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Quadras de um poeta morto

Autor: Antônio Nobre (espírito)

*

Coração, não vos canseis

De bater… que importa lá?

Porque os amores fiéis,

Nem a morte os vencerá.

*

Ó figuras de velhinhos

Que andais dormitando ao léu!

Como são belos os Linhos

Que vos esperam no Céu!

*

Dizem que os mortos não voltam…

Voltam sim. E por que não?

Os corpos daí nos soltam,

Como às aves o alçapão.

*

Nem gritos e nem cantigas

Entre vós que à noite andais;

As almas das raparigas

Inda sonham nos choupais.

*

Nas grandes mansões da morte

Inda há romance e noivados,

Venturas da boa sorte,

Corações despedaçados.

*

Quem riu ontem, quem ri hoje,

Nem sempre poderá rir…

Um dia o riso lhe foge,

Sem que o veja escapulir.

*

Riquezas, que valem elas

Se estão na sombra ou sem luz?

Tesouro são as estrelas

Da bondade de Jesus.

*

Pode-se amar o veludo

De uns olhos e os brilhos seus,

Porém, acima de tudo

Devemos amar a Deus.

*

Vós que amais a luz da Lua,

De vossa alma abri as portas

Para. os fantasmas da rua,

Que choram nas horas mortas.

*

Pensei que a morte era o fim

Das ânsias do coração;

Contudo, não é assim…

Nem pó e nem solidão.

*

Às vezes acham-se fojos

Onde há música e festins,

E há muitos cardos e tojos

Entre as flores dos jardins.

*

Se eu pudesse, estenderia

Minhas capas de luar,

Sobre os filhos da agonia

Que andam no mundo a penar.

*

A morte só pode ser

A vida risonha e pura,

Para quem a padecer

Vive aí na sepultura.

*

Mal vais, se vais caminhando

Na ambição de ouro e glória;

Nesse mundo miserando

Toda ventura é ilusória.

*

Chorai! chorai orfãozinhos,

Vossas dores amargosas:

Achareis noutros caminhos

As vossas mães extremosas.

*

Deixa cantar, ó menina,

Teu coração sonhador…

No sepulcro não termina

O novelário do amor.

*

Um anjo cheio de encanto

Vive sempre com quem chora,

Guardando as gotas de pranto

Numa urna cor da aurora.

*

No Universo há céus profundos,

Cheios de vida e esplendor,

Um céu é um ninho de mundos,

Um mundo é um ninho de amor.
*

A caridade é a beleza

De um divino plenilúnio,

Luz que se estende à pobreza,

Na escuridão do infortúnio.

*

Aos mendigos desprezados

Não ridicularizeis,

São senhores despojados

Dos seus tesouros de reis.

*

Aqui, a alma inda espera

O alguém que na Terra amou,

O raio de primavera

Que aí jamais encontrou.

*

Há quem faça aí mil contas,

Que os interesses resuma,

Mas morrem cabeças tontas,

Sem fazer conta nenhuma.

*

Tecei sonhos, fiandeiras,

Oh! almas enamoradas,

Vivei aí nas clareiras

De luzes alcandoradas.

*

Ah! que sinto aqui saudades

Das noites de São João,

Sonho, estrelas, claridades,

Cantigas do coração.

Nota

A poesia acima, psicografada por Francisco Cândido Xavier, faz parte do livro Parnaso de Além-Túmulo

Obra completa: https://www.febeditora.com.br/parnaso-de-alem-tumulo

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