Autora: Teresinha Olivier
Naquela manhã, como sempre, tinha que usar de toda a sua força de vontade para levantar-se e ir para o trabalho. Nos dois últimos anos, era assim que começavam seus dias.
Um desânimo arrasador tomava conta do seu ser e, o que mais queria era ficar deitada o dia todo, sem fazer nada.
Aliás, nas primeiras semanas após o acidente que mudou a sua vida, era mesmo deitada que passava o dia, até que numa manhã, ao acordar, resolveu reagir. Não era justo para com sua mãe, tão preocupada com ela. Muniu-se de toda a coragem e foi para o trabalho.
E assim estava vivendo desde então.
Numa noite, após o jantar, o telefone tocou.
– Cristina – disse uma voz, quase sussurrando, entrecortada por ruídos ásperos. Quando ela ia responder, o aparelho ficou silencioso.
– Quem era, filha? – Perguntou a mãe que já estava deitada.
– Não sei, mamãe. Havia uma interferência e a ligação caiu. Se for alguma coisa importante, ligarão de novo.
Mas não houve mais nenhuma ligação naquela noite.
Na noite seguinte, no mesmo horário, o telefone tocou novamente.
– Pode deixar que eu atendo, mamãe.
– Cristina. – A mesma voz sussurrando seu nome em meio a ruídos. E novamente a interrupção da ligação antes dela pronunciar qualquer palavra.
– Que estranho – pensou – parece que alguém não está conseguindo falar comigo. Quem será?
Na terceira noite, mais uma vez, o toque do telefone.
– Cristy, meu anjo – e novamente os ruídos e o silencio.
Ela desligou o aparelho e deixou-se cair sentada na cadeira, com as pernas trêmulas, o coração disparado.
– O que é isso? – Disse para si mesma – Só ele me chamava assim! Ninguém sabia. Era somente entre nós dois… será que ele contou para alguém que agora está brincando comigo? Mas quem teria coragem de fazer uma coisa dessas?
Naquela noite não conseguiu dormir. Revirou-se o tempo todo, até amanhecer.
Durante o dia, no trabalho, ficou pensando se o telefone ia tocar à noite e, só de pensar, seu coração acelerava.
A lembrança do acidente veio com toda a força em sua mente, despertando nela toda a emoção que viveu na época.
Reviu a bela figura de Alexandre, seu noivo tão amado, abraçando-a ao despedir-se e beijando-a carinhosamente como sempre fazia.
– Até breve, Cristy, meu anjo. Quando eu voltar, marcaremos a data do nosso casamento.
Ia para uma cidade do interior de São Paulo a serviço da empresa em que trabalhava e que tinha uma filial lá. Essas viagens eram comuns e ele ficava fora de três a quatro dias, e sempre retornava cheio de amor e de carinho para ela.
Mas, a última vez foi diferente.
Na viagem de volta, um caminhão desgovernado bateu de frente em seu automóvel, matando-o na hora.
Foi um choque muito grande. Seus sonhos se desmoronaram. Sofreu e chorou muito.
Passados alguns dias, seus familiares, com muito cuidado, tiveram que lhe revelar um fato bastante constrangedor: Alexandre estava com alguém no carro. Era uma jovem que também morreu. Em sua bolsa foi encontrada uma carta de amor assinada por aquele que Cristina julgava ser somente seu.
“Para sempre seu, Alexandre” – terminava a carta, depois de palavras tão amorosas quanto àquelas que ele dizia para ela. Seu irmão lera a carta ao acompanhar os pais de Alexandre no reconhecimento do corpo.
Então sua dor transformou-se em mágoa e revolta. Cristina e sua família concluíram que Alexandre, que ia com muita frequência a essa cidade, conhecera e se envolvera com essa moça e não tivera coragem de confessar esse relacionamento.
Cristina fechou-se em sua dor. E desde então, continuou sua vida entre a dor da perda e a mágoa da traição.
E agora, esses telefonemas perturbadores. Estava muito confusa…
À noite, quando foi chegando o horário dos outros telefonemas, seu coração começou a disparar.
