O dinheiro e os bens materiais à luz do Espiritismo

Autor: Flávio Cerqueira da Silva

Este artigo tem como objetivo trazer uma reflexão a propósito de como lidamos com a busca e a posse da fortuna e bens materiais ao longo da nossa trajetória encarnatória. Para isso, realizamos uma revisão bibliográfica das obras espíritas de Allan Kardec, tendo encontrado uma vasta e qualificada estrutura argumentativa, que bem preenche as lacunas dentro desse tema e nos permite sanar os principais questionamentos.

Introdução

No livro O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec (2013, p. 220) afirma que “Se a riqueza é causa de muitos males, se exacerba tanto as más paixões, se provoca mesmo tantos crimes, não é a ela que devemos inculpar, mas ao homem, que dela abusa, como de todos os dons de Deus.”

Sabemos que a intensa relação do homem com a matéria não é de agora, ela vem desde os primórdios da Humanidade, uma vez que o Espírito, ao encarnar na Terra, adentra uma realidade material em que precisa satisfazer as suas necessidades básicas, conceito explorado por Karl Marx na concepção do materialismo durante a Revolução Industrial, ideologia que apregoa a tese de que nada existe além da matéria.

Tendo em vista esses conceitos, é possível compreender que a valorização excessiva da matéria pelo homem se origina de uma construção cultural histórica, algo que será debatido nesse artigo, visando a um melhor entendimento da vida e do amor ao próximo, inspirado na conduta exemplar de Jesus Cristo durante a sua passagem na Terra.

Revisitando as obras clássicas de Kardec

A temática em questão é amplamente abordada nas obras de Allan Kardec durante a Codificação do Espiritismo, principalmente em O Evangelho segundo o Espiritismo e em O Livro dos Espíritos, verdadeiros guias para nossa jornada de evolução espiritual. Ao longo do capítulo XVI do Evangelho, Kardec explora a utilidade da fortuna e as provas da riqueza:

Quando Jesus disse ao moço que o inquiria sobre os meios de ganhar a vida eterna: “Desfaze-te de todos os teus bens e segue-me”, não pretendeu, decerto, estabelecer como princípio absoluto que cada um deva despojar-se do que possui e que a salvação só a esse preço se obtém; mas apenas mostrar que o apego aos bens terrenos é um obstáculo à salvação. (Allan Kardec, 2013, p. 219). 

Com isso podemos concluir que o que torna perigosa a busca incessante pelo dinheiro e posses com os quais muitos vivem é a facilidade a que estamos submetidos de nos desviar do caminho dos prazeres da eternidade, proveniente de uma vida de caridade e doação à Humanidade, como fez Jesus. Isso porque o homem já associou de maneira errônea o dinheiro com paz e felicidade plena, abdicando, assim, da conquista dos valores morais:

Quando considero a brevidade da vida, dolorosamente me impressiona a incessante preocupação de que é para vós objeto o bem-estar material, ao passo que tão pouca importância dais ao vosso aperfeiçoamento moral, a que pouco ou nenhum tempo consagrais e que, no entanto, é o que importa para a eternidade. (Allan Kardec, 2013, p. 224). 

Kardec complementa a argumentação sobre desapego a bens materiais um pouco mais adiante, focalizando um outro ponto de vista que deve ser observado sobre o assunto: “O desapego aos bens terrenos consiste em apreciá-los no seu justo valor, em saber servir-se deles em benefício dos outros e não apenas em benefício próprio, em não sacrificar por eles os interesses da vida futura.” (Allan Kardec, 2013, p. 228), pontuando, assim, a conduta ideal para quem os possui.

Sabemos que todas as provas pelas quais passamos foram escolhidas por nós no planejamento reencarnatório com o objetivo de reparar erros e trabalhar nossas deficiências, como explica um Espírito amigo ao ser indagado por Kardec na questão 814 de O Livro dos Espíritos em relação à utilidade delas: “Para experimentá-los de modos diferentes. Além disso, como sabeis, essas provas foram escolhidas pelos próprios Espíritos, que nelas, entretanto, sucumbem com frequência” (Kardec, 2007, p. 261).

Kardec ainda explica em O Evangelho segundo o Espiritismo que:

Sem dúvida, pelos arrastamentos a que dá causa, pelas tentações que gera e pela fascinação que exerce, a riqueza constitui uma prova muito arriscada, mais perigosa do que a miséria. É o supremo excitante do orgulho, do egoísmo e da vida sensual. É o laço mais forte que prende o homem à Terra e lhe desvia do céu os pensamentos. (Allan Kardec, 2013, p. 219).

Em outras palavras, o problema não está na riqueza em si, mas sim no que o homem faz com ela, pois, como citado acima, essa é uma prova que dá ensejo a diversas tentações, servindo de testes diários à disciplina na conduta humana.

Para aqueles que acreditam ser possível viver em função do dinheiro e, ao mesmo tempo, adorar a Deus, Kardec enfatiza:

Não podeis servir a Deus e a Mamon. Guardai bem isso em lembrança, vós, a quem o amor do ouro domina; vós, que venderíeis a alma para possuir tesouros, porque eles permitem vos eleveis acima dos outros homens e vos proporcionam os gozos das paixões. Não; não podeis servir a Deus e a Mamon! (Allan Kardec, 2013, p. 223).

Concluímos, então, que uma escolha deve ser feita – Deus ou as riquezas –, pois o reconhecimento dos homens a Mamon não se compara ao do Criador.

Em relação a origem uso das fortunas, Kardec ainda diz:

Sendo o homem o depositário, o administrador dos bens que Deus lhe pôs nas mãos, contas severas lhe serão pedidas do emprego que lhes haja Ele dado, em virtude do seu livre-arbítrio. O mau uso consiste em os aplicar exclusivamente na sua satisfação pessoal; bom é o uso, ao contrário, todas as vezes que deles resulta um bem qualquer para outrem.  (Allan Kardec, 2013, p. 225)

Ou seja, tudo aquilo que possuímos é temporariamente nosso enquanto estamos aqui nesta encarnação, pois, em essência, somos seres espirituais que se utilizam da matéria apenas para a promoção do nosso progresso; para nada além disso serve a matéria. Precisamos ter a sabedoria de estar no mundo sem ser do mundo. (João 15:19).

Considerações finais

Após analisar e discutir o tema, podemos concluir que o dinheiro foi perdendo ao longo da História o seu real significado de moeda de troca e aos poucos corrompe o homem discretamente. Por isso, devemos trabalhar para mudar essa nossa visão de mundo, alicerçada na mensagem de Mateus 6:33: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês”, visto que “Fora da caridade não há salvação” (Allan Kardec, 2013.)

Referências

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 131° Edição. Brasília, Brasil: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Versão digital: FEB, 2007.

Mateus 6:33. Disponível em: LINK-1 – Acesso em: 21 de setembro de 2024.

Bíblia Online. João 15. Disponível em: LINK-2 – Acesso em: 21 de setembro de 2024.

Flávio Cerqueira da Silva, 21 anos, é de Salvador-BA e autor do livro “Voando com as Águias“. 

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