor, fraquíssima, se apaga
Ao furacão indômito das dores.
Voracidade onde a alma se mergulha,
Apoucado Narciso que se orgulha
Na profundeza ignota dos abismos
Da carne, que, estrambótica, apodrece;
Que atrofiada, hipertrófica, parece
Cataclismo dos grandes cataclismos.
Prendermo-nos ao fogo dos instintos,
Serpentes entre escrófulas e helmintos,
Multiplicando as lágrimas e os trismos,
Tendo a alma – centelha, luz e chama –
Amalgamada em pântanos de lama,
Em sexualidades e histerismos.
Misturarmos clarões de sentimentos
Entre vísceras, nervos, tegumentos,
Na agregação da carne e dos humores,
Atrocidade das atrocidades;
Enegrecermos luminosidades
Na macabra esterqueira dos tumores.
E nisto achar fantásticos prazeres,
Ilusão hiperbólica dos seres
Bestializados, materializados;
Espíritos em ânsias retroativas,
No transcorrer das vidas sucessivas,
Nas ferezas do instinto, atassalhados.
Mas a análise crua do que eu via,
Hedionda lição de anatomia,
É mais que uma atrevida aberração:
Que se quebre o escalpelo de meus versos:
Entreguemos a Deus seus universos
Que elaboram a eterna evolução.
Notas
1 – Desde os tempos mais antigos, a poesia tem sido uma ponte entre a alma e o infinito. No Espiritismo, ela encontra um campo fértil para inspirar, consolar e iluminar consciências, expressando em versos sentimentos que muitas vezes escapam à linguagem comum. Seja pela sensibilidade dos poetas encarnados ou pelas mensagens de origem espiritual que marcaram a literatura espírita, a poesia continua sendo uma valiosa ferramenta de reflexão, beleza e elevação do pensamento.
2 – A poesia acima, psicografada por Francisco Cândido Xavier, faz parte do livro Parnaso de Além-Túmulo


