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Os animais no mundo espiritual

Autor: Eurípedes Kuhl

Gratificante que esse tema, até pouco tempo tão deslembrado, esteja agora visitando e instigando a mente de tantas pessoas, não necessariamente espíritas, senão sim, todas, ao menos, espiritualistas, querendo saber o que acontece com animais, depois que morrem…

De minha parte e com o que conheço do Espiritismo, respondo a esse questionamento em etapas, retrocedendo no tempo, iniciando com a criação dos primeiros seres vivos que surgiram na Terra…

Criação dos seres vivos

Deus, “a inteligência suprema e a causa primária de todas as coisas”[1], cria sem cessar — uma das criações da Providência Divina é o Princípio Espiritual, ou Princípio Inteligente (PI), que verte do “Princípio Inteligente Universal”.

As primeiras manifestações desse Princípio Inteligente são as mônadas celestes, que trabalhadas no transcurso dos milênios, por operários espirituais, exprimem-se no mundo através da rede filamentosa do protoplasma, daí derivando-se em existência organizada no Globo constituído; mônada celeste, assim, seria a célula espiritual manifestando-se no PI, na primeira fase de evolução do ser vivo[2].

(…) “O Princípio Espiritual (ou PI) é o gérmen do Espírito, a protoconsciência. Uma vez nascido, jamais se desfará, jamais morrerá. Filho de Deus Altíssimo inicia então a sua lenta evolução, no espaço e no tempo, rumo ao principado celeste, à infinita grandeza crística. Durante milênios vai residir nos cristais, em longuíssimo processo de autofixação, ensaiando aos poucos os primeiros movimentos internos de organização e crescimento volumétrico, até que surja, no grande relógio da existência, o instante sublime em que será liberado para a glória orgânica da Vida, na forma de mônadas espirituais, que destacadas dos cristais pelos prepostos crísticos completaram seu estágio de individuação!”[3].

O Espírito Emmanuel, pela psicografia de F. C. Xavier, oferta-nos sublime informação, altamente científica quanto poética, sobre o início da vida, a partir do protoplasma, após a criação do planeta Terra:

Daí a algum tempo, na crosta solidificada do planeta, como no fundo dos oceanos, podia-se observar a existência de um elemento viscoso que cobria toda a Terra. Estavam dados os primeiros passos no caminho da vida organizada. Com essa massa gelatinosa, nascia no orbe o protoplasma e, com ele, lançara Jesus à superfície do mundo o germe sagrado dos primeiros homens[4].

O Espírito André Luiz informa no citado livro “Evolução em Dois Mundos”, 1ª Parte, Cap. VI, quanto ao tempo relativo a contar da criação do ser vivo (PI) até alcançar a condição humana (nossa condição…):

Genealogia do Espírito: (…) Com a Supervisão Celeste, o princípio inteligente gastou, desde os vírus e as bactérias das primeiras horas do protoplasma na Terra, mais ou menos quinze milhões de séculos, a fim de que pudesse, como ser pensante, embora em fase embrionária da razão, lançar as suas primeiras emissões de pensamento contínuo para os Espaços Cósmicos.

(Sim: essa é nossa idade relativa: um bilhão e meio de anos!…).

Cito reflexões de outro autor, Gabriel Delanne (1857-1926), em seu livro “A Evolução Anímica”, publicado inicialmente em 1895(!):

(…) A alma, ou Espírito, é o princípio inteligente do Universo. (…) É mediante uma evolução ininterrupta, a partir das formas de vida mais rudimentares, até à condição humana, que o princípio pensante conquista, lentamente, a sua individualidade. Para poder atuar sobre a matéria, cada Princípio Inteligente utiliza o concurso de uma força, a que se conveio em chamar “fluido vital” e todos estarão revestidos de “invólucro invisível, intangível e imponderável”. Esse invólucro denomina-se Perispírito (apesar de sua materialidade é bastante eterizado). É formado de matéria cósmica primitiva — o fluido universal [5].