De repente, o toque. Ela assustou-se. Atendeu, temerosa:
– Cristy, meu anjo…procure saber…saber…a verdade…
Em seguida, o silêncio.
Essas palavras repetiram-se por mais três noites.
Não tinha mais dúvidas de que a voz era de Alexandre. Não sabia como explicar, mas a voz era dele.
Já não dormia mais, nem se alimentava. Não teve coragem de contar a ninguém. Não sabia nem mesmo como contar algo assim tão fantástico a quem quer que fosse. Não acreditariam nela. Iam achar que ela estava louca…
– O que significa “procurar saber”, “procurar a verdade?” Saber o quê? Que verdade é essa? Só pode ser algo em relação às circunstâncias do acidente e sobre aquela moça. Só pode ser isso!
Dois dias depois estava na estrada, a caminho daquela cidade. Sabia onde deveria ir, pois num dos passeios que fizera com Alexandre, eles passaram em frente à empresa que ele sempre visitava a trabalho.
– É aqui que eu venho quando a deixo sozinha e fico morrendo de saudades, meu anjo – disse carinhoso, passando a mão em seu rosto.
Encontrou facilmente a empresa. Não sabia bem o que fazer. Alexandre sempre falava de um gerente que o atendia, Sr. Norberto. Resolveu perguntar por ele na recepção.
Rapidamente, foi levada até a sua presença. Apresentou-se como a noiva de Alexandre e, sem saber bem o que falar, disse que estava sofrendo muito e queria saber se alguém ali o conhecera bem e se podia dizer alguma coisa sobre ele.
O Sr. Norberto, penalizado, disse…
– Eu compreendo bem a sua dor, senhorita. Mas eu pouco posso falar sobre o Alexandre, somente que era uma pessoa que eu respeitava muito, pela sua educação e o seu senso de responsabilidade. Porém, o nosso relacionamento era estritamente profissional…
– Eu compreendo – Respondeu ela, desapontada. Não sabia o que fazer para chegar àquela moça.
Nisso, entra no escritório um rapaz de porte elegante e muito bem apessoado.
– Sr. Norberto, aqui estão os documentos…
– Obrigado, Júlio.
Quando o rapaz ia saindo da sala, não sem antes perceber a presença de Cristina, a quem cumprimentou discretamente, o gerente lhe perguntou:
– Júlio, você conversou com o Alexandre na última vez que ele esteve aqui, não foi? Eu vi vocês dois saindo juntos naquele dia.
– É verdade, Sr. Norberto. Naquele dia eu o levei até minha casa. Mas, por que o senhor está me perguntando isso?
– Esta moça era a noiva dele e está querendo conversar sobre ele com alguém. Você poderia dar uma atenção a ela?
– Com toda a certeza, Sr. Norberto. Estou à disposição.
– Ótimo – respondeu o gerente – tire a tarde de folga e acompanhe a senhorita Cristina.
Depois das apresentações, Cristina e Júlio saíram da sala e se dirigiram à lanchonete, para um café.
E Júlio começou a falar:
Já havia visto Alexandre algumas vezes na empresa, mas nunca conversara com ele. Era sempre com o Sr. Norberto que ele tratava. Naquele dia, como o Sr. Norberto estava atendendo alguns clientes estrangeiros, pediu ao Júlio que atendesse ao Alexandre no que ele precisasse. Estabeleceu-se entre ambos uma simpatia instantânea. Pareciam amigos de longa data. Almoçaram juntos e conversaram bastante.
– Alexandre falou muito de você, Cristina. Estava extremamente feliz porque vocês iam se casar em breve.
Júlio convidou Alexandre para conhecer seus pais e sua irmã, Alice, antes de retornar a São Paulo. Alexandre aceitou de bom grado. Os pais de Júlio adoraram Alexandre.
– Era a sua irmã que estava com ele no carro, Júlio? – Perguntou Cristina.
– Era sim. Alice precisava ir a São Paulo para uma entrevista numa empresa. Há tempos que ela esperava por essa oportunidade. E como Alexandre ia para lá, naquela tarde, ofereceu-se para levá-la. Foi quando aconteceu o acidente que abalou profundamente as nossas vidas.
