Melhorar ou amarrar-se?

Autora: Cristina Sarraf

Um dos grandes nós do meio espírita é a questão da melhoria de conduta, que muitos entendem de forma inapropriadas e antidoutrinária, como reforma íntima.

Reforma-se o que estragou ou está ultrapassado, como roupas, por exemplo. Mas nossa forma de ser jamais se estraga, por pior que seja e não fica ultrapassada, porque é, sempre, reflexo de como ainda sentimos e pensamos.

A confusão conceitual nasce de entendimentos parciais e tendenciosos sobre a Lei da Progressão espiritual, mais conhecida como de Evolução. E é bem possível que tenha havido um sincretismo entre conceitos católicos de conduta perfeita, por obediente à Igreja, o que levaria ao céu, e as noções gerais sobre a evolução dos Espíritos. Tanto que há o pensamento de que evoluir é se tornar cada vez melhor, sem nunca errar, sofrer, etc.

Mas esse evoluir seria segundo conceitos pré-estabelecidos por quem?

O fato é que há uma propaganda sub-reptícia em livros e palestras, ressaltando que somos errados e carregamos coisas feias e criminosas do passado e temos que nos mudar por dentro, na conduta, nos sentimentos e pensamentos ou iremos penar no umbral. Além disso, Jesus chora por nossa causa!

É… parece que já vimos esse filme!

Entender que é dessa forma que melhoramos, significa empreender um grande e doloroso processo de amarrar-se e falsear, adulterar quem somos. O que passa muito longe da límpida e respeitosa lição do conhecer a si mesmo…

Conhecer-se não é se condenar, culpar ou apanhar psicologicamente, de si mesmo.

Conhecer-se é fruto de nos darmos condições de observar e verificar, sem críticas, como sentimos, reagimos, pensamos, falamos e agimos em relação ao que ocorre. Esse verdadeiro conhecer-se precisa de auto-sinceridade e auto-honestidade, porque é um abrir os olhos e ver, mas só ver! sem julgar, elogiar ou deplorar. Ao contrário, é uma postura científica de observação seguida de análise neutra, e depois a repetição desses procedimentos, até ser possível concluir.

Aliás, esse foi o método usado por Kardec nos estudos e fatos espíritas.

Nesse meio de tempo, enquanto estamos examinando como nos comportamos, valorizemos quem somos, aprovando e apoiando nossa forma particular de ser, nossos bons sentimentos e atitudes, nossa capacidade de superar dificuldades e a pessoa ótima que somos. O que pode ser feito falando consigo mesmo e negando tudo que nos “jogue para baixo” e nos condene.

Se foi possível uma conclusão em relação a um aspecto de nossa personalidade, então é hora de verificar se ele está sustentado por sentimentos/pensamentos equivocados ou se o equívoco está nas opiniões sobre ele. Por exemplo: a pessoa é introspectiva e recebe censura e chacota por isso. Querem que seja extrovertida e condenam sua forma de ser.

Se a pessoa dá mais valor e importância aos outros que a si, sente-se errada, defeituosa e procura ser como lhe indicam, amarrando sua naturalidade, se escondendo e copiando posturas.

Caso esteja conhecendo mais a si mesma, verificará que sua conduta é boa, porque tem facilidade de observar-se e sentir suas verdades íntimas. Não é timidez, é uma natureza mais reservada e analítica. O que não quer dizer que não possa ou não deva extroverter-se um pouco…

Cada tempo, povo e família tem seus valores, conceitos e preconceitos. O Espiritismo, trazendo as Leis Universais ao nosso conhecimento, destaca sermos individualidades exclusivas e abre as portas para entendermos que nossas características são sempre fruto do que sentimos, e isso define como pensamos e agimos, ou de como pensamos, o que define como sentimos e agimos. Há portanto, uma razão clara ou oculta por trás de nossas características.

Examinado-as sem crítica e condenação, podemos descobrir se são aprendidas com a família, a sociedade, os amigos atuais, ou se são coisas nossas, trazidas na reencarnação.

O que é aprendido agora, é facilmente substituído, se assim o desejarmos. Seja bom ou mal.

O que é trazido tem raízes mais fundas. Pode até estar atrelado a situações mal resolvidas. Por isso, se for preciso, por decisão pessoal e consciencial, fazer alguma alteração porque essa conduta está nos criando prejuízos, então a bondade consigo mesmo, a paciência, as conversas amigáveis e autovalorizadoras, funcionam mais e melhor. E vão nos libertando dos temores e hábitos cristalizados.

O bom senso, à luz de Kardec, mostra o que é bom para cada momento e situação.

Queremos viver em paz conosco e em harmonia relativa com os demais? O caminhos começa no valorizar-se todos os dias – o que nada tem a ver com vaidade e orgulho-  respeitar-se acima de tudo e tratar-se como trataria a pessoa mais amada.

Depois me conte os resultados, se tiver a disposição corajosa de experimentar essa melhoria libertadora.

Jornal do NEIE

MORADOR DE RUA TEM NOME, TEMHISTÓRIA, TEM VALOR

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