A pouco e pouco todos os PI percorrerão infinitos ciclos evolutivos, num e noutro plano da vida (o espiritual e o material), durante os quais serão mantidos, monitorados e guiados por Inteligências Siderais, responsáveis pela Vida, por delegação divina.

Sobre particularidades da vida nos reinos mineral, vegetal e animal, Kardec perguntou[6] e obteve respostas claras, não passíveis de segunda interpretação. Resumindo-as:

– Minerais: só têm força mecânica (não têm vitalidade);

NOTA: Quer-me parecer que essa força é a que mantém a agregação dos átomos, uns aos outros, formando toda a matéria existente, inclusive a que acompanhará as várias vestimentas físicas do PI na sua longa trajetória evolutiva de experiências terrenas; o reino mineral, assim, seria uma espécie de estágio precursor da eclosão do PI na vida orgânica, após o que, então, este já estará equipado de agregação atômica (a força mecânica citada por Kardec) nos diversificados corpos que utilizará na sua marcha evolutiva. (Reconheço que esta é uma reflexão ousada, não passando, pois, de opinião pessoal. Minha opinião — humilde ensaio.)

– Vegetais: são dotados de vitalidade e têm vida orgânica (nascem, crescem, reproduzem e morrem), além de serem dotados de instinto rudimentar;

– Animais: têm instinto apurado e inteligência fragmentária, além de linguagem própria de cada espécie; têm um princípio independente, que sobrevive após a morte; esse princípio independente, individualizado, algo semelhante a uma alma rudimentar, inferior à humana, dá-lhes limitada liberdade de ação (apenas nos atos da vida material); assim, pois, não têm livre-arbítrio; essa “alma”, não sendo humana, não é um Espírito errante (aquele que pensa e age pelo livre-arbítrio).

Promoção do animal ao hominal

Os milênios escorrem e o PI chega ao reino animal, do qual um dia, também distante, será transferido, segundo estatuto da Providência Divina, para um degrau acima… O reino hominal, o da inteligência contínua!

Sobre essa fantástica transição do animal à humanização, eis o que encontrei na literatura espírita:

Em “Evolução em Dois Mundos”:

a. À maneira de crianças tenras, internadas em jardim de infância para aprendizados rudimentares, animais nobres desencarnados, a se destacarem dos núcleos de evolução fisiopsíquica em que se agrupam por simbiose, acolhem a intervenção de instrutores celestes, em regiões especiais, exercitando os centros nervosos.

Obs.: Vejo aqui, salvo melhor juízo, pista para entendimento sobre o chamado “elo perdido” dos biólogos e naturalistas: ele não se processa na Terra e sim no mundo espiritual…

b. A girencefalia (característica dos cérebros com circunvoluções, o que possibilita uma maior área cortical – de córtex. Ex: cérebro dos primatas) e a lissencefalia (condição de cérebro sem circunvoluções, o que resulta em pequena área cortical) obedecem a tipificações traçadas pelos Orientadores Maiores, no extenso domínio dos vertebrados, preparando o cérebro humano com a estratificação de lentas e múltiplas experiências sobre a vasta classe dos seres vivos.

(Cap. IX – Evolução e Cérebro, p. 67-68);

c. (…) Nomearemos o cão e o macaco, o gato e o elefante, o muar e o cavalo, como elementos de vossa experiência usual, mais amplamente dotados de riqueza mental, como introdução ao pensamento contínuo.

(Cap. XVIII – Evolução e destino, p. 212).

Ainda sobre a promoção do irracional à racionalidade (de animal a homem) — o chamado “elo perdido” dos naturalistas — encaminho o leitor ao livro que já citei — “A Caminho da Luz” —, de Emmanuel/F. C. Xavier, Cap. II, item A grande transição, p. 31, onde, em síntese, consta:

(…) As descobertas da Paleontologia, quanto ao homem fóssil, são um atestado dos experimentos biológicos a que procederam os prepostos de Jesus, até fixarem no “primata” os característicos aproximados do homem futuro. (…) As hostes do invisível operaram uma definitiva transição no corpo perispiritual pré-existente, dos homens primitivos…”. Grifei.

