Autor: Felipe Gallesco
O som alto, a luz piscando, os amigos por perto. Em muitos ambientes frequentados por jovens, o ecstasy aparece quase como parte do cenário. Não raro, é tratado como algo “leve”, “controlável” ou menos perigoso do que outras drogas.
O problema é que essa imagem não combina com o que médicos, dados de saúde pública e relatos de usuários vêm mostrando nos últimos anos.
O ecstasy — ou MDMA — é uma droga ilegal no Brasil, de efeitos imprevisíveis, que pode causar danos físicos e emocionais sérios. E, em alguns casos, deixa consequências que permanecem por muito tempo depois do fim da festa.
Um tema que voltou ao centro do debate
O uso de drogas sintéticas tem crescido entre jovens, especialmente na faixa dos 16 aos 29 anos. O aumento é percebido em pesquisas nacionais, em relatórios internacionais e também no cotidiano dos serviços de saúde.
Prontos-socorros, unidades de atendimento psicológico e centros especializados relatam mais casos de intoxicação associados ao MDMA, muitas vezes envolvendo pessoas que não se consideravam usuárias frequentes de drogas.
Em comum, quase sempre aparece a mesma ideia: a de que o risco era menor do que realmente é.
O que a lei diz — sem rodeios
No Brasil, o ecstasy é classificado pela Anvisa como substância proscrita e está enquadrado na Lei nº 11.343/2006, a Lei de Drogas. Isso significa que não existe permissão legal para uso, mesmo em pequenas quantidades.
Porte, compra, compartilhamento e venda são crimes. Dependendo da situação, a abordagem pode resultar em detenção, processo criminal e antecedentes que acompanham a pessoa por anos.
A legislação não faz distinção entre “uso recreativo” e outras formas de consumo. Para a lei, a substância é ilegal. Ponto.
O que acontece no corpo
O MDMA atua diretamente no sistema nervoso central, estimulando a liberação intensa de neurotransmissores como serotonina e dopamina. O efeito imediato pode ser sensação de euforia e conexão, mas o custo fisiológico é alto.
Entre os riscos estão aumento excessivo da temperatura corporal, desidratação, sobrecarga cardíaca, confusão mental, crises de ansiedade e depressão nos dias seguintes ao uso. Em casos mais graves, há registros de internações prolongadas e risco de morte.
Outro fator preocupante é a falta de controle sobre a composição da droga. Muitas substâncias vendidas como ecstasy contêm misturas químicas variadas, com dosagens imprevisíveis e, às vezes, componentes ainda mais perigosos.
Não há padrão, não há fiscalização e não há garantia. Se o uso da droga falsificada não corresponder aos efeitos desejados e o usuário passar mal e tiver sérias complicações orgânicas, não dá para reclamar no PROCON.
“Achei que não era nada demais”
Os relatos de quem passou por experiências negativas costumam surgir só depois do susto.
Um estudante de 21 anos contou que começou a passar mal durante uma festa, mas acreditou que fazia parte do efeito. Desmaiou pouco tempo depois e acordou em um hospital, com risco real de complicações graves.
Uma jovem de 24 anos relatou que, após algumas experiências com a droga, desenvolveu crises de ansiedade que nunca havia tido antes. “Não consegui mais frequentar lugares cheios. Mudou muita coisa na minha vida”, contou.
Histórias como essas são comuns em atendimentos médicos e psicológicos, mas raramente aparecem nas redes sociais ou nas conversas informais sobre festas.
O olhar do Espiritismo
Do ponto de vista espírita, o uso de drogas não é analisado apenas pelos efeitos físicos, mas também pelas consequências que provoca no espírito. Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec explica que estados artificiais de alteração da consciência enfraquecem o domínio da vontade, comprometem o discernimento e deixam a pessoa mais suscetível a influências espirituais desequilibradas.
Ao tratar da obsessão, Kardec esclarece que a ligação entre encarnados e desencarnados ocorre por sintonia. Espíritos em sofrimento ou em desequilíbrio tendem a se aproximar daqueles que mantêm hábitos semelhantes aos seus, reforçando emoções desordenadas, impulsos e perturbações já existentes. Nesse sentido, o uso contínuo de substâncias psicoativas pode intensificar conflitos emocionais e mentais, dificultando o equilíbrio espiritual e o exercício consciente do livre-arbítrio.
Além disso, quando nos drogamos, prejudicamos os Espíritos desencarnados mas ainda adictos no espaço, ao facilitar que eles mantenham seus vícios às nossas custas. Se persistirmos, eles em permanente sintonia conosco irão nos incentivar ao uso da droga em um verdadeiro círculo vicioso.
Não se trata de medo ou punição, mas de consequência.
Falar sobre isso não afasta jovens
O ecstasy pode estar presente em ambientes universitários, grupos de amigos, festas e até em espaços onde o assunto ainda é tratado com certo constrangimento — o que não significa que esses locais sejam marcados pelo uso da droga ou que essa seja a realidade da maioria das pessoas. Ainda assim, fingir que isso não existe não protege ninguém. O silêncio, na prática, nunca foi uma solução eficaz.
Falar sobre ecstasy com clareza, sem exageros ou romantização, é uma forma real de cuidado. Trata-se de reconhecer que não é uma substância neutra: é uma droga ilegal, com riscos concretos à saúde física e mental, além de impactos emocionais e espirituais que muitas vezes só aparecem tempos depois — quando o efeito passa e as consequências ficam.
Abordar o tema com responsabilidade não é dar sermão. Significa entender que muitos jovens tomam decisões baseados em informações incompletas, distorcidas ou até idealizadas. As Fake News sobre o tema também podem contribuir nestas decisões. Quando a conversa não acontece, o espaço acaba sendo ocupado por mitos, pressão do grupo e falsas sensações de controle.
Por isso, o diálogo também precisa existir em ambientes educativos e formativos, como as reuniões de mocidade das Casas Espíritas. Falar sobre drogas nesses espaços não afasta jovens — aproxima. Mostra que a juventude é levada a sério, que suas dúvidas são legítimas e que a verdade pode ser dita com respeito, escuta e acolhimento.
Quando o assunto envolve saúde, liberdade, equilíbrio e futuro, dizer a verdade continua sendo uma das formas mais eficazes de cuidado.
Referências
BRASIL. Lei nº 11.343/2006 (Lei de Drogas) – Dispõe sobre o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas e criminaliza o porte, comércio e distribuição de MDMA.
ANVISA. Portaria SVS/MS nº 344/1998 – Classifica o MDMA (ecstasy) como substância proscrita no Brasil.
European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction (EMCDDA) – Relatórios anuais sobre consumo de MDMA e drogas sintéticas na Europa.
Ministério da Saúde / Fiocruz – Estudos sobre uso de drogas sintéticas e atendimentos por intoxicação no Brasil.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns – Capítulo XXIII – Da obsessão, itens 227 a 234.




