Por que o jovem não fala na reunião de mocidade?

Autor: Felipe Gallesco

Por que é tão fácil falar nas redes sociais, mas tão difícil levantar a mão na reunião de mocidade?

Essa pergunta passa pela cabeça de muitos jovens — e talvez pela sua também.

Quando a voz some, mas a vontade de participar continua

Na faculdade, no trabalho ou em casa, o jovem aprende rápido que falar demais pode trazer julgamento, cobrança ou rótulos. A pressão por acertar, por “ser alguém”, por não errar em público, vai ensinando uma estratégia silenciosa: observar mais, falar menos.

Agora imagina levar isso para a reunião de mocidade espírita. Um espaço que deveria ser de acolhimento, mas que, às vezes, é percebido como um lugar onde “todo mundo sabe mais”, “todo mundo já leu mais livros espíritas do que eu” ou “minha dúvida pode ser boba demais”.

O silêncio, então, não é desinteresse. Muitas vezes, é autoproteção.

O jovem fala pouco… mas pensa muito

Dados recentes mostram que o silêncio juvenil não é exclusivo da casa espírita. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a ansiedade é um dos principais desafios de saúde mental entre jovens no mundo [1]. No Brasil, pesquisas do IBGE indicam crescimento significativo de sintomas de ansiedade e insegurança emocional entre pessoas de 15 a 29 anos [2].

Agora conecta isso com a mocidade:

  • Medo de errar em público
  • Medo de parecer ignorante
  • Medo de julgamento moral
  • Medo de “não ser espírita o suficiente”

Silêncio, aqui, não é falta de conteúdo. É excesso de cuidado.

“Mas a reunião é justamente para aprender…”

Sim. E é aí que mora o paradoxo.

O Espiritismo, desde sua base, valoriza a pergunta, a dúvida honesta, o questionamento respeitoso. O Livro dos Espíritos nasce inteiro de perguntas. Kardec não teve medo de perguntar — nem de registrar respostas diferentes ou incompletas.

“Para bem compreender certas coisas, só há um meio: estudá-las, aprofundá-las.”
— Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Introdução [3]

Mas, na prática, muitos jovens sentem que precisam entender tudo antes de falar, quando, na verdade, falar também é parte do entender.

Psicologia explica: o medo do julgamento paralisa

A Psicologia Social chama isso de ansiedade social: o receio intenso de ser avaliado negativamente em situações de grupo [4]. Ambientes onde há figuras percebidas como “mais experientes” ou “mais sábias” aumentam esse bloqueio.

Na mocidade, isso aparece em pensamentos como:

  • “Minha dúvida é rasa”
  • “Isso todo mundo já sabe”
  • “Vão achar que não estudei”
  • “Melhor ficar quieto”

O corpo até quer falar. A mente freia.

Quando o jovem não fala, o grupo perde

Na prática do dia a dia da casa espírita, o silêncio juvenil gera efeitos reais:

  • Reuniões menos conectadas com a realidade atual
  • Temas que não dialogam com dores reais (ansiedade, futuro, identidade, relações)
  • Jovens presentes fisicamente, mas ausentes emocionalmente

A Sociologia chama isso de participação simbólica: estar no espaço sem se sentir parte dele [4].

E isso dói — mesmo quando ninguém diz.

Falar não é obrigação. É convite

Aqui entra um ponto essencial: ninguém deveria falar por obrigação.

Mas todo jovem precisa sentir que:

  • sua dúvida é válida
  • sua vivência importa
  • sua fala não será corrigida com superioridade
  • seu tempo é respeitado

Jesus nunca forçou ninguém a falar. Ele perguntava, escutava, caminhava junto.

“Não vim chamar os justos, mas os pecadores.” (Jesus – Mateus 9:13)

Traduzindo para hoje: não vim chamar os que já sabem tudo, mas os que ainda estão tentando entender.

Aos expositores: Pequenos gestos mudam tudo

Na prática, são atitudes simples — mas consistentes — que transformam o ambiente da mocidade e abrem espaço para a participação real:

  • Valorizar a pergunta, não apenas a resposta.
  • Normalizar frases como “não sei”, “nunca pensei nisso” ou “estou tentando entender”.
  • Compartilhar dúvidas, dificuldades e aprendizados dos próprios facilitadores, mostrando que ninguém sabe tudo.
  • Usar exemplos do cotidiano: trabalho, estudos, redes sociais, relacionamentos, escolhas reais e dilemas comuns.
  • Criar momentos de fala sem pressão, como rodas de conversa, escrita anônima, dinâmicas em grupos menores ou perguntas deixadas em caixa.
  • Respeitar o tempo de cada um, sem forçar participação ou constranger o silêncio.
  • Evitar respostas longas ou fechadas que encerram o assunto antes que ele comece.
  • Reconhecer e agradecer toda tentativa de fala, mesmo quando ainda é confusa ou insegura.
  • Caso não entenda perfeitamente a pergunta, converse e tente esclarecer antes de responder.
  • Ao responder, pergunte se foi claro e reforce se ainda permanece alguma dúvida.
  • Incentive as participações, por exemplo, informando que quando há dúvidas, comentários, citação de exemplos ou casos, esta participação ajuda o grupo e o próprio expositor a melhor apresentar as ideias.
  • Agradecer sempre as participações.

Quando o ambiente muda, a voz aparece.

E, muitas vezes, ela só precisava se sentir segura para existir.

Talvez o jovem não fale porque ainda está aprendendo a confiar

Confiar que pode errar.

Confiar que será ouvido.

Confiar que não será reduzido a um rótulo espiritual.

E isso leva tempo.

O Espiritismo não é uma prova oral. É um caminho de consciência.

Fica a pergunta final

Se o jovem não fala na reunião de mocidade…

Será que ele não tem nada a dizer — ou será que ainda não encontrou um espaço seguro para falar?

Referências

[1] Organização Mundial da Saúde (OMS) — Relatórios sobre saúde mental e juventude.
Tema: Ansiedade e jovens no mundo.

[2] IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde (PNS).
Tema: Saúde emocional de jovens brasileiros.

[3] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução.
Ideia central: o estudo e a pergunta como caminho para a compreensão.

[4] American Psychological Association — Ansiedade social e participação em grupo.
Tema: medo do julgamento e bloqueio da fala.

[5] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XIX.
Ideia central: fé raciocinada, não imposta.

[6] BAUMAN, Zygmunt. Comunidade.
Tema: pertencimento simbólico e participação social.

A IMPORTÂNCIA DOESTUDO E O LIVRO

Como aprender uma ciência sem realizar seu estudo profundo? Como realizar esse estudo profundo sem mergulhar na leitura dos livros que abordam essa ciência? Essas perguntas também se referem ao Espiritismo ou Doutrina Espírita, que é uma ciência e uma filosofia com vastas consequências morais, portanto, não se pode aprender o Espiritismo com leituras...

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