Cristina, ansiosa para saber de todas as circunstâncias, perguntou:
– Então, Alexandre e sua irmã conheceram-se no dia do acidente? Nunca haviam se visto antes?
– Nunca, Cristina. Eu os apresentei naquele dia. Por quê?
– Eu não estou entendendo uma coisa, Júlio. Se eles não se conheciam, como que sua irmã trazia com ela uma carta de amor assinada pelo meu noivo?
Júlio ficou olhando para Cristina, querendo saber onde ela estava querendo chegar. Nesse momento percebeu o motivo de sua presença naquela cidade. Achava que Alexandre e sua irmã tinham tido um caso.
– Cristina, pelo amor de Deus, você não está pensando que…
– O que mais posso pensar, Júlio? Meu irmão leu a carta. Você não imagina o que tenho sofrido nestes dois anos, pensando na traição de Alexandre!
– Meu Deus, Cristina! Que grande engano! Por uma grande coincidência, minha irmã namorava, desde a adolescência, um rapaz daqui da cidade que também se chamava Alexandre. Ele estava no exterior na época do acidente. Escrevia constantemente para ela. Com certeza ela levou a carta para ter algo dele junto a ela, uma lembrança, talvez. Mas não tinha nada a ver com o seu Alexandre, Cristina.
Cristina começou a chorar e mal conseguia falar.
Júlio continuou:
– O grande erro de tudo isto, Cristina, foi o fato de nossas famílias não entrarem em contato. Tudo ficaria esclarecido e não haveria tanta dor. Mas, na minha família, a dor não foi somente a perda de Alice. Meu pai, que já estava bem doente, teve um infarto dois dias após o acidente. Ficou internado, entre a vida e a morte, durante três meses, vindo a falecer. Minha mãe, que se mostrava forte até essa nova perda, ficou com a saúde bastante abalada, necessitando de cuidados constantes até hoje. Então, não houve condições de procurarmos vocês. E agora, passados mais de dois anos, achei melhor não entrar em contato para não remexer nas feridas que poderiam estar cicatrizando.
Cristina somente chorava. Não conseguia emitir uma só palavra.
Júlio pegou-a pela mão, e disse:
– Vamos até minha casa. Minha mãe gostará de conhecê-la.
Cristina conheceu a mãe de Júlio, uma senhora muito simpática e amorosa. Conversaram sobre Alexandre e sobre Alice. Cristina teve a impressão que aquela conversa trouxe um lenitivo ao sofrimento daquela senhora, e também ao dela.
Na despedida, abraçaram-se e Cristina teve que prometer que retornaria.
Júlio acompanhou Cristina até o carro, e perguntou:
– Cristina, o que a fez procurar-nos somente agora, depois de dois anos?
Com um certo receio do que Júlio poderia pensar dela, falou sobre os telefonemas, e qual não foi a sua surpresa quando ele respondeu com a maior naturalidade:
– Ah! Transcomunicação instrumental? Que maravilha, Alice!
Ela ficou olhando para ele, espantada com a sua reação.
– Mas o que é isso? O que significa?
– É a comunicação de Espíritos através de aparelhos.
– E isso é possível?
– É perfeitamente possível, Cristina. Há tempos eu estudo esse assunto com um grupo que faz experiências. Tenho muitos livros. Se você quiser, podemos conversar sobre isso, estudar juntos. O que você acha?
Na volta para casa, dirigindo tranquilamente, Cristina ia pensando nas surpresas da vida. Aqueles telefonemas abriram sua mente para uma nova ordem de coisas, nas quais nunca havia pensado. Nunca se preocupara com o que acontece depois da morte, se a vida continua, ou não. Se os entes queridos continuam a nos amar, a se preocuparem conosco…
Agora, de uma coisa tinha certeza: Alexandre continuava vivo e amando-a. Mas, muitas perguntas bailavam em sua mente. E Júlio ia ajudá-la a encontrar as respostas.