A mim não padece dúvida de que o “elo perdido” não está na Terra…

À medida que ocorre a sua individualização, na extensa rota de experiências, no reino animal o PI já tem uma alma, porém inferior à do homem[7]; assim sendo, é lícito deduzir que revestindo essa alma há um corpo astral — o perispírito —, sutil, mas ainda material (como já registramos) e sempre mais grosseiro do que o do homem.

Estagiando sucessivamente nos reinos mineral, vegetal e animal, os animais de algumas das espécies que irão se humanizar terão seus respectivos PI gradativamente equipados pela Providência Divina de instinto e automatismos fisiológicos[8] específicos.

Tais automatismos representarão poderosos equipamentos para possibilitar-lhes a existência e a sobrevivência nos rudes crivos que terão de superar até a humanização, quando então, ainda com tais condicionamentos automáticos (que possibilitam o metabolismo), serão equipados, pelos Gestores Celestiais, de três abençoadas e incomparáveis ferramentas morais, na sequência do alcandorado voo da Evolução: livre-arbítrio, inteligência contínua e consciência! 

Outros reinos naturais

Tratando-se da promoção de seres vivos a patamares mais evoluídos, além das espécies do reino animal citadas, de minha parte não encontrei referências aos répteis, insetos, aves, peixes, ou sobre as demais incontáveis espécies zoológicas, incluindo-se as extintas no planeta.

Não obstante, Allan Kardec deixou registrada importantíssima informação no livro “A Gênese”, no Cap. VI – Uranografia Geral, item A Criação universal, nº 18:

Esse fluido (Fluido Cósmico) penetra os corpos, como um oceano imenso. É nele que reside o princípio vital que dá origem à vida dos seres e a perpetua em cada globo, conforme a condição deste princípio que, em estado latente se conserva adormecido onde a voz de um ser não o chama. Toda criatura, mineral, vegetal, animal ou qualquer outra — porquanto há muitos outros reinos naturais, de cuja existência nem sequer suspeitais — sabe, em virtude desse princípio vital e universal, apropria as condições de sua existência e de sua duração. (Grifei)

De posse dessa informação, apenas como “hipótese de trabalho”, sabendo que a divina Lei do Progresso age inexoravelmente em favor de todos os filhos do Supremo Criador, nada me objeta supor — apenas supor — que as incontáveis espécies animais que na Terra não se humanizam talvez sejam enquadradas em outras rotas ou processos evolutivos, em outros mundos, absolutamente desconhecidos do homem.

Conclusão

Respeitáveis autores espíritas, desencarnados, aduziram informações sobre os animais no reino espiritual:

1. Allan Kardec:

– sob orientação de Inteligências Celestes, registrou às questões 598 a 600, de “O Livro dos Espíritos”, que os animais, ao morrer, mantêm sua individualidade, permanecendo em vida latente sob cuidados de Espíritos especializados, que os classificam e agrupam; nos animais a reencarnação não se demora;

2. André Luiz:

– narra no Cap. XII do livro que já citei — “Evolução em Dois Mundos” — que, após a morte, os animais têm dilatado o seu “período de vida latente” no Plano Espiritual, caindo em pesada letargia, qual hibernação, de onde serão genesicamente atraídos às famílias da sua espécie, às quais se ajustam.

Essa informação considero-a fundamental para o entendimento de como os animais vivem no Plano Espiritual, aguardando a próxima reencarnação. Kardec registrou que após a morte os animais são classificados e impedidos de se relacionarem com outras criaturas; André Luiz, agora, diz a mesma coisa, de outra forma, ao mencionar que os animais que não são destacados para alguma tarefa, entram em hibernação e logo reencarnam.

Depreendo, assim, que no mundo espiritual os animais não utilizados em alguns serviços, não têm vida consciente, mas vegetativa, e isso responde à pergunta de como vivem lá: sem qualquer relacionamento, uns com os outros; assim, não havendo ação de predadores inexistem presas; mantidos em hibernação não se alimentam, não brigam, não reproduzem, não se deslocam.

