Autor: Felipe Gallesco
Eu moro em São Paulo e praticamente todo dia faço o mesmo caminho até o trabalho de metrô. Entro no vagão quase no automático, pensando no que preciso resolver, tentando ignorar o aperto e o barulho. Normalmente nada chama muito a atenção. Mas nessa semana chamou.
Peguei a Linha 4–Amarela e dei de cara com um cenário diferente. O vagão estava todo envelopado com imagens reais do Sistema Cantareira. Não era propaganda comum, colorida e alegre. Eram fotos que mostravam o nível baixo dos reservatórios, aquela paisagem seca que muitos preferem não ver. A ação faz parte da campanha “Gota por gota. Mais do que Nunca”, do Governo de São Paulo. Confesso que aquilo me causou incômodo. Foi como se a realidade tivesse entrado no metrô junto com o pessoal.
Eu já sabia que o estado enfrenta a seca mais forte dos últimos anos. O assunto aparece nas reportagens, surge nas conversas, mas acaba diluído na rotina. Ver aquelas imagens enquanto seguia para mais um dia comum fez o tema pesar de um jeito diferente. A mensagem era simples: a situação é séria e cada gota importa.
O mais curioso é que, mesmo com chuva em vários dias, o problema continua. Nem sempre a água que cai no nosso bairro resolve a situação dos reservatórios que abastecem milhões de pessoas. E São Paulo é grande demais para acreditar que “não vai faltar”. Quem já viveu racionamento sabe o quanto é difícil.
No meio daquele aperto, comecei a pensar nos meus próprios hábitos. Banho demorado. Torneira aberta além do necessário. Pequenas atitudes que parecem insignificantes, mas que, somadas, fazem diferença numa cidade desse tamanho. Muitas vezes existe a sensação de que a água simplesmente está ali, disponível, quando na verdade ela depende de um sistema inteiro funcionando — e de um equilíbrio que não está garantido.
Não acredito que conscientização aconteça apenas com imagens impactantes, mas naquele dia funcionou. Quebrou a indiferença. Lembrou que crise hídrica não é exagero, nem discurso distante. É algo que já está batendo à porta.
Por isso, esse assunto precisa ser conversado em vários espaços. Inclusive nas Casas Espíritas da região. No Espiritismo aprendemos que nossas escolhas têm consequências e que devemos pensar em nós mesmos, no próximo e também no planeta. Cuidar da água não é apenas uma questão ambiental ou econômica; é uma questão de consciência.
Falar sobre consumo responsável, responsabilidade coletiva e respeito à criação está totalmente alinhado com o que estudamos e refletimos. Se a proposta é evoluir, isso também passa por atitudes simples do dia a dia.
No fim das contas, aquela viagem de metrô foi só mais uma entre tantas. Mas saí diferente, com a sensação de que a mudança começa assim: num vagão cheio, numa imagem que incomoda e numa decisão silenciosa de agir melhor quando chegar em casa.