– reporta à presença de alguns animais em atividade no mundo espiritual, como, por exemplo, aves, cães, cavalos, íbis viajores, muares. Alguns são “escalados” para tarefas diversificadas (cães e cavalos, na maioria das vezes, como se vê, respectivamente, em “Nosso Lar”, Cap. 33, p. 183, 48ª Ed., 1998, e em “Os Mensageiros”, Cap. 28, p. 149, 9ª Ed., 1975 – ambas as obras psicografadas por F. C. Xavier, Ed. FEB, RJ/RJ);

– menciona, ainda em “Nosso Lar”, Cap. 33, p. 184, sobre a existência no plano espiritual de “Parques de estudo e experimentação”, referentes a animais, sendo que sobre eles há valiosas lições no Ministério do Esclarecimento. O autor espiritual não deu detalhes.

3. Marcel Benedeti, médico veterinário, desencarnado aos 47 anos em 1º. Fev. 2010, notabilizou-se como escritor espírita e dedicado defensor dos animais. Dentre suas inúmeras atividades em prol dos animais, destaco vários livros nos quais, sob inspiração de um Protetor espiritual, deixou registradas inéditas, quanto preciosas informações da vida dos animais no mundo espiritual. Nessas obras Marcel narra a existência de colônias específicas para animais no mundo espiritual, constando que tal narração é inédita. A descrição e os detalhes dessas colônias trazem em seu bojo um panorama de atividades zoófilas, a cargo de Espíritos que amam os animais. De forma comovente são narradas atividades de atendimento e carinho aos incontáveis animais que aportam no mundo espiritual, em estado de necessidade, trazendo no corpo perispiritual dolorosas marcas da insensatez e crueldade humanas…

De antemão fica explícito que as narrações de Marcel, de alguma forma, ampliam a informação do Espírito André Luiz referente a animais no mundo espiritual, particularmente sobre os “parques de estudo e experimentação”, ambas as fontes trazendo o selo da Bondade da Providência Divina para com todos os seres da criação.

Encerrando estas já não breves reflexões, como suposição, creio firmemente que dentro do quadro de animais domésticos desencarnados, que foram amados por seus donos, sabendo que por pouco tempo permanecem no plano espiritual, há a probabilidade de àquele convívio terreno re­tornarem, a breve tempo após a desencarnação. Um sinal disso seria a chegada de novo animal no lar… Embora com os automatismos biológicos específicos da espécie, tem comportamento individual diferenciado, igualzinho ao daquele que morava ali anteriormente e há algum tempo foi para a outra margem do Rio da Vida…

O bondoso Chico Xavier, consolando duas senhoras aflitas que o procuraram, lamentando a morte do cachorrinho de estimação, disse-lhes: “quando nossos animais domésticos morrem, é comum eles ficarem em nossas casas. Eles também têm alma. Os Espíritos que cuidam da natureza costumam deixá-los por algum tempo na casa do dono, até que possam nascer novamente”.

Referências

[1] Em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, questão nº 1, Ed. FEB, RJ/RJ.

[2] Em “Evolução em Dois Mundos”, do Espírito André Luiz, psicografia de F. C. Xavier e W. Vieira, Cap. III, Primórdios da Vida, 11ª Ed., 1989, FEB, RJ/RJ.

[3] Em “Universo e Vida”, Espírito Áureo, psicografia de Hernani T. Santanna, Cap. III, p. 42 e 45, 5ª Ed., 1998, FEB, RJ/RJ.

[4] Em “A Caminho da Luz”, Cap. I (“A Gênese Planetária” – item “O Verbo na Criação terrestre”), p. 22-23, 13ª Ed., 1985, FEB, RJ/RJ.

[5] Em “A Evolução Anímica”, de Gabriel Delanne, “Introdução”, p. 15 e 16, 6ª Ed., 1989, FEB, RJ/RJ.

[6] Em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, Cap. XI, Dos três reinos.

[7] Em “O Livro dos Espíritos”, questões n° 597 e 597ª.

[8] Em “Evolução Em Dois Mundos”, 1ª Parte, Cap. IV, p. 37.

O consolador – Ano 6 – N 297

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